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sexta-feira, dezembro 03, 2021

SLEEPLESS IN SEATTLE (1993)

SINTONIA DE AMOR
Um filme de NORA EPHRON

Com Tom Hanks, Meg Ryan, Bill Pullman, Ross Malinger, Rita Wilson, Rob Reiner, Rosie O’Donnell, Victor Garber, Barbara Garrick, etc.

EUA / 105 min / COR / 
16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA: 25/6/1993
Estreia em PORTUGAL: Lisboa (cinema São Jorge), 19/11/1993


Tu vieste

E acordas todas as horas
Preenches todos os minutos
Acendes todas as fogueiras
Escreves todas as palavras
(Joaquim Pessoa)

Estamos a 3 de Dezembro de 1993, uma sexta-feira. Conforme o combinado, vou ter contigo ao Hotel Jerónimos, ali para os lados de Belém, frente ao alçado nascente do mosteiro homónimo, pelas 19:00 horas. Sou pontual, como sempre, mas tenho de ficar à tua espera no hall da recepção. Nos altifalantes soa uma canção que conheço muito bem: é "I Will Always Love You", cantada pela Whitney Houston. Chegas finalmente e ficamos um pouco à conversa. Não temos muita fome mas temos de ir comer qualquer coisa. Saímos, atravessamos a rua dos eléctricos e vamos jantar a um restaurante ali perto chamado "Caseiro". Quando acabamos, reparamos nas horas, e damo-nos conta de que ainda podemos ir ao cinema. Chamamos um táxi, que nos conduz rapidamente ao cinema São Jorge, na Av. da Liberdade. O filme em cartaz é o "Sleepless in Seattle", que eu já tinha visto (estreara-se a 19 de Novembro), mas apetecia-me imenso vê-lo outra vez, e desta vez contigo. 


Na cumplicidade do escuro da sala trocamos de mãos. Sabe bem estar ali de novo, bem junto a ti, pois a última vez que tal tinha acontecido fora já há 22 anos. Nessa altura fomos a uma matiné de domingo (era o 26 de Setembro de 1971), eu tinha 18 e tu 16 anos, e o cinema era outro: o antigo Vox, ali para os lados da Av. de Roma. Dessa sessão ainda conservo os bilhetes (ficámos na fila G, nºs 11 e 13) e o filme era o "Love Story". Acabada a sessão apanhamos novo táxi para nos levar de regresso ao Hotel. Subimos ao teu quarto e ficamos ainda um bocado a tagarelar. Estás cansada e com sono, sem disposição para prolongar as emoções do dia. Depeço-me de ti e vou para casa. No futuro ainda faríamos muitas coisas juntos, mas em relação ao cinema, nunca mais vimos um filme lado a lado. "Sleepless in Seattle" foi a nossa última sessão de cinema.


Dr Marcia Fieldstone: «What are you going to do?»

Sam Baldwin: «Well, I’m gonna get out of bed every morning… breathe in and out all day long. Then, after a while, I won’t have to remind myself to get out of bed every morning and breathe in and out… and, then after a while, I won’t have to think about how I had it great and perfect for a while.»

Dr. Marcia Fieldstone: «Tell me what was so special about your wife?»

Sam Baldwin: «Well, how long is your program? Well, it was a million tiny things that, when you added them all up, they meant we were supposed to be together… and I knew it. I knew it the very first time I touched her. It was like coming home… only to no home I’d ever known… I was just taking her hand to help her out of a car and I knew. It was like… magic!»

Foi uma noite muito especial, aquela de sexta-feira, a que “Sleepless In Seattle” adicionou um pequeno toque de magia, como se por umas horas tivéssemos regredido no tempo. Sim, porque é disso que o filme trata, dos "acordes perfeitos" que por vezes se estabelecem entre duas pessoas, tornando esses momentos inesquecíveis. 



