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sábado, junho 21, 2025

VIVRE POUR VIVRE (1967)

VIVER PARA VIVER
Um filme de CLAUDE LELOUCH

Com Yves Montand, Annie Girardot, Candice Bergen, Irène Tunc, Anouk Ferjac, Uta Taeger, Jean Collomb, Michel Parbot, Amidou, etc.

FRANÇA-ITÁLIA / 130 min / COR / 
16X9 (1.66:1)

Estreia em França a 14/9/1967
Estreia nos EUA (Nova Iorque) a 18/12/1967 
Estreia em Moçambique (L.M.) a 3/11/1968 (teatro Manuel Rodrigues)



“Vivre Pour Vivre” é a sétima longa-metragem de Claude Lelouch, realizada logo a seguir ao premiado “Un Homme et Une Femme, que acabara de ganhar a Palma de Ouro do Festival de Cannes, dois Globos de Ouro (melhor filme estrangeiro e melhor actriz dramática – Anouk Aimée), o BAFTA para a melhor actriz estrangeira e 2 Óscares da Academia de Hollywood, nas categorias de melhor argumento e filme numa língua estrangeira. Isto para citar apenas os principais prémios, porque o filme obteve muitos mais em diversos certames em todo o mundo. Na altura da estreia de “Vivre Pour Vivre” a tónica geral foi o desapontamento em relação ao seu antecessor e o nome Lelouch foi usado como sinónimo de um fotógrafo sem cultura cinéfila, tendo-se inclusivé chegado a escrever que “Vivre Pour Vivre” «era um filme sem ideias e sem emoções, e recheado de documentários irrisórios e propósitos frívolos.» Nada de mais falso ou tendencioso. “Vivre Pour Vivre” é, pelo contrário, uma obra feita quase totalmente de emoções, em que os diálogos cedem amiúde o lugar à imagem e ao fundo musical, visando precisamente realçar a diversidade de sentimentos entre os principais protagonistas.


Claude Lelouch foi contemporâneo de ilustres cineastas franceses do início dos anos 60: Truffaut, Chabrol, Godard, Rohmer, Rivette, Varda e Eustache, nomes que nessa altura constituíam a essência do movimento que se convencionou chamar de “Nouvelle Vague” (termo que começou a aparecer em diversas publicações no final dos anos 50 e que se revestiu de maior significado durante o Festival de Cannes de 1959 ao designar dessa forma o conjunto de filmes franceses a concurso). Ora, Lelouch nunca foi conotado com o movimento, pelo contrário, sempre foi colocado um pouco à margem. De um modo algo discriminatório, os críticos reinantes nessa época não lhe reconheciam os mesmos méritos dos outros pela simples razão de que Lelouch nunca fora um crítico de cinema, nunca escrevera nos então muito em voga Cahiers du Cinéma. E o facto de Lelouch ter vencido a Palma de Ouro em Cannes foi algo que esses mesmos críticos tiveram de engolir na altura mas que não esqueceram. Por isso, assim que tiveram oportunidade, trataram imediatamente de vilipendiar o trabalho do realizador francês.


"Vivre Pour Vivre” foi o primeiro filme de Claude Lelouch a que tive o prazer de assistir quando o mesmo se estreou em Lourenço Marques, corria o ano de 1968. Só alguns anos mais tarde teria a possibilidade de ver “Un Homme et Une Femme” e alguns dos seus trabalhos subsequentes. Dizem que o primeiro amor é sempre inesquecível e talvez exista alguma lógica nisso. A verdade é que foi este filme de Lelouch o que maior prazer me deu. Prazer esse, sempre renovado todas as vezes que a ele regresso. E já preciso da maioria dos dedos das mãos para contabilizar o número de todos esses regressos ao longo dos anos.


