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sábado, setembro 05, 2015

JOHNNY GUITAR (1954)

JOHNNY GUITAR
Um filme de NICHOLAS RAY

Com Joan Crawford, Sterling Hayden, Mercedes MacCambridge, Scott Brady, Ward Bond, Ben Cooper, Ernest Borgnine, John Carradine, etc.

EUA / 110 min / COR / 
4X3 (1.66:1)

Estreia nos EUA: NY, 26/5/1954
Estreia em PORTUGAL: Lisboa (cinema Condes), 28/1/1955


«O cinema é Nicholas Ray»
(Jean-Luc Godard)

«"Johnny Guitar" tem mais importância na minha vida
do que na vida do próprio Nicholas Ray»
(François Truffaut)


Johnny: «How many men have you forgotten?»
Vienna: «As many women as you've remembered»
Johnny: «Don't go away»
Vienna: «I haven't moved»
Johnny: «Tell me something nice»
Vienna: «Sure, what do you want to hear?»
Johnny: «Lie to me. Tell me all these years 
you've waited. Tell me»
Vienna: «All those years I've waited»
Johnny: «Tell me you'd a-died if I hadn't come back»
Vienna: «I woulda died if you hadn't come back»
Johnny: «Tell me you still love me like I love you»
Vienna: «I still love you like you love me»
Johnny: «Thanks. Thanks a lot»

Este pequeno diálogo, desencantado e amargo (Truffaut chamou-lhe "jogo cruel"), entre as personagens centrais de “Johnny Guitar”, é o ponto mais alto do filme de Nicholas Ray ou, pelo menos, a sequência que o público recorda de imediato. Nele se resume o centro nevrálgico da história: o reencontro entre o passado e uma eventual perspectiva de futuro. Johnny Guitar é o homem que veio de longe. Foram cinco anos que esteve afastado de Vienna e agora o amor parece renascer das cinzas. Pretendendo fugir a um passado de violência, Johnny Logan troca o apelido e o revólver pela guitarra. Mas no antigo Oeste a guitarra não chega para fazer valer os direitos. E Johnny voltará a ser Logan, o temido e respeitado gunfighter. Extraído de um mau romance de Roy Chanslor, "Johnny Guitar" viu o seu argumento totalmente reinventado (acho que apenas o título foi aproveitado), com a introdução de brilhantes diálogos, escritos pelo próprio Nicholas Ray e por Philip Yordan, na altura um dos grandes argumentistas de Hollywood:


«O filme teve muitos aborrecimentos com a censura e depois com a crítica; mas financeiramente foi um sucesso que salvou os estúdios Republic. As alusões antimaccarthystas estiveram na origem dos nossos problemas, bem como o ataque ao puritanismo através da personagem da velha rapariga recalcada, interpretada por Mercedes MacCambridge Convém recordar que "Johnny Guitar" foi rodado em 1953, ou seja, ainda sob a ameaça maccarthysta, apesar de ter sido nesse ano que McCarthy foi politicamente liquidado. A época da "caça às bruxas" é subtilmente denunciada por Ray e Yordan e qualquer um deles sempre confirmou essa intenção da "parábola antimaccarthysta". Voltando a Yordan: «Devo-lhes dizer que o tema de "Johnny Guitar" me obcecou sempre. Uma pessoa vive pacatamente num sítio calmo e de repente aparecem uns tipos que dizem: "Por isto e mais aquilo, não tem o direito de viver aqui, ponha-se a andar, senão..." O que eu quero saber é porque é que uma pessoa não tem o direito de viver onde quer. Julgo que o assunto é essencialmente moderno, um drama devido ao desenvolvimento da moral pequeno-burguesa que favorece essa política de terror.»


