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terça-feira, outubro 01, 2013

STARMAN (1984)

STARMAN, O HOMEM DAS ESTRELAS
Um filme de JOHN CARPENTER



Com Jeff Bridges, Karen Allen, Charles Martin Smith, Richard Jaeckel, etc.

EUA / 115 min / COR / 
16X9 (2.20:1)

Estreia nos EUA a 14/12/1984
Estreia em PORTUGAL a 28/6/1985

Starman: «Shall I tell you what I find beautiful about you? 
You are at your very best when things are worst»

Filme atípico na filmografia de John Carpenter, "Starman" é um "E-T." para adultos, um conto de fadas em que o príncipe é um extra-terreste. Pela primeira vez Carpenter relega a ficção científica para segundo plano e dá-nos um filme na linha de um "It Happened One Night”, de Frank Capra, uma espécie de road-movie que atravessa o sudoeste dos EUA. Serenamente intenso, o filme equivale a uma visão da América pelos olhos de uma criança e por isso resulta na obra mais pura e mais bela do realizador norte-americano. A criança é aqui um alienígena que chega à Terra na sequência de um convite («Venham visitar-nos!») formulado muitos anos antes pelas autoridades norte-americanas, quando em 1977 a nave Voyager II tinha sido lançada para o espaço. Afim de passar despercebido toma a forma do corpo do marido recém-falecido de Jenny Hayden, uma jovem viúva que habita sozinha uma casa perto do local onde a nave se despenhou.

A mutação é presenciada diante dos olhos incrédulos de Jenny, que acaba por desmaiar na sala de visitas. Quando acorda julga que tudo não passou de um pesadelo, mas rapidamente se dá conta de que algo de extraordinário ocorreu ao deparar-se de novo com a réplica perfeita de Scott. É esta a sequência que vai despoletar o desenrolar do filme. Mas à semelhança dos filmes de Hitchcock, esta descida à Terra de um extraterrestre não passa de um mcguffin, ou seja, de algo que só serve para fazer evoluir a história. O importante no filme, a ideia que Carpenter teve ao realizar “Starman”, é a aprendizagem recíproca de um casal em corrida contra o tempo, na tentativa urgente de encontrarem as razões pelas quais a vida merece ser vivida num mundo dominado pela intolerância.

Recordemos o que escreveu João Lopes numa crítica publicada no Jornal Expresso, no dia seguinte à estreia do filme em Portugal, «Se Carpenter filma a constituição de um homem a partir do nada - nada de matéria, nada de memória, nada de comunicação - filma também a linguagem como entidade exterior ao corpo, dele separada, a ele devolvida. Aplicando a terminologia de Carpenter, a linguagem é uma coisa, a linguagem é a coisa de "O Homem das Estrelas". Não admira que, mesmo apaixonando-se, o homem das estrelas não possa deixar de querer cumprir o trajecto que, no fim do prazo pré-estabelecido, o devolverá ao seu mundo. Se é verdade, como diz Godard, que a linguagem é a casa onde o homem habita, então o tema de Carpenter em "O Homem das Estrelas" não é senão o exterior dessa casa.»

“Starman” está recheado de cenas magníficas, encadeadas num ritmo harmonioso de aventura, humor, romance e suspense. Uma delas é uma das mais belas passagens da obra de Carpenter - depois de Jenny (Karen Allen) ser abatida, o extraterrestre (Jeff Bridges no papel de uma vida) leva-a para uma caravana que segue em direção a Oeste. Durante toda a noite exerce a sua cura milagrosa, que nos é apresentada em montagem paralela com paisagens mudas, de uma beleza quase austera, conforme a camioneta passa por elas e a noite dá lugar à madrugada e esta dá lugar à manhã com o novo despertar de Jenny. A cena é muito típica de Carpenter: engenhosamente calibrada e ritmada, bem texturada, com uma estranha coordenação entre pessoas e objectos inanimados.

