O CHARME DISCRETO DA BURGUESIA Um filme de LUIS BUÑUEL
Com Fernando Rey, Stéphane Audran, Jean-Pierre Cassel, Delphine Seyrig, Paul Frankeur, Bulle Ogier, Milena Vukotic, Maria Gabriella Maione, Claude Piéplu, Michel Piccoli, etc. FRANÇA / ITÁLIA / ESPANHA /
102 min / COR / 16X9 (1.66:1) Estreia em FRANÇA a 15/9/1972 Estreia em PORTUGAL (Lisboa): Novembro de 1973
Estreia em Moçambique (L.M.) a 12/1/1974 (cinema Dicca)
Colonel: «Marijuana isn't a drug. Look at what goes on in Vietnam. From the general down to the private, they all smoke»
Mme. Thevenot:«As a result, once a week they bomb their own troops»
Colonel:«If they bomb their own troops, they must have their reasons»
Nas suas memórias,Luis Buñueldedica um capítulo ao que chama"les plaisirs d'ici bas".Ao contrário do que se possa pensar, o sexo não ocupa o primeiro lugar, vem depois do alcool e do tabaco.Buñueldiz mesmo que os dois últimos«acompanham muito agradavelmente o acto de amor. Geralmente, o alcool deve ser antes e o tabaco depois»e acrescenta que ficou muito contente com o desaparecimento progressivo e finalmente total do seu instinto sexual, mesmo em sonhos, nos últimos anos da sua vida.«Estou muito contente, como se me tivesse, por fim, desembaraçado dum tirano. Se o Diabo me aparecesse a propor uma recuperação do que chamam a virilidade, respondia-lhe: Não, muito obrigado, não quero mais. Fortalece, antes, o meu fígado e os meus pulmões, para poder continuar a beber e a fumar à vontade.»
"Le Charme Discret de la Bourgeoisie"é um divertimento sobre uma burguesia, de queBuñuelnão se exclui, e para o qual conta com a nossa cumplicidade("burgueses somos nós todos / burgueses desde pequenos / burgueses somos nós todos / ou ainda menos",como se diz num poema de Cesariny). Será só isso? Alguns comentadores têm dito que sim e não escondem o seu desapontamento perante um filme divertidissimo, com achados prodigiosos, mas que lhes parece ter perdido muito da violência e virulência das obras anteriores. Por isso, este"Charme"teve o sucesso que teve, teve osprémiosque teve e culminou com o mais alto galardão do cinema: o Oscar de Hollywood para o Melhor Filme de Língua Estrangeira, queBuñuelarrecadou aos 72 anos, depois do que Hollywood lhe fez e depois de 30 anos de uma carreira maldita.
Aliás,Buñuelestava perfeitamente consciente do tom ameno que em geral se encontra na obra. A quem falou de sátira feroz à burguesia, respondeu:«Não é uma sátira e muito menos feroz. Creio que fiz este filme com um sentido de humor amável. Mas também não procurei que as pessoas rissem às gargalhadas do princípio ao fim».E mesmo a quem foi mais longe e quis ver no plano várias vezes repetido dos protagonistas a andar pela estrada, sem chegar a parte alguma, uma alegoria à ausência de destino histórico da burguesia,Buñueldesenganou-os:«Compreendo essa interpretação, até porque o filme termina com os personagens a andar pela estrada. Apesar disso, lamento dizer-lhes que não há nenhuma mensagem. Até porque teria vergonha de me ter proposto a mim próprio - vou demonstrar que a burguesia está perdida. Aliás, creio que o que está em vias de extinção não é só a burguesia. Em muitos países, o proletariado vai-se aburguesando pouco a pouco, vai-se tornando menos revolucionário.»
Sin embargo, Don Luis... nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Se não há sátira feroz, se não há mensagem, se não há irrisão, se não há subversão, se não há crueldade, este filme não é o do fantasma deBuñuel, nem de umBuñueladormecido. A sua mão (a sua câmera) sente-se do princípio ao fim e o "charme discreto" da burguesia passa pelo desencanto indiscreto duma classe que pretende viver para o prazer, mas que o frustra constantemente. Os dois tipos de prazer sempre invocadas neste filme (os prazeres da mesa e os prazeres da cama) estão permanentemente em cena mas quase sempre são adiados e raramente consumados.