É óbvio que “Johnny Guitar” é na sua essência um western, mas é certamente um western atípico, que foi muito amado pela geração cinéfila antes da minha, ou seja, pessoas cujas idades andam hoje à volta dos 80 anos. Confesso desde já que não partilho dessa idolatria, se bem que goste muito do filme e do cinema de Nicholas Ray (1911-1979) em geral. Mas “They Live By Night / Os Filhos da Noite” (a sua estreia em 1948), “In A Lonely Place / Matar ou Não Matar” (Gloria Grahame em todo o seu esplendor, 1950), “Rebel Without A Cause / Fúria de Viver” (o segundo filme de James Dean, 1955) ou “Bigger Than Life / Atrás do Espelho” (uma interpretação memorável de James Mason, 1956) são filmes que pertencem muito mais ao meu campeonato. O que não me impede de perceber as razões que estão na base do pedestal que sobretudo os críticos mais antigos sempre colocaram este filme. Destaco desde logo João Bénard da Costa (1935-2009), porque o nome do antigo director da Cinemateca Portuguesa era quase sinónimo de Johnny Guitar. Apesar de, muito estranhamente, não ter incluído o que ele considerava como o "filme da sua vida" num inquérito em que participou em 1982, sobre os melhores filmes de sempre. Recordemos uma sua crónica:


«Era inevitável. Tinha de ser. Se escrevo sobre “os filmes da minha vida”, como podia ficar de fora “o filme da minha vida”, my Johnny Guitar? Só mesmo quem não me conheça nem mais gordo nem mais magro, podia supor que um dia destes - mais cedo ou mais tarde - o Johnny Guitar não enchia esta página. Faz parte das minhas lendas - como essa de dizer-se que eu sabia o Larousse de cor aos sete anos - atribuírem-me centenas de visões do "Johnny Guitar". Num caso como noutro há exagero. Só vi o “Johnny Guitar” 68 vezes, entre 1957 e 1988. Dá para saber de cor? Nunca se sabe o “Johnny Guitar” de cor. Cada vez é uma nova vez. Como género, é classificado entre os westerns. Estreou-se na América, a 27 de Maio de 1954, sob o signo de Gêmeos. É um filme de Nicholas Ray, que tinha 42 anos, 9 meses e 20 dias na noite de estreia. Na filmografia do autor, iniciada em 1948, é o opus 9. Depois dela assinou mais 13 longas-metragens, até morrer, lightning over water, num filme de Wim Wenders, em 1979.


“Johnny Guitar” foi feito para uma pequena companhia - a Republic - e custou pequeno dinheiro. A crítica americana tratou-o com os pés (“the silliest film of the year”), mas o público, sem que ninguém conseguisse explicar por quê, encheu as salas meses a fio. Herbert J. Yates, produtor da obra, abarrotou os bolsos. Quando o filme chegou à Europa - em 1955 - as posições críticas extremaram-se. Alguns - poucos - apanharam o micróbio a que há mais de trinta anos dou casa e pucarinho. A maioria achou que só gente gravemente perturbada ou gravemente analfabeta podia gostar. Ou, então, cegos, surdos, mudos, paralíticos e aleijadinhos dos cornos. Eu e mais alguns passamos vexames, quando a polêmica chegou a Portugal. O nosso delírio provocava. Quem provoca maiorias ou o senso comum acaba sempre por levar mais do que dá. Só que, no caso de “Johnny Guitar”, vivi o bastante para ver o mundo dar as tais voltas. Quando, em 1981, programei o filme para a Gulbenkian, num ciclo de cinema americano dos anos 50, a enchente foi tal que teve de haver bis. Depois, de cada vez que o filme passa na Cinemateca (e tenho-o programado com razoável frequência), não cabe um alfinete. Uns milhares de portugueses vão hoje por Nick Ray. Aconteceu o mesmo por toda a parte. “La Belle et la Bête du western”, como à época escreveu Truffaut, transformou-se na própria definição de cult movie.


Nick Ray, que também viveu o suficiente para assistir a esta viragem, adiantou um dia algumas razões para explicar este fenômeno: 1) foi a primeira vez, num western, que as mulheres foram simultaneamente as principais protagonistas e as principais antagonistas; 2) é um filme cheio de luz e calor. Opunha-se ao estilo do “cinema negro” que predominava nessa época; 3) é um filme em que a cor é valorizada, devido a uma hábil estrutura arquitectónica; 4) foi o primeiro filme a utilizar a cor em toda a sua potencialidade; 5) utilizou o décor e a paisagem para potencializar ao máximo a imagem; 6) continha certas inovações psicológicas. Os homens eram cobardes e estúpidos, as mulheres apareciam como personagens dominantes. Não serei eu quem o desminta, mas muitas dessas coisas foram à época das que mais serviram para atacar a obra. Odiaram as mulheres (Joan Crawford e Mercedes MacCambridge), acharam a cor (um processo chamado trucolor) de insuportável mau gosto, berrante e exageradíssima. Por mim, acho que não vale a pena tentar explicar. De “Johnny Guitar” só sou capaz de falar delirando. Deus e tantos - amigos e inimigos - sabem como é quando me largam...