A cena final da despedida (aquele belissimo e último close-up de Karen Allen fica-nos para sempre gravado na memória) é muito característica da idade de ouro do cinema hollywoodiano. Segundo Carpenter constitui o ponto culminante do filme: «Devo reconhecer que esta sequência entre Jenny e Scott é uma das melhores que Dean Reisner escreveu. Acrescentei simplesmente um néon de luz muito vermelha por trás dos dois actores. Foram ambos muito bons. Estavam os dois muito motivados pelo filme, e em especial por esta cena. O plano final que mostra Jenny a levantar os olhos para o céu e depois baixá-los foi conseguido graças a um movimento de grua. Para este plano utilizei uma objectiva de 75 mm, o que me permitiu atenuar consideravelmente o movimento mecânico. Creio que isso deu a esta imagem um lado ao mesmo tempo triste e estranho. Como se Scott se afastasse de Jenny e dos espectadores.»

Jeff Bridges e Karen Allen roçam os limites da perfeição nesta história de amor e inocência contada magistralmente por um John Carpenter em estado de graça, estado esse que não mais se repetiu em toda a sua obra posterior. Por isso "Starman" continua a constituir uma jóia rara e preciosa, completamente imune à lapidação do tempo. De realçar também a excelente fotografia em widescreen (formato de que Carpenter é o mestre do cinema contemporâneo), bem como a banda sonora com uma belissima partitura musical assinada por Jack Nitzche.


Termino citando uma vez mais a crónica de João Lopes do Expresso: « Estamos para o cinema como Jenny Hayden está para o seu companheiro. Não é possível que ele exista, porque não é possível que haja alguém tão diferente e tão parecido com o seu marido - e, no entanto, aquilo é forma e verdade, fala e sentido. Se ela o perde, devolvendo à eternidade o seu amor, isso fica a dever-se, talvez, à impossibilidade de integração pelo extraterrestre da palavra morte. Quando ele devolve à vida o veado abatido pelos caçadores, não é um simples gesto de profilaxia ecológica que resume o acontecimento - de certo modo, é a mão divina do cinema que através dele se exprime. O cinema é um país mais vasto que a linguagem.»




terça-feira, junho 05, 2012

OS "GUILTY-PLEASURES" DE JOHN CARPENTER

Não tive uma educação católica, por isso a culpa nunca teve grande papel na minha vida. Nós, Metodistas, não nos preocupamos assim tanto com a culpa. Em termos de cinema, contudo, a culpa sempre foi importante. Na escola de cinema, estudámos os clássicos, o cinema mudo, o expressionismo alemão, a montagem russa e o neo-realismo italiano. Enfim, essas ladainhas. Apercebi-me de imediato, com algumas excepções, de que não gostava muito, ou adorava, alguns desses filmes clássicos. Quero dizer, pode-se realmente gostar de “Greed”? Até a versão curta é difícil de aguentar.

Por isso, falemos de fiascos e filmes trash. O Pobre. O Terrível. O Estúpido. Filmes de que gosto muito e que gostava muito mais de ver que os clássicos. Em miúdo, sabia que muitos dos filmes que via eram horríveis, mas não queria saber. Adorava-os na mesma. Perdoava tudo. Hoje em dia, ainda amo e perdoo. É um caso de atrofia de desenvolvimento. Só agora, suponho, existe alguma culpa associada a esta paixão por filmes trash, porque de algum modo já devia saber como as coisas são. Bem, mas não sei. Como vão ver.


“THE UNCONQUERED” (Cecil B. DeMille, 1947)

A guerra Franco-Indígena num glorioso technicolor de três cores, que é como ver-se uma grande peça de teatro muito cara. Paulette Goddard é uma escrava inglesa. Gary Cooper é um caçador de índios. DeMille é um realizador com um estilo pesado e rígido. Os figurantes dão o diálogo descritivo. Boris Karloff faz de chefe índio. Cooper resgata Goddard, foge numa canoa e aguarda pendurado num ramo debaixo de uma cascata. Cooper resgata também o Fort Detroit. Todo o excesso na interpretação é muito divertido. Incrível.

“INVASION U.S.A.” (Alfred E. Green, 1952)

Dan O’Herlihy hipnotiza Gerald Mohr, Peggie Castle e outros clientes do bar com um copo de martini, conta uma história alarmista sobre comunistas invadindo os Estados Unidos. A bomba atómica é lançada sobre Nova Iorque. A barragem de Boulder explode. Está cá tudo. A Peggie Castle suicida-se em vez de ser violada pelos porcos invasores comunistas. Trash no seu melhor. Devia ser projectado nas aulas de história. Ou então, nas aulas de cinema.