Sucedem-se jantares e almoços, sempre com o mesmo grupo. Fala-se de iguarias de fazer crescer água na boca. Mas, quando se passa ao acto, surge sempre a interrupção. Nunca ninguém come nada, a não ser, no fim,Fernando Rey, acordando do seu último pesadelo, a matar a fome com uns restos guardados no frigorífico. A mesma coisa para as cenas de sexo:Stéphane AudraneJean-Pierre Casselsão interrompidos pela chegada dos convidados e têm que andar às voltas para conseguir satisfazer o seu desejo; quandoFernando Reyse prepara para ter relações comDelphine Seyrig, toda a espécie de impedimentos acontece até à chegada do marido. Só não se frustra um acto e esse é de tal forma violento que há quem diga que foi para o filmar queBuñuelfez o filme. Refiro-me ao assassinato do moribundo pelo bispo. Por alguma razão essa cena foi cortada pela censura, em Portugal, em 1973...
CURIOSIDADES:
-Luis Buñuelé referido nos créditos finais como responsável pelos efeitos sonoros. No entanto encontrava-se praticamente surdo quando rodou o filme.
-Luis Buñueltinha uma verdadeira obsessão com as baratas que aparecem em muitos dos seus filmes. Aqui veêm-se na cena da tortura na prisão a sair do piano.
«O trabalho foi muito longo. Escrevemos cinco versões do argumento. Era preciso encontrar o equilíbrio certo entre a realidade da situação (um grupo de amigos tentam cear juntos sem o conseguir), que devia ser lógica e quotidiana, e a acumulação de obstáculos inesperados que, apesar disso, não deviam parecer fantásticos ou extravagantes. Nunca quis dizer: Vou demonstrar aqui que a burguesia está perdida. Eu mesmo sou burguês, mas discreto. Se fosse um burguês comme il faut viveria dos meus rendimentos, não faria filmes. Quando seleccionaram o filme para o Óscar e uns jornalistas mexicanos me perguntaram se o ganharia, respondi: Sim, estou convencido que sim. Paguei os 25 mil dólares que me pediram. Os norte-americanos têm os seus defeitos, mas são homens de palavra. Quatro dias depois da brincadeira, escândalo em Los Angeles, mas finalmente ganhei o Óscar, o que me permite repetir que os americanos têm os seus defeitos, mas são homens de palavra.»
Com Gene Hackman, Ernest Borgnine, Shelley Winters, Red Buttons, Roddy McDowall, Stella Stevens, Jack Albertson, Carol Lynley, Pamela Sue Martin, Arthur O'Connell, Leslie Nielsen, etc.
EUA / 117 min / COR /
16X9 (2.20:1)
Estreia nos EUA a 13/12/1972 Estreia em MOÇAMBIQUE (L.M.) a 19/5/1973(cinema Scala)
Reverend Frank Scott: “Please GOD, NOT this woman”
O remake feito em 2006 deste clássico dos anos 70 veio provar, mais uma vez, que toda a técnica digital disponível hoje em dia não é prerrogativa para se conseguir fazer um bom filme. “The Poseidon Adventure” foi realizado num tempo em que a palavra blockbuster ainda não tinha sido inventada; e mesmo que já existisse não teria o significado que tem actualmente – algo produzido com orçamentos colossais mas regra geral com resultados a roçar a imbecibilidade. Do que se falava naquele início dos anos 70 era de “cinema-espectáculo”, ou neste caso concreto, de “cinema-catástrofe”.
“The Poseidon Adventure” veio precisamente enaltecer e aprimorar esse “cinema-catástrofe”, sendo por isso olhado hoje em dia como um dos exemplos mais felizes, e conotado inclusivé como o maior clássico do género. Baseado numa novela de Paul Gallico, o filme relata-nos o desastre ocorrido com o S.S. Poseidon, um transatlântico na sua última viagem, entre Nova Iorque e Atenas. Na noite de 31 de Dezembro, quando todos os passageiros comemoram a chegada do Ano Novo, um terramoto sub-aquático vai ocasionar uma onda gigantesca de 30 metros de altura, cuja força destruidora vai embater no navio virando-o literalmente do avesso.
As explosões sucedem-se, indo submergir toda a zona do restaurante onde se comemorava a passagem de ano. Dez passageiros conseguem sobreviver e é o seu percurso em direcção ao casco do navio (agora situado acima deles) que iremos acompanhar ao longo do filme, através de peripécias diversas e interrogando-nos sempre (ou não, caso conheçamos já o desfecho) quais deles conseguirão chegar sãos e salvos ao fim daquela odisseia.