O filme inicia-se por um funeral: o de Maggie, a jovem esposa de Sam Baldwin (Tom Hanks), que deixa este naturalmente abatido e revoltado com a vida. Sam é arquitecto, vive em Chicago, e tem um filho de 8 anos, Jonah (Ross Malinger), que dali em diante passará a ser a sua única companhia. Mudam-se para Seattle, uma cidade portuária no noroeste dos Estados Unidos, junto à fronteira com o Canadá. Ano e meio depois, Sam continua com dificuldades em dormir, apesar de ter voltado a trabalhar. Na véspera de Natal, Jonah liga para um desses programas da rádio que têm o hábito de se meterem na vida das pessoas, resgatando histórias pessoais para deleite dos seus ouvintes. Como presente de Natal, pede uma nova mulher para o pai, e consegue que este, muito contrariado, aceda a falar com a responsável do programa, uma tal Drª Marcia Fieldstone (ver diálogo acima transcrito). Entre as muitas mulheres que ouvem a história de Sam e por isso anseiam conhecê-lo, encontra-se Annie Reed (Meg Ryan), uma jornalista de Baltimore, que está prestes a casar-se com Walter (Bill Pullman), um homem adorável (apesar das alergias), que tem tudo para a fazer feliz. Mas a história ouvida na rádio torna-se uma obsessão para ela, a ponto de viajar para Seattle (Baltimore, lembre-se, fica na costa oposta do continente americano) no intuito de conhecer pessoalmente quem inexplicavelmente lhe tomou conta de todos os pensamentos. Alguém que nunca viu na vida, que nem sabia que existia, mas que, quem sabe, seja a "tal alma gémea" .

Todo este preâmbulo tem como objectivo presentear o espectador com a pungente sequência final, passada em Nova Iorque, nomeadamente no topo do Empire State Building. Estou até convencido que a filmagem desse epílogo, um dos mais emocionantes da história do cinema (assim, de repente, lembro-me de apenas mais dois com igual índice de intensidade: o do "Cinema Paradiso" e o do "City Lights"), foi a razão primeira pela qual "Sleepless In Seattle" foi escrito. Tendo como reminiscências o clássico de Cary Grant e Deborah Kerr (“An Affair To Remember”, 1957), filme várias vezes citado (e visualizado), Nora Ephron (1941-2012), responsável também pelo argumento (melhor do que directora, ela foi uma argumentista notável), reinventa o filme de Leo McCarey, adaptando-o para a modernidade. Sem ponta de ironia, e utilizando a ingenuidade e a sinceridade dos melodramas da década de 50, Nora Ephron mostra-nos que o amor, afinal, não muda muito ao longo dos tempos, sendo reconhecido, quase sempre, por aquele pequeno frisson entre duas pessoas, que por causa disso se tornam especiais: «Existem amores, vagos e fugidios, que duram apenas três dias. Mas há outros, raros e preciosos, que o tempo e a saudade alimentam e que duram toda a vida». A tal "magia" de que o filme fala.


ALGUMAS CURIOSIDADES:

- A hilariante cena entre Tom Hanks e Victor Garber, evocando cenas do filme "The Dirty Dozen", foi completamente improvisada.

- O papel de Annie foi recusado por actrizes muito conhecidas, nomeadamente Julia Roberts, Kim Basinger, Michelle Pfeiffer, Jennifer Jason Leigh e Jodie Foster. Nicole Kidman e Demi Moore foram também equacionadas para o papel.

- Foi o segundo de três filme em que Meg Ryan e Tom Hanks trabalharam juntos. O primeiro foi "Joe Versus The Volcano" (1990) e o terceiro, "You've Got Mail" (1998).

- Nora Ephron escreveu o argumento de "When Harry Met Sally" (1989), também com Meg Ryan, filme dirigido por Rob Reiner, o qual participa como actor neste "Sleepless In Seattle".

- Em Junho de 2008, o American Film Institute colocou "Sleepless In Seattle" na lista das 10 melhores comédias românticas de sempre. Ver lista completa aqui.

