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domingo, junho 22, 2025

THE BLUES BROTHERS (1980)

O DUETO DA CORDA
Um filme de JOHN LANDIS



Com John Belushi, Dan Akroyd, Cab Calloway, John Candy, Carrie Fisher, Kathleen Freeman, James Brown, Aretha Franklin, John Lee Hooker, Ray Charles, etc.


EUA / COR / 133 m / 16X9 (2.35:1)


Estreia no Canadá / EUA a 20/6/1980

Estreia em Portugal (Lisboa) a 27/3/1981



Reverend Cleophus James: Do you see the light?
Elwood: What light?
Reverend Cleophus James: Have you seeeen the light?
Jake: Yes! Yes! Jesus H. Tap-Dancing Christ! I have seen the light! The band, Elwood! The band!
Elwood: The band? The band. The band? The band!
Reverend Cleophus James: Praise God!
Elwood: And God bless the United States of America!

Com argumento assinado por John Landis e Dan Aykroyd, esta frenética comédia musical é a transposição para o cinema dos personagens criados por Akroyd e John Belushi no famosíssimo programa de televisão “Sarturday Night Live”.  Uma homenagem à música soul e rhythm ’n’ blues, que transborda nas interpretações dos dois Blues Brothers e da banda de luxo, onde pontificam músicos que integraram grupos famosos dos anos sessenta do século passado, para além de outros que faziam parte da Saturday Night Live Band, e temos também a oportunidade de assistirmos a interpretações fabulosas de Ray Charles, Aretha Franklin, John Lee Hooker, James Brown ou Cab Calloway, que para sempre irão ficar nas nossas memórias musicais.





Apesar de a música ser fundamental no filme, a história e o seu desenvolvimento é todo um hino à comédia e ao humor non sense. Elwood (Dan Aykroyd), depois de ir buscar o “irmão” Jake à prisão, vão visitar o orfanato onde cresceram e ficam a saber que vai ser vendido se não for pago o imposto em dívida. Como angariar os fundos? Simples. Através das receitas de um concerto da antiga banda que terão que refazer, tendo para tal que convencer os antigos membros, todos com ocupações várias, alguns já fora do mundo da música, a se juntarem ao projecto. Depois? Bem, depois é um non stop de cenas hilariantes que culminam com a fuga final até à repartição de finanças de Chicago para entregarem os cinco mil dólares em dívida.





Nessa corrida de loucos são perseguidos por centenas de carros da polícia, por um grupo de nazis enfurecidos, pelos elementos de um grupo country e ainda por Carrie Fisher, ex-namorada de Jake, que tenciona eliminá-lo do mundo dos vivos pelo facto de ele a ter abandonado no dia do casamento. Finalmente, e já na repartição de finanças, ainda temos o exército americano que se junta a todos os outros perseguidores. Um filme totalmente exagerado, subversivo, frenético e, acima de tudo, com o humor cáustico dos dois Blues Brothers. Para além dos músicos referidos, há aina aparições de Steven Spielberg, John Candy, Twiggy, e o próprio realizador, que também faz o seu habitual cameo. Seguramente um dos melhores filmes de John Landis, a par de “Um Lobisomem Americano em Londres”, que realizaria logo no ano seguinte.




CURIOSIDADES:

- Carrie Fisher ficou noiva de Dan Aykroyd durante as filmagens, logo após ele salvá-la de uma asfixia, aplicando a manobra de Heimlich.

- John Belushi desapareceu, como era usual nele, durante uma cena rodada à noite. Dan Aykroyd foi procurá-lo, tendo-se deparado com uma única casa de luzes acesas. Quando bateu à porta, o dono da casa olhou para ele, sorriu e disse: «Você está aqui por causa de John Belushi, não é?». O dono da casa disse que Belushi estava a dormir no sofá depois de ter pedido um copo de leite e uma sandwich. 

- O argumento original de Landis e Dan Aykroyd era tão longo que, em tom de brincadeira, Aykroyd o mandou encadernar nas capas das Páginas Amarelas de Los Angeles.

- Segundo Dan Aykroyd , foi incluída cocaína no orçamento do filme para ajudar o elenco a manter-se acordado durante as filmagens nocturnas.

- O filme foi considerado um fracasso de bilheteria até se tornar um enorme sucesso nos mercados internacionais.

- A popularidade do filme impulsionou os óculos de sol Wayfarer da Ray-Ban, que estavam renascendo graças à ascensão do movimento musical New Wave. De alguns milhares de unidades vendidas até meados da década de 1970, as vendas subiram para dezoito mil em 1981, em parte graças ao filme, que tirou o modelo da beira da falência.

- A cena em que os músicos aparecem numa sauna, vestidos apenas com toalhas, é uma alusão à foto da capa do álbum "No Sweat", de 1973, dos Blood Sweat & Tears , na qual a banda aparece numa sauna em pose idêntica. Lou Marini e Tom Malone , dois membros da Blues Brothers Band, também integraram os BST e aparecem em ambas as cenas de sauna.

- John Belushi viria a falecer apenas dois anos depois, a 5 de Março de 1982, com 33 anos, devido a uma overdose de cocaína e heroína.

- John Landis faria ainda uma espécie de continuação do filme, com John Goodman no lugar de Belushi e tentando aplicar a mesma fórmula do êxito do primeiro filme. Mas o sucesso dificilmente se repete, mesmo continuando a haver boa música nesse segundo filme, intitulado "Blues Brothers 2000".


quinta-feira, maio 03, 2012

ARTISTS AND MODELS (1955)

PINTORES E RAPARIGAS
Um filme de FRANK TASHLIN


Com Dean Martin, Jerry Lewis, Shirley MacLaine, Dorothy Malone, Eddie Mayehoff, Eva Gabor, Anita Ekberg, Kathleen Freeman, etc.