A ideia do filme é brilhante e executada com grande mestria. Cenários magníficos e deveras originais (tudo se encontra de pernas para o ar, desde o salão onde a aventura pela sobrevivência começa até às casas de banho, cozinhas e todos os outros compartimentos do navio) conferem a “The Poseidon Adventure”um grau de autenticidade pouco comum neste género de filmes. Junte-se a isso um brilhante naipe de actores e o resultado não poderia ter sido melhor. Na primeira meia-hora do filme fomo-nos familiarizando com cada um dos heróis desta grande aventura e por isso iremos sofrer e torcer por todos eles até ao final.
E não se julgue que o conhecimento antecipado da história ou de quem fica pelo caminho tira emoção ao visionamento deste filme. Pelo contrário, “The Poseidon Adventure” está tão bem feito, tão bem construído em todas as suas particularidades e propósitos que a repetição da sua visão nunca nos cansa. Pessoalmente, vi-o pela primeira vez em 1973, pouco depois da sua estreia mundial, e desde essa altura já perdi a conta das vezes em que voltei a vê-lo, e sempre com o mesmo prazer.
Gene Hackman é inesquecível no papel de um reverendo de ideias avançadas, que naturalmente se torna no líder da expedição.Ernest Borgnineé o polícia resingão que casou com uma prostituta (Stella Stevens num desempenho divertidissimo) e Shelley Winters, aqui já com 52 anos, dá-nos uma Belle Rosen sensacional, que está na origem da cena mais comovente do filme. Mas todo o restante elenco – Red Buttons, Roddy McDowall, Jack Albertson e as jovens Carol Lynley e Pamela Sue Martin – é de grande qualidade, como aliás a publicidade do filme teve o cuidado de referir na altura como sendo na sua grande maioria actores distinguidos pela Academia de Hollywood.
Um dos grandes trunfos da “Aventura do Poseidon” é o clima de suspense claustrofóbico que se vai adensando à medida que a história progride. O argumento foi cuidadosamente construído de modo a proporcionar ao espectador uma adrelina sempre em crescendo até ao clímax final. Tudo começa idilicamente no grande jantar de fim-de-ano mas é depois da tragédia acontecer que o filme arranca a todo o gás, levando-nos a nós espectadores com ele. E no entanto como são importantes aqueles primeiros trinta minutos onde, como atrás já se disse, ficamos a conhecer cada um dos principais intervenientes. Sempre que se revê o filme saboreia-se o mais possível a despreocupação de cada um daqueles momentos, devido a saber-se de antemão o que vai acontecer a seguir.
Tenho lido alguns comentários onde se pretende comparar “The Poseidon Adventure” a “Titanic”, quer no bom quer no mau sentido. Nada de mais inútil, até porque o filme de Cameron se situa num patamar completamente diferente. A única ilação possível é a de que este filme é um percursor muito honroso de “Titanic”, que porventura nele foi beber grande parte da sua inspiração. Inclusivé a nível técnico, como por exemplo os enormes sistemas hidráulicos para simular o naufrágio, já utilizados neste filme vinte e cinco anos antes.
Sete anos depois o produtor deste filme, Irwin Allen realizou uma espécie de sequela, conhecida como “Beyond The Poseidon Adventure”, com Michael Caine e Sally Fields a encabeçarem mais um cast de conhecidos nomes do cinema daqueles anos. O argumento, sem pés nem cabeça, relatava a história de uma série de aventureiros à procura de um tesouro escondido nos destroços do Poseidon. Era uma vez mais Hollywood a insistir ingloriamente na miragem do lucro fácil e rápido. Mas felizmente que os êxitos sempre foram feitos pelo público e não programados em quaisquer gabinetes.
CURIOSIDADES:
- Paul Gallico inspirou-se em acontecimentos vividos com ele próprio numa viagem a bordo do Queen Mary para escrever a novela que deu origem ao filme
- Todo o filme foi rodado em sequência para tornar visualmente mais compreensível o aumento de esquimoses (algumas fictícias, outras reais) e sujidade, experimentados na pele e nas roupas de cada um dos principais intervenientes
- Muitas das sequências foram rodadas no S.S. Queen Mary, ancorado em Long Beach, na Califórnia. Noutras foi usado um modelo construído com base nesse mesmo navio e que actualmente se encontra em exposição no Museu Marítimo de Los Angeles
- Apesar de terem sido usados cerca de 125 duplos no filme, foram os próprios actores que se sujeitaram às difíceis e cansativas filmagens exigidas pelo argumento - excepto nas sequências mais perigosas - chegando inclusivé a queixarem-se aos produtores do filme por causa da intensidade de algumas dessas cenas
- Shelley Winters engordou cerca de 15 quilos para representar a personagem de Belle Rosen e teve aulas de natação com um treinador olímpico por causa das cenas rodadas debaixo de água
- Petula Clark recusou o papel de Nonnie Parry, atribuido a Carol Lynley. O tema que esta interpreta no filme (na realidade a voz pertence a Renée Armand, trata-se de uma dobragem) – “The Morning After” – foi depois interpretado por Maureen McGovern, conseguindo um certo êxito na altura, devido em grande parte ao sucesso alcançado pelo filme. A canção, da autoria de Al Kasha e Joel Hirshhorn, ganhou o Oscar da melhor canção do ano. Ao filme foi ainda atribuído um Prémio Especial pelos efeitos visuais e teve ainda mais 7 nomeações para os Oscars. Shelley Wintersganhou o Globo de Ouro para a melhor actriz secundária e Gene Hackman arrebatou o BAFTA inglês para o melhor actor do ano.