- O filme teve duas nomeações para os Óscars de Hollywood, nas categorias de argumento original (Nora Ephron, David S. Ward e Jeff Arch) e melhor canção: "A wink and a smile" (música de Marc Shaiman e letra de Ramsey McLean), interpretada por Harry Connick Jr. Mais três nomeações para os Globos de Ouro: melhor comédia ou musical; actriz principal (Meg Ryan) e actor principal (Tom Hanks). Ver aqui outros prémios.

A BANDA-SONORA:
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sexta-feira, janeiro 20, 2017

THE AGE OF INNOCENCE (1993)

A IDADE DA INOCÊNCIA
Um filme de MARTIN SCORSESE



Com Daniel Day-Lewis, Michelle Pfeiffer, Winona Ryder, Alexis Smith, Geraldine Chaplin, Mary Beth Hurt, Alec McCowen, Richard E. Grant, Miriam Margolyes

EUA / 139 min / COR / 
16X9 (2.35:1)


Estreia em Itália, a 31/8/1993 
(Festival do Filme de Veneza)
Estreia nos EUA a 1/10/1993
Estreia em Portugal, a 12/11/1993



Ellen: «You couldn't be happy if it meant being cruel. 
If we act any other way I'll be making you act against what I love in you most. And I can't go back to that way of thinking. 
Don't you see?  I can't love you unless I give you up»

Edith Wharton escreveu "A Idade da Inocência" em 1920. No ano seguinte, o romance recebeu o Prémio Pulitzer, tendo sido Edith a primeira mulher a vencer este prémio. Em 1980, o crítico da Time Magazine Jay Cocks deu um exemplar a Martin Scorsese, dizendo-lhe «quando quiser fazer um filme de época, é este». Scorsese demorou sete anos até finalmente ler o romance. Antes de o acabar, já sabia que tinha de fazer a adaptação ao cinema. Cocks: «É culpa e consciência - Scorsese puro... Penso que o filme todo já estava na cabeça dele quando terminou de ler a última página». Scorsese: «Sempre me senti atraído pela repressão do desejo. O amor não consumado, o amor que se torna uma obsessão. Esse tema está em muitos dos meus filmes. Remonta a “Taxi Driver”».


Como muitos filmes de Scorsese, "A Idade da Inocência" é uma história de violência, mas não no sentido convencional. Os protagonistas eliminam as suas vítimas através de regras de etiqueta, em vez de o fazerem através das balas. Não é o sangue que escorre, mas a alma. Wharton: «Viviam todos numa espécie de mundo hieroglífico. As coisas a sério nunca eram ditas ou feitas, nem sequer pensadas, mas apenas representadas por um conjunto de sinais arbitrários. Esses sinais nem sempre eram subtis, o que os tornava mais significativos. As recusas eram mais do que uma simples censura. Eram uma erradicação». Scorsese: «Eles vestem roupas diferentes, mas o seu comportamento não é assim tão diferente do comportamento do crime organizado. Aliás, considero este filme muito mais violento do que “Taxi Driver” ou “Goodfellas”, por causa do choque entre o estado físico e o estado emocional das pessoas. Quando encenei o jantar de despedida para Ellen, os criados à volta da mesa pareciam-se com sentinelas, forças do crime organizado. Foi como se dissessem - este tipo, Archer, não vai a lado nenhum».


Convidando Cocks para colaborar no argumento, a dupla concluiu a primeira versão em Fevereiro de 1989. Quando a segunda versão foi terminada, em Dezembro de 1991, as decisões em relação ao elenco já estavam quase todas tomadas. Barbara De Fina, produtora (e mulher de Scorsese, de 1985 a 1991): «A escolha dos actores é essencial para o Marty, e ele soube logo quem queria: Daniel Day-Lewis e Michelle Pfeiffer». Demorou mais tempo a escolher a actriz para a personagem de May. Scorsese encontrou-a quando conheceu Winona Ryder numa cerimónia em Los Angeles. De Fina: «Precisávamos de alguém com um grande contraste físico com Michelle, mas também alguém capaz de personificar a natureza ambígua de May. Quando olhamos para o elenco, ele é de primeira qualidade, o que foi perfeito para o nível de sociedade aristocrática que estávamos a criar».