“THE CONQUEROR” (Dick Powell, 1956)

John Wayne é Genghis Khan, com um bigode fino e um desejo enorme por Susan Hayward. Além disso, há Agnes Morehead e Pedro Armendariz. Além do facto de todo o elenco e equipa talvez terem sido expostos a intensas radiações no local de rodagem no deserto, perto de uma zona de testes atómicos, e além de ser um gozo imparável. Wayne é fantástico como Genghis Khan. Grandes cenas de batalha. Grandes gargalhadas.

“ATTACK OF THE CRAB MONSTERS” (Roger Corman, 1957)

Caranguejos falantes e gigantes com olhos e pálpebras aterrorizam cientistas num atol do Pacífico. Richard Garland e Pamela Duncan parecem um casal, mas ela começa a apaixonar-se pelo operário Russel Johnson. Ed Nelson morre no início. Beach Dickerson morre numa tenda. Cabeças cortadas, mãos cortadas, e os caranguejos desaparecem quando se lhes dá um choque eléctrico. Imensas descidas às profundezas. Imensos tremores de terra. Uma pinça gigante de um caranguejo teima em entrar em cena e atacar pessoas. Muito divertido. Algo cheio de suspense acontece em quase todas as cenas. Dickerson e Nelson combateram o caranguejo. Um clássico de Corman.

“MOTORCYCLE GANG” (Edward L. Cahn, 1957)

O adolescente bom Steve Terrell contra o adolescente mau, o cool John Ashley, em motorizadas. Anne Neyland tem problemas em decidir-se por um deles. Carl Switzer é o toque de humor. Russ Bender procura ajudar adolescentes atestados de testoterona a seguirem pelo bom caminho. Muito cool.

“SORORITY GIRL” (Roger Corman, 1957)

A perturbada Susan Cabot faz da vida um inferno numa república feminina. Barboura O'Neill nãi fica agradada. Cabot tenta chantagear June Kenny, mas Dick Miller não apadrinha o filho de Kenny e grava a confissão. Cabot é tão áspera e má, que é impossível não se gostar dela. Espancamentos com remos. Miúdas na praia. Kenny tenta o suicídio. Cabot caminha pelo mar adentro em fadeout. Exploração adolescente superlativa.

“FROM HELL IT CAME” (Dan Milner, 1957)

O Tabonga, o monstro árvore andante. Sensacional. No trailer, chamam-lhe Baranga. Caminha a 5 km/h em direcção às vítimas indefesas. Todd Andrews comanda os cientistas. Os indígenas das ilhas do Mar do Sul, estúpidos que nem uma porta. Incrível.

“THE VIKING WOMEN AND THE SEA SERPENT” (Roger Corman, 1957)

Um grupo de miúdas vikings em Bronson Caves. Abby Dalton, Susan Cabot, e um exército de louras de peles combatem um monstro de borracha marinho. Richard Devon conduz os maus da fita num enorme casaco de peles e chapéu. Muitas cenas de luta. Muitas lanças atiradas. Algumas das sobreposições não encaixam. Por razões óbvias, as mulheres vikings querem de volta os seus homens capturados. Corman bateu o seu recorde de posições de câmara neste filme: 61 posições de câmara diferentes num só dia. Irresistível.

“THE GIANT CLAW” (Fred F. Sears, 1957)

O mau filme preferido de qualquer apreciador de filmes de monstros. Absolutamente brilhante e idiota. O filme de monstros mais idiota de sempre. Um pássaro gigante “made in” México. Jeff Morrow, Mara Corday, Morris Ankrum e todo o planeta se aterroriza com o cacarejar da galinha anti-matéria. Tem tudo. Película de arquivo. Narativa inane. Uma grande cena romântica dos anos 50 a bordo de um avião. Aviões de brincar despenhando-se. Helicópteros de brincar a aterrar. Comboios de brincar destruídos. Cidades de brincar destruídas. O máximo.