EUA / 109 min / COR / 16X9 (1.85:1)


Estreia nos EUA a 7/11/1955
Estreia em PORTUGAL a 10/5/1956

Eugene Fullstack: «Those lovely lips, those red inviting, lucious lips - like two strips of liver gleaming in the moonlight!»

"Artists And Models" é o mais cruel dos filmes cómicos, onde o espectador não ri espontaneamente, mas sente uma forte amargura no sorriso, tão forte como os amarelos e azuis das latas de tinta que caem dos andaimes, a que o technicolor empresta outro fulgor. Os modelos de que o título original nos dá conta, são modelos de representação que subvertem a lógica dos sistemas clássicos, que rasgam as ideias académicas, que se organizam num sentido inverso, que saem da ordem gramatical, da disciplina sintática, do respeito conventual. Onde os objectos adquirem uma agressividade fabricada e onde as flores são tão artificiais como as situações.
Uma história (que não se conta mas já é história) tão falsa como o fumo sintético que sai da boca de uma boneca pintada em cartão, fumo que é primeiro comic books, desejo da nossa libertação, viagem ao mundo perverso da nossa infância. Não se trata aqui de sonhar melancolicamente, mas antes de sentir como éramos castos e inocentes, como atingimos o medo de romper a ordem estabelecida, e depois como deixámos de saber transgredir, sendo agora apenas pacientes e amargamente instalados nessa paciência. O medo deixou para nós de ser um risco, uma paixão, uma loucura, e é antes um fosso onde não queremos caír e que evitamos a todo o custo.
Max Ophüls disse um dia que «a felicidade não é alegre». Se alguma coisa se respira no filme de Tashlin não é alegria, mas felicidade. Porque tudo o que é festa passa na nossa solidão e morre num desejo que é sempre delírio. A solidão é, ainda e sempre, o lugar de todos os sonhos, porta aberta a todas as loucuras. "Artists and Models" é um filme que nos dá por um instante - momento fugaz que a memória retém - a felicidade mais real, completa, verdadeira, que se guarda ciosamente para relembrar nos outros longos momentos em que se perde a noção e valor dessa felicidade.
Primeiro dos oito filmes em que Frank Tashlin iria dirigir Lewis (o que, progressivamente, viria a cimentar uma grande cumplicidade entre os dois homens), "Artists and Models" é também um dos melhores filmes (senão mesmo o melhor) da dupla Martin-Lewis, curiosamente numa altura em que as relações pessoais dos dois actores já se encontravam em fase descendente. Mas trabalho é trabalho, e as questões extra-profissionais foram postas de lado, deixando-se ambos conduzir admiravelmente através das câmaras talentosas de Tashlin, aqui na sua quinta longa-metragem.
Algumas das obsessões muito em voga daqueles meados dos anos 50 encontram-se bem representados no filme: a influência "maligna" dos comic books, da televisão e da violência na juventude, o espírito reinante da Guerra Fria com agentes comunistas à solta por todo o lado ou, também, a fixação dos americanos nas mulheres com generosos atributos peitorais. Tudo isto filmado com muito humor por Tashlin, que porventura passou para a tela muitas das suas próprias obsessões.
As aspirações artísticas de Rick Todd (Dean Martin) e Eugene Fullstack (Jerry Lewis), dois amigos residentes num mesmo apartamento de Greenwich Village, tardam a revelar-se, pelo que não têm outro remédio senão pintarem grandes cartazes publicitários para garantirem a sobrevivência do dia-a-dia. Sobrevivência essa que vai sendo adocicada pelo imaginário delirante de Eugene, porque, ao fim e ao cabo, "Artists and Models" é um filme de faz-de-conta, de situações que pouco ou nada têm a ver com a vida real. Daí a pouca importância dada ao enredo, substituído por um encadeamento de situações onde o gag é rei e senhor.
De todas as cenas cómicas (como sempre abundantes nos filmes de Jerry Lewis) existe uma, genial, que só por si é bastante para a obrigatoriedade de se ver "Artists and Models". Refiro-me, concretamente, à interpretação em duas partes da canção "Innamorata", escrita expressamente para o filme. O tema é primeiro cantado por Martin (naquele seu característico modo crooner e meloso) no terraço (espaço cénico muito típico da época) com a finalidade de seduzir em definitivo a loura e curvilínea Dorothy Malone. Ultrapassada tal empreitada, a mesma canção é de seguida usada por Shirley MacLaine com idêntica intenção, a de seduzir Jerry Lewis. Só que Shirley e Lewis formam um casal em tudo diferente do anterior, onde o romantismo se encontra ausente em parte incerta. Por isso a canção é totalmente subvertida, literalmente estilhaçada, numa das sequências mais delirantes de que tenho memória.
"Artists and Models", conforme já acima referido, é um filme que nos traz uma breve e estranha sensação de felicidade, explicada pela conjugação de vários factores: um clima leve e artificial, propício à satisfação dos sonhos mais irreais, a cor exuberante dos cenários (Sam Comer e Arthur Krams) e da fotografia (Daniel L. Fapp), o guarda-roupa da inevitável Edith Head a vestir todas aquelas belas mulheres (Dorothy Malone, Anita Ekberg, Eva Gabor), as canções devidamente enquadradas de Jack Brooks e Harry Warren (com o já mencionado destaque para "Innamorata"), a direcção eficaz de Frank Tashlin e, claro, um punhado de boas interpretações, com Lewis e MacLaine à cabeça. Esta na sua segunda longa-metragem (logo a seguir a "The Trouble With Harry", de mestre Hitchcock) e nuns deliciosos vinte aninhos; aquele a ir sempre um pouco mais longe na reescrita da tradicional tipologia burlesca.