As atenções foram também viradas para a produção do filme. Os autores não pouparam despesas para criar uma exacta reconstituição daquela época. Scorsese contratou a graduada em história da arte, Robin Standefer, como consultora visual. Durante dois anos e meio ela registou todos os detalhes culturais da vida da alta sociedade do final do século XIX, enchendo 25 volumes de referências. De Fina: «Era importante que o espectador se sentisse como a viver naquela época. Isso ajuda a compreender a sua vida emocional. Tudo era bonito e luxuoso, mas ao mesmo tempo muito restritivo... As pessoas falavam e comportavam-se de uma maneira tão diferente naquela altura».


As filmagens começaram em Março de 1992. As cenas de exteriores da cidade de Nova Iorque foram filmadas em Troy, Nova Iorque. Patty Doherty, responsável pelos exteriores: «Visto que os edifícios na rua tinham permanecidos intactos desde o virar do século, quando Troy era um importante centro de negócios, não havia arranha-céus novos no horizonte. Esse era um problema em qualquer outro sítio. E a rua fazia uma curva no fim, o que escondia os semáforos. Não podíamos construir um cenário que fosse melhor». A Fraternity House Pi Kappa Phi de Troy foi redecorada para se tornar a casa de Mrs. Mingott. A Philadelphia Academy of Music fez as vezes da New York Academy of Music e do National Arts Club, a antiga Tiden House, em Gamercy Park, tornou-se a mansão Beaufort. As filmagens terminaram em Paris, no fim de Junho. A montagem do filme demorou quase um ano.


Scorsese: «O único elemento puro e original do cinema - o que o diferencia de qualquer outra forma de arte - é a montagem. Nós quisemos fazer o livro. Condensar e ao mesmo tempo manter o espírito e a verdade do que Edith Wharton escrevera. Este é um filme sobre uma sociedade onde as emoções não são facilmente visíveis ou aparentes. Só há apenas uma ou duas cenas onde as pessoas dizem finalmente o que querem e o que sentem. Dessa forma o prazer de moldar uma cena na mesa de montagem advém da tensão entre o mostrar e o não mostrar a emoção... Deveria fazer com que as pessoas (que estão a ver o filme) se sentissem desconfortáveis, da mesma forma que as personagens na tela estão desconfortáveis».


Escolhido pela Time Magazine como "O Melhor Filme do Ano", “A Idade da Inocência“ reproduz em simultâneo a beleza e a ironia do seu título. Porque, no final de contas, o filme é uma perturbante descrição de um amor impossível, o resultado do qual foi talvez melhor descrito pela própria Edith Wharton: «A vida é a coisa mais triste que há, depois da morte». De qualquer maneira não se deve conotar “A Idade da Inocência” apenas com a crueldade do romance. Scorsese revela um prazer tão grande em filmar, não só os seus actores mas também os objectos e os cenários, que o filme “se esquece” muitas vezes de ser infeliz. “A Idade da Inocência” fez a sua ante-estreia no Festival do Filme de Veneza, a 31 de Agosto de 1993, alguns dias após a morte de Luciano Charles Scorsese, pai de Marty, a quem o filme é dedicado.

CURIOSIDADES:

- Chegando a estar prevista para o Outono de 1992, a estreia foi adiada cerca de um ano devido ao longo trabalho de montagem de Scorsese

- O realizador tem uma curta aparição no filme: é o fotógrafo que tira as fotografias do vestido de casamento de May. Também os pais de Scorsese aparecem no filme, na cena rodada na estação

- Vencedor do Oscar para o melhor Guarda-Roupa, o filme teve ainda mais 4 nomeações da Academia, nas categorias de Argumento-Adaptado, Direcção Artística e Cenários, Música Original e Actriz Secundária (Winona Ryder, que viria a ganhar o Globo de Ouro)