O argumento, assinado por Pierre Uytterhoeven e pelo próprio Lelouch (que também foi responsável pela montagem) não podia ser mais banal ao contar a história de um triângulo amoroso. Robert Colomb (Yves Montand, que nos deixou a 9 de Novembro de 1991 com apenas 70 anos), a sua mulher Catherine (Annie Girardot, actriz já falecida também, a 28 de Fevereiro de 2011, com a doença de Alzheimer) e a sua última amante, Candice (Candice Bergen) são os vértices desse triângulo. Provavelmente teria sido a sua recente consagração que permitiu a Lelouch dispor de tão talentosos actores, sobretudo Montand e Girardot, que já eram admirados e respeitadissimos na altura. E “Vivre Pour Vivre” deve muito do seu carisma e popularidade às magníficas interpretações dos seus actores. Mas também à belissima partitura musical de Francis Lai e à mise-en-scène de Lelouch, uma das suas imagens de marca. Convém lembrar que apesar da existência de fotógrafos contratados (no caso de “Vivre Pour Vivre” o director de fotografia chamava-se Patrice Pouget) era quase sempre Lelouch que no decurso das filmagens manobrava as câmaras, o que conferia aos seus filmes uma certa imagem de marca, pessoal e intransmissível.


São muitas as sequências inesquecíveis de “Vivre Pour Vivre”, feitas todas elas de poucos diálogos mas muita música e movimentos de câmara. Lembro-me especialmente daquela rotação de 360 graus no quarto do hotel de Amsterdam, onde Candice chega inoportunamente, sem se fazer anunciar e com o intuito de estragar a semana do amante com a legítima esposa. Vemos em primeiro lugar o abraço dos dois, depois uma acesa discussão no final da primeira deambulação da câmara em redor do quarto e novamente o mesmo abraço do início após outra rotação, desta vez em sentido contrário. Ou seja, por um simples artifício de um movimento de câmara, Lelouch mostra-nos algo que não chegou a acontecer, que só teve lugar no pensamento do protagonista. De recordar também a magnífica cena da confissão de Robert passada no comboio, em que o som vai pontuando frases soltas e close-ups do rosto de Catherine. Ou ainda aquele longo plano-sequência do regresso de Robert a uma casa vazia onde já só a solidão existe.


Mas se “Vivre Pour Vivre” se destaca sobretudo pela magnificência dos intérpretes, da música e das imagens, não é menos verdade que o filme se encontra inteligentemente recheado de belos diálogos, sempre que os mesmos têm uma importância fundamental para o desenrolar da história. Como o primeiro encontro casual de Robert e Candice na varanda do motel onde ambos se deslocaram para os respectivos affaires («a gente se conhece?», pergunta Candice; «acho que não», responde Robert, «senão estaríamos no mesmo quarto». Se tal resposta acontecesse nos dias que correm era mais do que provável que a jovem e bela americana corresse para a esquadra de polícia mais próxima a queixar-se vítima de assédio sexual. Mas aqui os tempos eram outros; e Candice limita-se a exclamar: «Quel drôle de type!»; e, claro, a resposta de Robert não se faz esperar: «Quelle drôle d’américaine!»)


Outro diálogo delicioso é o que ocorre quando Catherine sai do cinema com uma amiga, onde foram ver um filme protagonizado por uma ex-amante de Robert: «Queria ver a actriz que entra no filme. Ela e Robert tiveram um caso». «Mas ele sabe que tu sabes?», pergunta-lhe a amiga. «Estás louca? Ele só se preocupa com ele mesmo. E eu é que tenho de compartilhar as suas amantes, o seu trabalho.» Aceito que “Vivre Pour Vivre” acaba de um modo um tanto ou quanto convencional, sobretudo numa época – o final dos anos 60 – em que a revolução das mentalidades era o pão nosso de cada dia e todas as contestações estavam ali ao virar da esquina. Sobretudo a emancipação das mulheres e a revolução sexual, que mudariam as relações do homem e da mulher para sempre.