Disse-se, por exemplo, que era o filme com mais belo diálogo da história do cinema (eu, pelo menos, disse-o). Alguns convenceram-se por esse lado e recordo programas de cineclubes, ou artigos de revistas, que publicaram aquele famoso encadeado de perguntas e respostas entre Guitar (Sterling Hayden) e Vienna (Joan Crawford) quando começam a evocar o passado, na noite da chegada de Johnny ao saloon de Vienna. É quando ele lhe pede para ela entrar e dizer “something nice”, quando ele lhe pede para ela lhe mentir. “Tell me you love me like I love you.” Mas, reduzida a escrita a seco, o diálogo é constrangedoramente banal. Se as pessoas ficam com tal memória dele é pelo concerto de vozes que se ouvem no filme - raspante a de Crawford, átona a de Hayden - e pela associação delas à fabulosa partitura de Victor Young. É pelo modo como a câmera e os corpos se movem durante, é pelo contraste dos encarnados, dos verdes e dos castanhos. É pela prodigiosa presença daquele décor gruta, alucinantemente barroco, simultaneamente mausoléu, bordel e casa de feitiços.


Muitas vezes ouvi a banda sonora de “Johnny Guitar” sem ver as imagens. Tudo bem, por acréscimo, toda a memória do filme se repovoa. Mas, para que isso suceda, é preciso haver memória, é preciso ter-se visto o filme. Se é verdade que “Johnny Guitar” é também uma ópera, não o é menos porque está dependente daquela única e irredutível mise en scène. Rever as imagens (ou os sons) do “Johnny Guitar” é rever a recordação delas. Para quem o vê pela primeira vez é ainda de rever que se trata. Porque todas as personagens - os doze actores principais, cada um deles essencial - não fazem outra coisa. Quando o filme começa - na tarde em que mataram o irmão de Emma (Mercedes MacCambridge) - Johnny Logan, que se irá chamar Johnny Guitar, volta para o pé de Vienna, de quem se separou há cinco anos. Por que se separaram? Por que o mandou chamar ela? Por que volta ele? Nunca, no filme, nos são dadas respostas a tais perguntas. Também nunca sabemos o que se passou com cada um deles nesses cinco anos em que não se viram, entre uma tarde no Hotel Aurora (desse hotel, sim, se fala no filme) e a tarde em que Johnny regressa. Mas, nesses cinco anos, se fabricou o sentimento dominante de cada um dos protagonistas: a amargura de Vienna, o cansaço de Johnny, o ódio de Emma, ou o amor por Vienna daquele miúdo loiro que acaba com o pescoço rasgado, no cavalo e na forca, a pedir que cumpram a promessa que lhe tinham feito de o salvar.


“Johnny Guitar” é um filme construído em flashback sobre uma imensa elipse? Ou é uma imensa elipse construída sobre um flashback que não pode come back? Ou será que é tudo a mesma coisa? Não vou continuar. Como as coisas muito grandes, “Johnny Guitar” não se explica. Conta-se (vê-se) outra, outra e outra vez como as histórias que se contam às crianças, até que tudo se saiba de cor e se aprenda que tudo está certo nelas. É a Imitação de Cristo dos cinéfilos. Basta abrir-se ao acaso e encontrar-se a frase certa. Basta ver pela sexagésima oitava vez e encontra-se a resposta certa para o que se está a viver. Quando o bando de Emma entra pelo saloon de Vienna, para a prender, os misteriosos croupiers param as roletas. Enfrentando Emma com o seu terrível olhar, Vienna, sem desviar os olhos dela, dá uma seca ordem: «Keep the wheel spinning, Ed. I like to hear it spin.» No fim de cada visão de “Johnny Guitar”, só me apetece dizer aos projecionistas: «Keep the film spinning, Ed. I like to see it spin.» Tanto, tanto.