Com Jack Lemmon, Juliet Mills, Clive Revill, Edward Andrews, Gianfranco Barra, etc. EUA-ITÁLIA / 144 min / COR / 16X9 (1.85:1) Estreia nos EUA a 17/12/1972 Estreia em Portugal (Lisboa) a 11/10/1973 (cinema S. Jorge)
J.J. Blodgett:«I don't object to foreigners speaking a foreign language. I just wish they'd all speak the same foreign language»
Uma das melhores características dos filmes de Billy Wilder é o nunca se saber se deverão ser catalogados como dramas ou como comédias, embora sejam invariavelmente muito divertidos. Herdeiro directo de um Lubitsch que venerava, Wilder sempre se divertiu a sublinhar os aspectos mais frágeis da natureza humana. “Sabrina” (1954),“Love in the Afternoon” (1957), “The Apartment”(1960) ou “The Fortune Cookie” (1966) constituem pinturas da cobiça e da ambição do poder de rara dureza, dentro da comédia americana. Por outro lado, em filmes como “The Seven Year Itch” (1955), “Some Like It Hot” (1958),“Irma La Douce” (1963) ou “Kiss Me, Stupid”(1964), o que se encontra em destaque é a visão muito pouco lisonjeira de Wilder relativa à atitude dos seus concidadãos perante o sexo.
Este “Avanti!”de 1972 (um filme que me traz uma rara e estranha sensação de felicidade sempre que o revejo - e por isso o amo incondicionalmente) tem um pouco de tudo, é uma brilhante e deliciosa comédia romântica, pincelada de humor negro, e onde Wildercorrosivamente se ri (e nós com ele) dos clichés que povoam as mentes dos cidadãos americanos. Quinta colaboração de I.A.L. Diamond e Jack Lemmon com Wilder, “Avanti!” é baseado na peça homónima de Samuel Taylor e fala-nos da viagem dum industrial de Baltimore, Wendell Armbruster III (Jack Lemmon) à ilha de Ischia, em Itália, onde vai buscar o corpo do seu pai, recentemente falecido num desastre de viação. Lá chegado, descobre atónito que no veículo sinistrado se encontrava a amante do pai, também falecida, e cuja existência desconhecia por completo. Rapidamente se apercebe que não se trata de um caso esporádico mas que efectivamente existia uma longa relação de dez anos entre os dois, que todos os anos se encontravam no mesmo hotel, onde já eram figuras populares, respeitadas por todo o pessoal. Irritado por essa inesperada revelação e pela lentidão da burocracia italiana, Wendell tem ainda que lidar com Pamela (Juliet Mills), a filha dessa mulher, que insiste para o casal ser enterrado lado a lado em solo italiano. A intransigência inicial de Wendell vai esmorecendo no contacto diário com Pamela, acabando por se transformar numa nova relação de amor que no futuro irá prolongar a história dos respectivos progenitores.
Mesmo com toda a indulgência do mundo dificilmente se percebe porque é que este magnífico filme de Wilderfoi considerado durante anos como uma comédia menor do realizador. Na verdade estamos perante uma atmosfera melancólica e nostálgica, que poderia parecer pouco propícia ao desenvolvimento de uma comédia clássica. Mas tal não impede(antes pelo contrário) que “Avanti!”seja uma das melhores e mais ácidas sátiras de Wilder, e simultâneamente uma comédia romântica e delicada, que se atravessa docemente com um sorriso permanente. Ao longo de duas horas e vinte minutos o lado sórdido do poder, dos compadrios e da corrupção anda de braço dado com a ligeireza contagiante de uma história de amor. Só um grande cineasta, na posse total da sua criatividade, poderia conciliar dois lados tão antagónicos e revertê-los num fabuloso ensaio cinéfilo. Um filme claramente à frente do seu tempo, tendo sido por isso mesmo um rotundo fracasso de bilheteira, a ponto da obra se ter eclipsado durante tanto tempo. Hoje basta vê-la de novo para comprovar toda a sua genialidade.