“GOLIATH AND THE BARBARIANS” (Carlo Campogalliani, 1959)

Steve Reeves como Golias (na verdade como Hércules, na versão original italiana) luta contra tribos bárbaras que invadem a Itália. A bela Chelo Alonso é a mulher do seu desejo. Bruce Cabot é o vilão. Reeves no seu melhor, corteja Alonso, finge ser um monstro predador, com uma máscara e um bastão. Grande espectáculo piroso.

“THE INVISIBLE INVADERS” (Edward L. Cahn, 1959)

Invisíveis monstros lunares habitam corpos mortos para controlarem a terra. “Night of the Living Dead” nove anos antes. John Agar, Philip Tonge, Jean Byron e Robert Hutton lutam contra o cadáver possuído de John Carradine e o seu exército. É tão convincente à sua maneira, que não consigo ver quatro segundos do filme sem me sentar e acabar de o ver. Película de arquivo. Narrativa desastrada. Efeitos especiais maus. Mortos vivos. Um clássico.

“BLUE HAWAII” (Norman Taurog, 1961)

O primeiro grande filme de Elvis no Hawaii, e também o melhor de todos. Angela Lansbury é a mãe de Elvis, que quer que ele tome parte no negócio da família. Elvis quer seguir o seu próprio caminho como guia turístico. Ainda me comovo quando canta “I can’t help falling in love”. Por fim, Elvis casa-se com Joan Blackman num casamento havaiano sem sentido, mas muito enfeitado. O Rei no seu melhor.

“WAR OF THE GARGANTUAS” (Inoshiro Honda, 1966)

O supremo filme de monstros japonês. Na verdade, é uma sequela de “Frankenstein Conquers the World”. Russ Tamblyn e Kumi Mizuno combatem monstros peludos irmãos, um bom e um mau. Primeiro, destroem o campo, depois, a cidade. Uma cantora de um bar de um clube no aeroporto trauteia “The words get stuck on my throat” quando é morta por Gargântua. Grandes cenas de luta. Imensas imitações em miniatura destruídas. A tensão cresce quando o público aguarda para ver se Tamblyn e Mizuno acabam juntos. Não acabam.

“ICE STATION ZEBRA” (John Sturges, 1968)

O filme preferido de Howard Hughes. Um submarino nuclear atravessa o pólo norte sob o gelo, para um confronto com os russos. Rock Hudson é o comandante. Patrick McGoohan é um agente britânico. Ernest Borgnine é um espião russo. Jim Brown é cool. Cenário de neve falsa. Aviões de brincar fotografados sobre um painel granuloso. (Isto é Cinerama?). Um argumento absolutamente incompreensível da Alistair MacLean. O que procuram todos? Porque é que o público se ri? Porque é que eu gosto tanto deste filme?

“THE GREEN BERETS” (John Wayne e Ray Kellog, 1968)

O filme épico de John Wayne sobre a guerra do Vietname. Uma fantástica fantasia de extrema-direita. Um grande cerco a uma base de artilharia. Vietcongs assados em arame farpado, como marshmellows. Wayne e os seus Green Berets entram às escondidas numa mansão, capturam o cabecilha vietcong e a sua concubina. Banda-sonora ricky-tick, versão chop-suey. John Wayne, David Janssen, Aldo Ray, Bruce Cabot, Jim Hutton e a pior criança actriz que alguma vez entrou num filme. A melhor deixa final de qualquer filme: Wayne, para um miúdo órfão vietnamita: “Filho, esta guerra é por ti”. Obrigatório ver.

“BEYOND THE VALLEY OF THE DOLLS” (Russ Meyer, 1970)

Uma autêntica obra-prima. Rock and Roll. Belas miúdas nuas. Sexo e violência gratuitos. Dolly Read leva as Carrie Nations, um trio musical feminino, à Hollywood Babylon. O divertimento nunca acaba. As canções são óptimas. As mulheres são lindas. A violência é exorbitante. Uma sátira total de Russ Meyer, que aparentemente foi directa à cabeça do público e da crítica. Edy Williams num Bentley é algo a contemplar. Com 22 anos, estava profundamente apaixonado pela Cynthia Meyers. Ainda estou.
 