"Johnny Guitar" é um western onde as mulheres assumem o papel central: é à volta delas que tudo gira. A insinuação, de alguns críticos, que Nicholas Ray teria induzido uma relação lésbica entre Emma e Vienna, é puro exercício de imaginação. O que realmente existe entre as duas mulheres é ódio, ódio puro (que, segundo rezam as crónicas, existiu mesmo entre Merceds McCambridge e Joan Crawford). Dois anos antes Fritz Lang tivera essa mesma ideia ao construir o seu filme, "Rancho Notorious / O Rancho das Paixões", com o foco principal numa mulher (Marlene Dietrich). Embora raramente Ray associe os dois filmes, as relações são óbvias e é impossível que Nick não tenha sido influenciado por ele, dada a proximidade das duas obras. Quando lhe perguntaram o que o levou a fazer o filme, respondeu: «Toda a gente dizia, nessa altura, que o western estava acabado em Hollywood. Era um género mais ou menos relegado para a televisão. Quem quisesse fazer um western era doido varrido. Pois muito bem. Resolvi não só dirigir um, mas produzi-lo. E decidi quebrar todo o raio de regras que podiam ser quebradas num western. A única razão pela qual fui convidado para fazer "Rebel" foi porque ninguém percebia como é que o "Johnny Guitar" estava a fazer tanto dinheiro. Os tipos da Warner estavam varados, não conseguiam perceber. Disse a Phil Yordan, que escreveu o argumento: esta é a estrutura do filme. Não quero que Crawford e Hayden tenham uma única cena de amor completa. Têm que ser sempre interrompidos, ou um pelo outro, ou pelo Kid e pelo seu gang. E nunca deixe a tensão abrandar, nem por um segundo.»


Os heróis de Ray (neste e em outros filmes seus) são anticonformistas que recusam deixar-se corromper pelo dinheiro ou pela política, querendo conservar, a todo o preço, a força e a generosidade da sua juventude, refugiando-se numa revolta gratuita e impotente em consequência da sua própria solidão; e que se agarram aos objectos pelo desespero de não poder renunciar à sua integração no tempo que passa. Como escreveu Alberto Vaz da Silva, «O cinema de Nick Ray é o cinema dos homens que se contradizem a si próprios, irremediavelmente solitários e inadaptados, "ternos guerreiros", "novos demais na terra" que são, como o cineasta a si próprio se definiu, "strangers in this world". As suas lutas não admitem esperança, as suas vitórias são sempre amargas. Pisam um "dangerous ground" que impede os "momentos perfeitos" e a comunicação só consentida na morte. Cineasta da fragilidade e do efémero, com "uma sensibilidade de esfolado vivo" (como já se escreveu), os seus filmes são uma permanente variação sobre o tema do amor fiel e do amor traído (onde a traição é, porventura, a suprema fidelidade), sobre os "rebeldes sem causa", sobre os "que se cumprem na imperfeição, no medo, no amor incumprido e pressentido, incompreendido dos homens e das coisas".» "Johnny Guitar" é um filme absorvente, uma meditação sobre o homem e a sua condição, onde a violência e o amor se interligam numa dialéctica profunda entre a realidade e a utopia. Outra das características fundamentais de "Johnny Guitar" é o uso, propositado, de cores saturadas. Essa faceta do filme (quase sempre apontada nos rios de tinta que já se escreveram sobre a obra), é considerada um marco, não sómente na filmografia de Ray (até pelo facto de ser o seu primeiro filme a cores) mas na própria história do cinema. No seu livro/documentário "Uma viagem pessoal pelo cinema americano", Martin Scorsese define "Johnny Guitar" como uma legítima obra barroca dentro do cinema clássico.