Mas deixem-me acabar com uma confissão: adoro toda aquela sequência final, passada no restaurante da estância de inverno. O arrependimento de Robert leva-o a cortejar de novo Catherine, mas sentindo-se desprezado face à negação dela em reatar a relação entre ambos. Depois de toda a tortura psicológica exercida por Catherine vemos um Robert desalentado e conformado a deixar o restaurante e sentimos que o filme vai acabar ali mesmo, quando ele entrar para o carro e partir. Mas a grande quantidade de neve caída cobre totalmente o vidro dianteiro e ele tem necessidade de a remover. É então que na sequência desse gesto vemos o rosto de Catherine, que o espera com aquele olhar cúmplice dentro da viatura. Um breve sorriso de Robert, e então sim, é mesmo o final do filme.





domingo, agosto 09, 2015

THE HUNTING PARTY (1971)

CAÇADA IMPLACÁVEL
Um filme de DON MEDFORD


Com Oliver Reed, Candice Bergen, Gene Hackman, Simon Okland, Ronald Howard, Mitchell Ryan, etc.

US-UK / 111 min / COR / 
16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA: New York, 16/7/1971
Estreia em MOÇAMBIQUE: LM (Teatro Gil Vicente), 26/12/1971

Melissa: «Why do you want to learn how to read?»
Frank: «Because I can't»

Este filme tinha-me deixado boas recordações, desde que o vi em Lourenço Marques (onde correu com o título de "Caçada Selvagem"), em finais de Dezembro de 1971. Agora, 4 décadas passadas, voltei a revê-lo, e confirmei as razões pelas quais guardava tão boas memórias. Trata-se de um western sui generis, onde se subvertem os valores tradicionais deste tipo de filmes. Brandt Ruger (Gene Hackman) é um rancheiro putanheiro e cruel, cuja mulher é raptada por um fora-da-lei, Frank Calder (Oliver Reed). A razão não é obter qualquer tipo de resgate, mas, curiosamente, o desejo de Frank em aprender a ler: Melissa (Candice Bergen) é confundida com a professora da escola local, onde se encontra de visita. Violada por Frank, recusa-se a colaborar no principal objectivo do seu captor (aprender o abecedário), o qual a força a um jejum prolongado, de modo a conseguir obter os seus fins. Esta situação conduz a uma cena hilariante (a da lata dos pêssegos), em que por fim Melissa se verga às intenções de Frank.


Habituada a servir da pior maneira o seu cruel e odioso marido (que não nutre por ela qualquer sentimento, considerando-a tão sómente sua propriedade exclusiva), Melissa vai pouco a pouco desenvolvendo uma correspondida afeição por Frank, a qual, obviamente, está desde logo condenada ao desenlace trágico. Brandt e os seus pares iniciam uma perseguição feroz ao bando, que aos poucos vão dizimando, mercê da posse de carabinas último modelo, cujo alcance é bastante superior às armas vulgares da época. A obsessão toma cada vez mais conta de Brandt, que levará a "caçada" até às últimas consequências.



Depois de "Soldier Blue" (1970), Candice Bergen volta a interpretar um western, que, tal como o precedente, iria ser recordado essencialmente pela sua violência e brutalidade. A cena inicial - em que uma vaca é degolada - seria retirada inclusivé das cópias estreadas em Inglaterra. "The Hunting Party" é o primeiro dos três filmes que Candice rodaria com Gene Hackman (os outros dois foram "Bite The Bullet / Desafio à Coragem", em 1975; e "The Domino Principle / Atentado ao Presidente", em 1977). Dele diria a actriz, que foi quem mais a ajudou na arte de representar.


Grande parte dos críticos da época acusou "The Hunting Party" de se basear no pior de "The Wild Bunch / A Quadrilha Selvagem", que Sam Peckinpah tinha rodado dois anos antes. Não partilho dessa opinião, apesar de reconhecer que os dois filmes têm alguns pontos em comum, nomeadamente na apresentação de alguma violência gratuita e alguns efeitos em slow-motion. Mas Don Medford (um director que rodou essencialmente filmes para televisão durante toda a sua carreira - faleceu em 2012 com 95 anos -, tendo aqui a sua segunda e última incursão no cinema), consegue um filme tenso e desenvolto, cuja visão, ainda hoje, é bastante gratificante (pode ser descarregado aqui).