Claro que me é impossível acabar esta lista. Há tantos filmes maravilhosos que me proporcionaram prazeres tão culpados ao longo dos anos. Tanta afeição, tanta vergonha. Mas tenho que parar. Tenho que me obrigar a pôr um fim neste prazer. E assim, faço-o.

(in Film Comment nº 5, Setembro-Outubro, 1996)

segunda-feira, setembro 12, 2011

THE WARD (2010)

O HOSPÍCIO
Um filme de JOHN CARPENTER







Com Amber Heard, Mamie Gummer, Danielle Panabaker, Laura-Leigh, Lyndsy Fonseca, Jared Harris, Sydney Sweeney

EUA / 88 min / COR / 
16X9 (2.35:1)

Estreia no CANADÁ a 13/9/2010
(Festival Internacional de Toronto)
Estreia na GRÃ-BRETANHA a 21/1/2011
Estreia em PORTUGAL a 8/9/2011


Dr. Stringer: «What's the first thing you remember?»
Kristen: «Fire»

Nove anos – o período que intervala a estreia das últimas duas longa-metragens de John Carpenter (este “The Ward”, no Festival de Toronto do ano passado,  e “Ghosts From Mars” no Verão de 2001) – é tempo demais, mesmo que durante todos os anos noventa o seu cinema tenha estado longe do brilhantismo conseguido nas décadas anteriores (a última grande obra de Carpenter data de 1988 e chamou-se “They Live”). Pelo meio ficaram apenas dois filmes para a série televisiva “Masters of Horror”: os episódios “Cigarette Burns” (2005) e “Pro-Life” (2006).

Por isso a impaciência não me deixou esperar por Outubro (mês em que se anuncia a edição europeia em DVD e Blu-Ray) e ontem, ao fim da tarde, rumei até Lisboa para ver o filme numa sala da capital. Tratou-se de uma atitude muito pouco usual em mim, atendendo a que há muito tempo que perdi a paciência para ver cinema num espaço público. Mas desta vez os índios não eram muitos, estavam mais ou menos pacíficos, e deixaram-me ver o filme em relativa calma e sossego.

Valeu a pena o sacrifício? Relativamente: não saí eufórico da sala (longe disso) mas também não dei o tempo por perdido. “The Ward” vê-se bem, sobretudo para os fanáticos do género (sim, sou um deles e sem cura possível), apesar de não apresentar nada de original e, pelo contrário, percorrer muitos dos clichés do filme de terror. Tudo o que “The Ward” mostra já estamos fartinhos de ver noutros filmes. Nem sequer falta o twist final (apenas uma semi-surpresa, visto ser facilmente adivinhada a partir do meio do filme), que o aproxima muito descaradamente de “Shutter Island”, de Scorsese, mas sem a classe deste. Ou o inevitável arrepio-final, moda lançada pela obra-prima de Brian DePalma (“Carrie”),  e que desde então não há filme de terror que se preze que não recorra a esse artifício final. Mesmo que o faça de forma perfeitamente gratuita, como é o caso aqui.


O que resta é uma mise-en-scène perfeita (único contributo reconhecível de Carpenter, que desta vez não é responsável pela música, como tantas vezes sucedeu no passado), uma fotografia a realçar convenientemente todo o clima claustrofóbico da clínica onde se passa a grande parte da história (apesar de alguns escuros demasiado acentuados), uma jovem actriz muito sensual (Amber Heard, na beleza dos seus 24 anos e bem rodeada por um elenco maioritariamente feminino) e sobretudo um delicioso momento musical ao som de “Run Baby Run (Back Into My Arms)”, o hit original dos Newbeats (escrito por Joe Melton e Don Gant) de 1965, recriado posteriormente por Roy Orbison e The Tremeloes (e que muito boa gente da minha geração irá redescobrir nas suas memórias musicais). Mas a frase incluída nos posters do filme - “Carpenter proves he is still the master of shock” - não contem, obviamente, qualquer ponta de verdade - o “master” há mais de 20 anos que foi de férias e ainda não foi desta que regressou ao convívio de todos os seus fans de outros tempos.




sexta-feira, janeiro 07, 2011

ANTE-ESTREIA - "THE WARD" (2010)