Como já acima se referiu, "Johnny Guitar" foi um filme idolatrado por toda uma geração de cinéfilos, sobretudo na Europa, onde a sua importância foi mais destacada, nomeadamente pelos jovens turcos da Nouvelle Vague francesa. Lembremos o que François Truffaut escreveu em 1955 sobre este filme mítico: «"Johnny Guitar" não está longe de ser o melhor filme de Ray. É sabido que é um western que choca pela sua extravagância, ou melhor, um falso western, embora não seja um "western intelectual". É um western sonhado, feérico, irreal enquanto possibilidade, delirante. Se pudermos distinguir duas famílias de cineastas, os cerebrais e os instintivos, eu classificaria de bom grado Nicholas Ray na segunda categoria, a da sinceridade e da sensibilidade. No entanto, adivinha-se um intelectual especial, que sabe abtrair-se de tudo o que não vem do coração. Não é um grande tecnicista, mas é evidente que Ray procura menos o sucesso tradicional e global de um filme do que dar a cada um dos planos uma certa qualidade emotiva. "Johnny Guitar" é feito, bastante à pressa, de planos longos, feitos em pedaços, resultando numa montagem mastigada; mas o interesse está noutro lugar: por exemplo, no belíssimo emquadramento das pessoas (quando se encontram na casa de Vienna, os elementos da patrulha dispõem-se e evoluem em forma de V, como as aves migratórias).


Existem dois filmes em "Johnny Guitar": o de Ray (as relações entre os dois homens e as duas mulheres, a violência e a amargura), e todo um bazar extravagante no estilo Josef Von Sternberg, absolutamente exterior à obra de Ray, mas que aqui não lhe é estranho. É desta forma que se pode ver uma Joan Crawford de vestido branco, a tocar piano num saloon cavernoso, entre candelabros e um revólver. "Johnny Guitar" é "A Bela e o Monstro" do western, um filme do Oeste. Nele, os cowboys desmaiam e morrem com uma graciosidade de bailarinas. A cor triste e violenta da truecolor contribui para a sensação de estranheza, as tonalidades são vivas, por vezes muito belas, e sempre inesperadas. "Johnny Guitar" foi feito à medida para Joan Crawford, tal como "Rancho Notorius / O Rancho das Paixões", de Fritz Lang, para Marlene Dietrich. Joan Crawford foi uma das mulheres mais belas de Hollywood; hoje, ultrapassa os limites da beleza. Tornou-se irreal, como o fantasma de si mesma. A brancura invadiu-lhe os olhos, a crispação ocupou-lhe o rosto. Vontade de ferro, rosto de aço. Ela é um fenómeno. Viriliza-se ao envelhecer. A sua actuação crispada, tensa, levada ao paroxismo por Nicholas Ray, constitui por si só um espectáculo estranho e fascinante.»



CURIOSIDADES:

- A certa altura no filme, Johnny profere as palavras «I’m a stranger here myself». Era a fase preferida de Nicholas Ray, que a usava como título provisório de todos os seus filmes.

- Sterling Hayden não gostou nada, mas mesmo nada, de contracenar com Joan Crawford: «Não existe dinheiro em Hollywood que me faça entrar noutro filme com ela. E eu gosto bastante de dinheiro.» Pelos vistos, não foi só o actor a ter problemas com a “estrela” do filme. Mercedes MacCambridge chegou a envolver-se uma noite com Joan Crawford, tendo as duas actrizes rompido as roupas uma da outra. No filme existe uma passagem em que as personagens respectivas dizem: «Emma: I’m going to kill you! / Vienna: I know. If I don’t kill you first»

- Todos os close-ups de Joan Crawford foram filmados em estúdio por exigência da actriz, pois dessa forma ela própria podia controlar a iluminação.

- O tema do filme, composto por Peggy Lee e Victor Young, é interpretado parcialmente pela própria cantora, durante os créditos finais.

- No livro "Conversations With Joan Crawford", editado em 1977, a actriz desabafa: «Não há desculpa por "Johnny Guitar" ser um filme tão mau nem pelo facto de eu ter participado nele»

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quinta-feira, dezembro 11, 2014

IT'S A WONDERFUL LIFE (1946)

DO CÉU CAÍU UMA ESTRELA
Um Filme de FRANK CAPRA


Com James Stewart, Donna Reed, Lionel Barrymore, Thomas Mitchell, Henry Travers, Beulah Bondi, Frank Faylen, Ward Bond, Gloria Grahame, H.B. Warner, Frank Albertson, etc.