A propósito de um dos grandes momentos deste filme, a cena passada na morgue, onde toda a subtileza de Wilder se revela na sua arte de misturar o cómico com o trágico, a ternura e a sátira, a ferocidade e o pudor, dou a palavra a João Bénard da Costa, que numa das suas exemplares “folhas da Cinemateca”, escreveu: «Se pensarmos friamente – tão friamente como Wilder dá a ver naquela radiosa paisagem – não há casal menos atraente do que o que se estabelece entre Lemmon e Juliet Mills. Por alguma razão, estão ligados por cadáveres (os do respectivo pai e da respectiva mãe) e tudo começa, para eles, numa morgue. Eles próprios cheiram tanto a morte como o barão das enfermeiras e o que os leva um para o outro nada tem de redentor. Querem três exemplos (todos geniais)? O primeiro pode ser o do banho matutino, com o “strip tease” algo obsceno de Miss Piggott e as cuecas perdidas por Lemmon. Quando os dois se aquecem ao sol, no rochedo, não são propriamente Adão e Eva perdidos – ou achados – no paraíso, mas dois corpos de quarentões flácidos em que o erotismo não será seguramente valor predominante. Talvez por isso Lemmon tanto se indigne com as fotos da “Polaroid”, embora, depois de as rasgar, guarde perversamente um bocadinho.
Segundo exemplo é a transferência de Miss Piggott do Quarto 126 para a Suite 121-122. Antecedida pelo passeio matinal da dita carregado de pormenores equívocos (as freiras e o “Love Story”, os quatro gelados todos para ela, etc.) a pujante Pamela entra exultante no quarto de Lemmon, até perceber que só a espera mais uma humilhação. Mas não era uma questão de peso, era uma questão de altura e a balança fatal se encarrega de compensar essa falta de tamanho. E ao segundo “avanti” é de vez, com Juliet Mills a ensinar a Jack Lemmon algumas coisas que provavelmente a mulher nunca lhe ensinou. Ensinamento que tem suprema ilustração no mais perverso plano do filme: Jack Lemmon a receber na cama já compartilhada o telefonema do homem do State Department e o rosto de Juliet Mills espelhado nas costas da cama revelando uma posição mais do que “comprometedora”. E há um pijama dividido ao meio: para ele as calças, para ela o casaco.»
O grande legado de “Avanti!” é a sua simplicidade, o modo fácil com que nos coloca um sorriso na alma, lembrando-nos da beleza do mundo e como a vida pode ser agradável se disfrutada de braços abertos. E não é por acaso que toda a trama se passa no Verão, essa estação do ano que é propícia aos amores e à poesia das madrugadas. No princípio Jack Lemmon é um homem de negócios, apressado e rude, que viaja para Itália apenas porque o sentido do dever o impele a fazer tal viagem. No fim do filme é um homem bem diferente aquele que regressa, um convertido romântico em busca do melhor que o futuro lhe poderá trazer ainda. O mesmo ocorre com Juliet Mills. A inglesa infeliz e paranóica com a obsessão das dietas transforma-se numa mulher linda e radiosa, com os mesmos anseios de Lemmon pelos prazeres descobertos.
No final o caixão do pai de Wendell regressará a casa mas com um ocupante diferente lá dentro. No enterro, já em solo americano, Lemmon fará provavelmente o pio descurso que tanto ensaiou. Por outro lado Miss Piggott regressará a Inglaterra onde voltará a ser caixeira onze meses por ano. Mas antes das respectivas partidas ambos selam a garantia de no final desse tempo voltarem a usufruir de uma felicidade conjunta, nem que seja por apenas um escasso mês de ilusão milionária num hotel de luxo de Itália. E não será essa meta de excepção, continuamente renovada, a chave da verdadeira felicidade?
CURIOSIDADES:
- Juliet Mills,irmã mais velha de Haley Mills, engordou cerca de 12 quilos para desempenhar o papel de Pamela Piggott. Foi a única intervenção digna de registo da actriz no mundo do cinema, visto ter-se especializado, ao longo da carreira, em papéis de séries televisivas.
- Jack Lemmon ganhou o Globo de Ouro na categoria Musical / Comédia, tendo o filme sido nomeado para mais 5 Globos: Filme (Musical / Comédia), Realizador, Actriz (Musical / Comédia), Argumento e Actor Secundário - Clive Revill.