Nove anos depois de “Ghosts From Mars” (2001), e depois de dois episódios para a série televisiva “Masters of Horror” (em 2005 e 2006), eis que se anuncia o novissimo filme de John Carpenter, “The Ward”. Com um orçamento a rondar os 6 milhões de dólares, o filme conta com a participação dos actores Amber Heard (a Amber da série “Californication”), Lyndsy Fonseca (a Dylan da série “Desperate Housewives”), Danielle Panabaker (entrou nas novas versões de “The Crazies” e “Friday The 13th”) e Jared Harris (“The Curious Case of Benjamin Button”).
 “The Ward” fez a sua apresentação oficial no Canadá, no Festival Internacional do Filme de Toronto, a 13 de Setembro de 2010, tendo-se estreado oficialmente apenas na Bélgica, a 24 de Novembro de 2010. Apesar da grande maioria das críticas não terem sido nada famosas, esperemos que apareça cá pelo burgo o mais depressa possível, pois 9 anos é tempo demasiado para não termos direito a um filme de Carpenter.

segunda-feira, agosto 09, 2010

JOHN CARPENTER NA PRIMEIRA PESSOA

Desde a sua primeira longa-metragem (“Dark Star”/”A Estrela Negra”, em 1973) que o realizador nova-iorquino John Carpenter tem consagrado a sua carreira ao medo, ao terror, ao fantástico, às fábulas apocalípticas, à ficção científica. Aos 62 anos é o autor de uma das obras mais ricas de entre o cinema americano das últimas 4 décadas, além de ser seguido por um autêntico clube de admiradores fiéis, que elogiam cada um dos seus inconfundíveis filmes. Vamos saber um pouco mais dele através das suas próprias palavras:
A INFÂNCIA
A minha primeira recordação do cinema é provavelmente “The African Queen” (“A Rainha Africana”), de John Huston. Lembro-me de o ter visto com os meus pais num cinema que se chamava Strand, em Carthage, no estado de Nova Iorque. As sanguessugas coladas nas costas de Humphrey Bogart tiveram sobre mim um efeito terrível. Mas creio que a primeira experiência realmente terrificante que me aconteceu no cinema foi a projecção em 3 dimensões do filme de Jack Arnold “It Came From Outer Space”. Na cena de abertura havia um meteorito que caía no deserto. Depois, subitamente, começava a dirigir-se em direcção da câmara a toda a velocidade, em chamas, até que explodia. Por causa do efeito do relevo, tive a impressão de que o meteorito me ia explodir na cara. Saltei do meu lugar e pus-me a correr para a saída. Mas lembro-me que, segundos depois, o meu medo se transformou em excitação. Foi certamente uma das experiências mais incríveis que me sucederam em criança. Voltei para a minha cadeira, a pensar: “Um dia, também quero fazer isto. Quero que as pessoas sintam aquilo que estou neste momento a sentir”.
A minha mãe levava-me muito ao cinema. Chegávamos a ir mais de duas vezes por semana. Já mais velho, continuei a frequentar assiduamente as salas de cinema. Ia ver tudo. Westerns, comédias musicais, filmes de ficção científica, filmes de terror, comédias, dramas, serials...
Depois de ter visto “Forbidden Planet” (“O Planeta Proibido”), em 1956, percebi que queria ser aquilo a que se chamava um “realizador”. Peguei na câmara Super 8 do meu pai e comecei a fazer filmezinhos com os meus amigos. Graças a essa pequena câmara descobri algumas regras básicas do trabalho de cineasta, como a montagem, a filmagem de câmara ao ombro, ou ainda a maneira de enquadrar.

APRENDENDO COM OS MELHORES
Na USC (University of South California) passávamos muito tempo a ver retrospectivas consagradas a grandes cineastas. E lembro-me de que no fim das projecções muitos deles vinham falar-nos sobre os seus filmes. Fazíamos perguntas e eles respondiam. Mas na maior parte das vezes aquilo transformava-se num imenso forum onde as perguntas eram disparadas em todas as direcções. Foi assim que tive o enorme privilégio de ouvir realizadores como Orson Welles, Howard Hawks, John Ford, Alfred Hitchcock, Roman Polanski ou Billy Wilder a falarem do seu trabalho. Falavam de tudo: dos filmes, das suas carreiras, da indústria do cinema, da direcção de actores, da forma como abordavam certos temas, da sua técnica ou do seu estilo visual. Ser estudante na USC, naquela época (final dos anos 60), foi verdadeiramente uma oportunidade extraordinária. Tentei portanto reter e integrar destes mestres do cinema tudo o que pude.