EUA / 130 min / PB / 4X3 (1.37:1)

Estreia nos EUA a 20/12/1946
Estreia em PORTUGAL a 30/11/1947
(Lisboa, cinema Politeama)
Não existe filme mais apropriado para o Natal do que esta pequena maravilha de Frank Capra. Ao longo das décadas foi certamente  o filme mais programado pelas televisões de todo o mundo para a noite de consoada ou para o próprio dia de Natal. E é no mínimo estranho o facto de "It's a Wonderful Life" ter sido um autêntico flop comercial quando se estreou a 20 de Dezembro de 1946 - em plena época natalícia portanto - na cidade de Nova Iorque. Mas como diz o ditado, «ri melhor quem ri por último» e hoje, passados que são 68 anos (!), "It's a Wonderful Life" (por uma vez bem traduzido em português como "Do Céu Caíu Uma Estrela") aí está, com o mesmo brilho de sempre, a encantar sucessivas gerações de cinéfilos. Não serei portanto original, mas não posso deixar de o sugerir para (mais) esta quadra festiva. Se puderem, mandem vir a versão em blu-ray, que não está bloqueada (região 0), inclui legendas em brasileiro, o documentário "The Making of It's a Wonderful Life" e ainda a versão a cores do filme (esta obviamente perfeitamente dispensável). Deixo-vos com os votos de um Bom Natal e o comentário que o saudoso João Bénard da Costa fez sobre o filme em 1999.


Clarence: «You've been given a great gift, George: 
A chance to see what the world would be like without you»

Em "The Name Above the Title", Frank Capra conta com vagar a génese deste wonderful film. Capra regressava da guerra a Hollywood e tinha que se readaptar a uma capital do cinema que mudara muito (post-guerra quente e pré-guerra fria). Um dia, Charles Koerner entrou-lhe pela porta (porta do recém inaugurado Liberty Films, que Capra fundara com William Wyler e George Stevens para continuar a ter "The Name Above the Title") com meia dúzia de páginas dactilografadas em forma de cartão de Natal que continham o script que Dalton Trumbo extraíra do conto de Van Doren Stern "The Greatest Gift". Dou a palavra a Capra: «Era a história que toda a vida procurara. Uma cidadezinha. Um homem. Um homem bom, ambicioso. Mas tão preocupado em ajudar os outros, que deixava perder as oportunidades da vida. Um dia, perdeu a coragem. Desejava nunca ter nascido. E esse desejo era-lhe satisfeito. Meu Deus, que história! O género de história que fará dizer às pessoas quando eu fôr velho e estiver a morrer: foi ele quem fez "The Greatest Gift"». Capra comprou imediatamente os direitos mas encarregou o casal Hackett - Albert Hackett e Frances Goodrich - (que tinham feito a série do "Homem Invisível" e depois escreveriam musicais como "The Pirate", "Summer Holiday", "Easter Parade", "Give a Girl a Break", "Seven Brides for Seven Brothers" ou a série dos "Pais da Noiva") de reescrever a história. Para o protagonista escolheu imediatamente "o único actor que podia fazer aquele papel": Jimmy Stewart, como Capra, no seu primeiro filme post-guerra. E rodou "It's a Wonderful Life" em quatro meses (de Abril a Agosto de 46) "num orgasmo ininterrupto", Quando o concluiu estava firmemente convencido de ter feito «the greatest film I have ever made. Better yet I thought it was lhe greatest film anyboby ever made».

 Mas a América (e o mundo) tinham mudado muito. E se o filme ainda valeu a Capra a sua sétima (e última) designação para o Oscar (que perdeu a favor de outra produção da Liberty Films, "The Best Years of Our Lives" de Wyler), como designação valeu a James Stewart, o sucesso foi bastante relativo. Não faltou quem dissesse que o Capra-corn se estava a tornar cada vez mais corn e menos Capra e quem escrevesse que «a história era tão piegas, que roçava o infantilismo». Bosley Crowther no New York Times chamava-lhe «um repertório de banalidades melodramáticas». E nenhum anjo desceu do céu para o ajudar no meio dessa irónica indiferença. Capra ainda fez mais meia dúzia de bons filmes, mas o seu inconfundível touch chegou aqui ao final. Nunca mais houve um Capra assim. Mas o tempo, nas suas muitas voltas, veio dar razão ao cineasta. 53 anos depois," It's a Wonderful Life" é um cult-movie e o mais amado dos filmes de Capra. Danny Peary na sua obra sobre os cult-movies afirma mesmo acreditar que qualquer inquérito o incluiria entre os mais populares filmes americanos de sempre, ao lado do "Feiticeiro de Oz", de "E Tudo o Vento Levou", de "Casablanca", de "Música no Coração" ou de "A Guerra das Estrelas"