O TERROR
Só há duas maneiras de fazer filmes de terror. A primeira é a que nos apresenta uma pessoa (pode ser uma ou várias, é igual), que enfrenta um perigo que lhe é exterior, que diz "atenção, há qualquer coisa aqui fora à nossa espera", que tanto pode decorrer num bosque como numa mansão. É, de facto, alguém que enfrenta um medo que vem do exterior. A segunda é a que apresenta um homem que enfrenta um terror que surge de um lugar muito mais aterrador: do seu próprio interior, o medo surge-lhe do coração. Eu sempre dei a primazia à história e admiro os que são capazes de fazer filmes em que a maldade surge do próprio ser humano, porque tenho a profunda convicção de que são muito mais difíceis.

HOLLYWOOD
Sobrevivi a Hollywood, mas muito poucos o conseguiram fazer. Alguém acredita que eu dê alguma importância ao que fazem aqueles tipos de gravatas depois de mais de 30 anos a ouvi-los dizer disparates? Claro que não, sempre fiz o que quis. Se olharmos para as bilheteiras americanas, vemos que 80% daquilo são aquelas sequelas horríveis. Isso é Hollywood, é-lhes indiferente fazer algo original, só entendem a linguagem dos números. Já não existem os estúdios, é tudo dirigido por grandes corporações que ninguém entende. A mim não me chateiam, já sabem que não estou interessado em nada do que possam oferecer-me, e assim evito aquelas conversas surrealistas que têm alguns dos meus colegas.


KURT RUSSELL, O ACTOR FÉTICHE
Kurt é um grande actor e damo-nos às mil maravilhas. Ele foi o meu alter ego no cinema em alguns dos meus melhores filmes, sabe captar na perfeição o que procuro nas minhas personagens e consegue dotá-las de matizes. Adoraria voltar a trabalhar com ele, mas nesta altura Kurt também é muito caro. E sabem uma coisa? Eu também quero sê-lo, adoraria ser tão caro como ele.

OS GÉNEROS
Sinceramente, não me vejo a fazer um musical, com um monte de gente a parar de conversar e a começar a cantar. Nem uma comédia... eu não sirvo para isso. Faço o que fiz toda a minha vida, que é a única coisa que sei fazer, e portanto... é o que faço. Alguém imagina um produtor a vir a minha casa com um argumento e dizer-me - "Olha, John, gostavas de adaptar esta obra da Jane Austen para nós? Agradecíamos-te muito" - e a oferecerem-me um cheque? Claro que lhes respondia: "Por favor, já olharam bem para mim?" Felizmente isso nunca acontece, e a verdade é que não sei se poderia ultrapassar isso... adaptar Jane Austen... ufff, seria demasiado!


MEDOS
Medos? O único que me tira o sono são os play off da liga de basquetebol americana, a NBA... Nem sequer tenho pesadelos à noite. Eu não acredito em nada do que conto, não acredito em monstros, nem em lendas diabólicas, nem em seres maléficos, nem em Ovnis... eu só acredito na ciência, só me preocupo com os avanços científicos, que, por outro lado, foi o que nos deu tudo aquilo de que podemos desfrutar. Por isso, quando me meto na cama, durmo como um tronco. Os pesadelos deixo-os para os meus filmes.

O WESTERN
Toda a gente sabe que tenho passado a vida inteira a fazer westerns. Adoro westerns. Dizem que homenageio sempre Howard Hawks, e sabem que mais? É absolutamente verdade. Adoro os filmes dele: são inteligentes, as personagens têm entidade, podemos sentir o que querem transmitir-nos. A única coisa que faço é mudar a acção: procuro novas paisagens para continuar a fazer o mesmo. E continuarei a fazer westerns, simplesmente porque acho que é o que faço melhor. Terror? Sim, mas westerns de terror, como “Ghosts From Mars” (“Fantasmas de Marte”). Que ninguém vá ver o filme a pensar que é um filme de acção ou de terror. Não façam confusão... é um western. Só que passado em Marte.