Para mim, "It's a Wonderful Life" é paixão antiga desde que o vi no Politeama, tinha eu doze anos. E muitas vezes, ao longo da vida, me tenho lembrado da moral desta fábula (corn ou not corn) e a tenha contado a gente que repete, com James Stewart, que «era melhor não ter nascido». E nunca consegui deixar de chorar no tear-jerking finale, «admittedly one of the most sentimental endings of all time» (estou a citar Danny Peary). Mas se esse final, após a "ressurreição" de James Stewart, com "The Bells of Saint Mary" no cinema da terra (second feature), a dedicatória no Tom Sawyer, a música de Natal, os milhões de merry christmas, os milhares de dólares a cair no cesto e os milhares de amigos a entrar é, de facto, o mais tear-jerking e o mais natalício dos finais de um filme (que deve ser o que mais vezes foi programado pelas televisões para a noite de Natal) não penso, como a maioria dos críticos, que este filme seja o mais optimista dos filmes de Capra. Já em tempos comparei a estrutura das suas obras precedentes (sobretudo "Mr. Smith Goes to Washington") com a dos westerns clássicos. O cowboy que veio parar a uma cidade de "duros" , apanha   muita "porrada"  e no final vence o "mau" da fita, no último duelo.

Nesses filmes, esse herói, chamasse-se Gary Cooper ou James Stewart, vencia sózinho ou acompanhado por uma minoria de "bons", a princípio aterrorizada e depois, à medida que o "herói" crescia, mais desenvolta nos seus auxílios. Aqui, neste filme com que se encerra o ciclo do great old Capra, James Stewart vence também, mas precisa de uma ajuda de que até aí jamais precisara: a do anjo de 293 anos chamado Clarence Goodbody que, de resto, desceu à terra não apenas para o ajudar, mas para ganhar as asas que em todo esse tempo ainda não tinha conseguido alcançar. O personagem é prodigioso, Henry Travers é-o também, mas essa "descida à terra" não nos deve fazer esquecer que todo o filme é visto do ponto de vista do céu. Ao princípio estamos na terra («You are now in Bedford Palls») na mesma noite de Natal do fim, com a neve a cair e os sons do Natal. 

Ouvimos em off orações e a câmara vai até às estrelas, onde Clarence trata Deus por "Sir". Deus tem uma voz de patrão, firme e dura, manda-o sentar e dá-lhe uma hora para ele se vestir. E quando ele está "sentado" (a câmara sempre nas estrelas, sem personagens) convida-o para um "bom filme": a vida de George Bailey desde o dia, aos sete anos, em que salvou o irmão mais velho de morrer afogado, até à noite de Natal que é tempo de todo o filme. Ao princípio, não se vê nada (quem não tem asas, não vê dos outros planetas) até que a imagem foca "o começo do filme". E quando passamos da infância à idade adulta, de Bobby Anderson a James Stewart, Deus  diz a Clarence «Take a good look on him» e o plano imobiliza-se em paralítico com James Stewart de braços todos abertos, no arquétipo da imagem capriana, que também no cinema nunca mais voltou a ter (depois é o James Stewart de Mann, de Hitchcock, de Ford, tão genial como sempre, mas bem diferente como personagem). É como se Capra nos dissesse também que nunca mais ninguém o iria ver assim, como fora em "You Can't Take It With You" ou como fora em "Mr. Smith".

A história da vida de George Bailey é a história de coisas tão bonitas, como Gloria Grahame a fazer parar o trânsito, o graduation ball de 1928, com James Stewart a dançar o Charleston como Fonda dançava a valsa no "Young Mr. Lincoln"; aquele espantoso mergulho colectivo; Donna Reed "the prettiest girl in town"; o roupão caído, ela atrás dos arbustos e a morte do pai; os discursos de Stewart (sempre vagamente demagógicos); o "point me in the right direction"; o telefonema a três e o beijo a dois (a câmara sem se mexer, num dos mais prodigiosos planos que alguma vez alguém assinou); a "wedding night"; e o beijo de Ernie a Bert (essa sequência é inadjectivável); James Stewart, o charuto e o aperto de mão a Barrymore; a guerra em filigrana, e tanto mais. Mas é também, em surdina, o elogio do sacrifício e por breves apontamentos (um olhar de Stewart para o irmão ou para a mãe, o espantoso e patético personagem de Thomas Mitchell) a insinuação que basta um leve toque e podemos ver o negativo de tudo isso. E a noite da inexistência de Stewart é esse negativo. 