LOS ANGELES
Nunca me vou fartar de Los Angeles: adoro aquela cidade, é maravilhosa. Mas quando falamos do meu país, bom, há algumas coisas que não têm remédio... a perseguição aos fumadores, os problemas que têm com o sexo... O meu próximo filme vai ter muito sexo, mas mesmo muito sexo... até tenho um título possível, "I Did You Last Summer". É bom, não é verdade?... É que no meu país são uns puritanos: vou repeti-lo para quem não tenha ouvido bem, pu-ri-ta-nos. Suponho que agora terão entendido. Por exemplo, vê este cigarro? Isto é algo delituoso até aos limites mais surrealistas. Apesar de tudo, acho que nada pode ser pior que a época de Reagan. Sim, definitivamente é impossível que algo seja pior que a época Reagan.

OS FESTIVAIS
Fico sempre surpreendido quando me convidam para festivais e uma série de eminências me tratam por senhor Carpenter e insistem em chamar-me autor. Eu sou apenas um operário, um simples operário. Rodo os filmes o melhor que sei e nunca tento que alguém me aplique adjectivos como o de autor; mas agradeço, claro. É melhor que nos chamem autor do que imbecil. Por outro lado, também me agrada conhecer pessoas que, de facto, gostam dos meus filmes, e se voltar atrás no tempo recordo que “Assault On Precinct 13” (“Assalto à 13ª Esquadra”) não me rendeu um dólar até o terem passado no Festival de Londres. Por isso, às vezes sinto-me, nos festivais, como um bicho estranho. Mas nem sempre... é uma sensação estranha.


A MARCA DA CASA
Às vezes as pessoas dizem-me: "Não acha que é muita presunção colocar o seu nome antes do título dos filmes?" A única resposta que posso dar-lhes é: "Sabem, levei uma eternidade a ganhar esse estatuto, e não foi fácil". As pessoas que vêm o meu nome nos meus filmes sabem o que lhes ofereço, não vão enganadas, podem ir ao cinema e sabem exactamente o que vão ver, Depois de tantos anos e tantos filmes, continuo a ser o mesmo de sempre a fazer o mesmo. Alguns gostam e outros não, mas eu não faço os filmes para divertir o público, faço-os para me divertir, e sabem uma coisa? Divirto-me que nem um doido.

A MÚSICA
Componho a música dos meus filmes porque me agrada fazê-los, não para ver o meu nome mais vezes nos créditos. Não tenho nenhum método especial. Simplesmente pego no sintetizador e improviso uma melodia de acordo com as imagens que vejo. Se me agrada deixo como está, se não volto a começar. Quando vejo que não consigo fazer, como em “The Thing” (“Veio do Outro Mundo”), vou procurar alguém. Sempre gostei de música e, bom, estou mais satisfeito com algumas das minhas composições que com outras, mas, de qualquer forma, a minha música é uma parte tão importante dos meus filmes como as imagens.

 
A IMPROVISAÇÃO
A improvisação depende consideravelmente do talento dos actores. A maior parte daqueles com quem trabalhei quer reescrever os diálogos, mudá-los, trocar palavras, algo que compreendo muito bem. E quanto mais poder tem um actor, comercialmente falando, mais elevado é o seu perfil e mais tendência tem a querer improvisar. Mas em matéria de improvisação tive, sobretudo em certas rodagens, experiências más. Aconteceu-me ter que reduzir sequências, ou cortá-las inteiramente, por causa de más improvisações.

OS CRÍTICOS
A experiência que tive no departamento de cinema da USC ensinou-me que as pessoas que fazem filmes e as que os analisam (os chamados “críticos”) têm uma abordagem radicalmente diferente. Ainda hoje fico muitas vezes siderado com as críticas que leio em certas revistas de cinema. É um pouco como se os críticos e os realizadores vivessem em dois planetas diferentes, como se pertencessem a universos regidos por leis físicas distintas.