Os mesmos geniais secundários, fraternais e solidários, "mudam de filme" e quem vence são outros arquétipos deles, patentes nos casos de Beulah Bondi, Ward Bond, Frank Foylen. Aparentemente, esses eram os que não tinham razão para mudar. Se percebemos que o farmacêutico tivesse ido parar 20 anos à cadeia, não fosse George, se percebemos que o irmão tivesse morrido, não fosse George, se percebemos (já mais forçadamente) que Donna Reed tivesse ficado solteirona e de óculos, não fosse George, porque mudaram tanto todos os outros, porque são todos tão agrestes e rudes? E - o que é mais - porque mudou a cidade toda (mudou até de nome) convertida num vasto lupanar, entre strip-teases e luzes agressivas? E por que é que o único personagem que George não re-visita é Lionel Barrymore, o único que não podia ter mudado? Pode um homem só transformar tanto a vida de todos? Capra diz-nos que sim, mas diz-nos que sim, não no real, mas no "filme mostrado" por Deus a Clarence e, depois, na noite que resultou do "truque" do Anjo. De certo modo, "It's a wonderful life" (mas no cinema...), "it's an awful city", mas com batota.

É por isso que a explosão final é tão forte. Porque tudo o que até aí fora um pouco mágico (coisa de anjos e estrelas) e encarna naquela noite de Natal, em que a presença do Anjo é apena a de uma discreta campainha, sob a força do plano de George com os filhos ao colo e dos dólares que vêm de tudo e de todos. Para um tal hino à vida e ao amor (a palavra final da dedicatória de Clarence) foi preciso ir até às estrelas. Forçar um pouco a mão ao destino, para melhor tentar a liberdade. Não se trata de viajar no passado para descobrir a inelutabilidade dele, mas de não sair da mesma noite, para mostrar como o futuro a modifica. Aparentemente construído em flashback, este filme desfila como as imagens dele. A vida na terra, mesmo em Bedford Falls, é bem mais maravilhosa e mais comovente do que a vida dos anjos que a deixam (apesar das asas ganhas) com uma secreta nostalgia. No céu, não há Natais. Esse é o lote dos homens e é por isso que "it's a wonderful life". Por mais simpático que o anjo seja, não temos pena nenhuma de o ver desaparecer. O nosso amor é George Bailey - James Stewart, em paralítico ou na agitação frenética da imensa alegria final.
(João Bénard da Costa, 1999)


CURIOSIDADES:

- A primeira versão do filme terminava com a canção "Ode to Joy", que depois foi substituída por "Auld Lang Syne"

- James Stewart estava nervoso quando filmou a cena do beijo ao telefone, com Donna Reed. No entanto, o actor acabaria por fazer a cena num único take e de tal modo persuasivo, que a cena teve de ser encurtada para evitar problemas com os censores da época.

- Jean Athur foi a primeira escolha de Frank Capra para o papel de Mary. No entanto a actriz já se encontrava comprometida para uma peça na Broadway e teve de declinar o convite

- A piscina situada por baixo do ginásio existia na realidade (não foi trucagem), e pertencia ao Liceu de Beverly Hills, em Los Angeles

- Dalton Trumbo, Dorothy Parker e Clifford Odets colaboraram todos eles no argumento do filme, sem que os seus nomes alguma vez tenham sido citados.

- Em 2006, o American Film Institute votou "It's a Wonderful Life" como o filme mais inspirador de todos os tempos. No ano seguinte, o mesmo AFI classificou-o em 20º lugar na lista dos melhores filmes de sempre

- Apesar de centrado na época natalícia, o filme foi rodado em pleno Verão, debaixo de altas temperaturas

- Filme favorito de James Stewart e Frank Capra

- Frank Capra ganhou o Globo de Ouro pela realização e o filme teve 5 nomeações para os Óscares, nas categorias de Director, Filme, Actor Principal, Som e Montagem



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