domingo, março 06, 2011

PORTFOLIO - JANE RUSSELL


ENSAIO SOBRE LUIS BUÑUEL

Foi o Victor Afonso, responsável pelo blogue "O Homem Que Sabia Demasiado", que me chamou a atenção para um excelente ensaio sobre a vida e obra de Luis Buñuel, assinado por Gaspar Garção e publicado numa revista cultural brasileira de Fortaleza, Ceará. Como se trata de um dos meus realizadores de eleição, aqui fica o link para os interessados.

quinta-feira, março 03, 2011

À L'INTÉRIEUR (2007)

INSIDE
Um Filme de ALEXANDRE BUSTILLO e JULIEN MAURY


Com Béatrice Dalle, Alysson Paradis, Nathalie Roussel, François-Régis Marchasson, Jean-Baptiste Tabourin, Dominique Frot, etc.

FRANÇA / 83 min / COR / 
16X9 (1.85:1)

Estreia em FRANÇA a 24/5/2007
(Festival de Cannes)
Estreia nos EUA a 17/10/2007
(Screamfest Film Festival)



“A L’Intérieur” é mais uma das revelações do gore francês, género do qual se têm comentado por aqui alguns títulos. Violento e sanguinolento como os demais, tem a particularidade de se desenrolar quase inteiramente no espaço fechado de uma residência, curiosamente (ou propositadamente) com o número 666 na porta de entrada. Trata-se, uma vez mais, de uma primeira obra, mas desta vez assinada por dois directores, Julien Maury e Alexandre Bustillo (ex-jornalista da revista francesa Mad Movies) que também é responsável pelo argumento.


A história, como convém neste tipo de filmes, é extremamente simples: Sarah Scarangelo (Alysson Paradis) é uma repórter fotográfica que consegue sobreviver a um violento acidente de carro, no qual o marido perde a vida. As imagens da colisão – magníficas – constituem o prólogo do filme. Sarah encontra-se grávida e o trauma provocado pela morte do companheiro vem alterar-lhe radicalmente o modo de encarar a vida, tornando-a em pouco tempo numa pessoa taciturna e apática, características bem evidenciadas nos primeiros quinze minutos do filme, durante os quais uma tensão em crescendo nos vai anunciando a tragédia que está para vir.


Chegada a véspera de Natal, Sarah encontra-se em casa, sózinha, tendo agendado o parto para a manhã do dia seguinte, altura em que o patrão a virá buscar para dar entrada no hospital. Mas aquela noite revelar-se-á tudo menos pacífica. A campainha da porta soa e uma silhueta de mulher perfila-se junto à entrada. Desconhecida para Sarah, a estranha visita parece saber tudo a seu respeito, tentando convencê-la a deixá-la entrar. Alarmada, Sarah telefona à polícia que chega algum tempo depois para constatar a ausência de qualquer intrusa. Fica a promessa de voltarem durante a ronda seguinte e Sarah vai deitar-se. Mas a mulher volta a aparecer, conseguindo desta vez introduzir-se dentro da casa. E as suas intenções não são nada pacíficas…


Desenrolando-se numa densa atmosfera de claustrofobia, “A L’Intérieur” conjuga o gosto pelo macabro com um mórbido sentido de humor na apresentação dos episódios que vão tendo lugar. Sarah luta desesperadamente pela sobrevivência (dela e do filho que traz no ventre), chegando a ter alguma esperança à medida que outras pessoas vão chegando à casa (o patrão, a mãe, os polícias). Mas todas elas vão sendo sucessivamente eliminadas pela intrusa demoníaca, aparentemente sem qualquer razão subjacente (o motivo será no entanto revelado no surpreendente final). O título do filme, mesmo a sua tradução inglesa (“Inside”) reflecte dois interiores distintos mas que se confundem na sua extrema vulnerabilidade – o interior da casa e o interior do ventre de Sarah, sendo ambos o objectivo de violação por parte da outra mulher. Uma violação que vem a concretizar-se numa terrível apoteose final, de contornos maléficos e de visão quase insustentável, requacionando-se a teoria da essência do mal estar ligado à natureza da mulher e ao seu papel de procriação.


 Um filme hiper-brutal, por vezes horripilante, mas de que não conseguimos desviar os olhos desde que aquele magnífico genérico nos fez regressar à grande escola do horror – uma escola famosa, onde leccionaram alguns dos melhores professores do passado: Argento, Fulci, Carpenter, Romero. No campo da interpretação, o realce vai para Alysson Paradis (irmã mais nova da cantora Vanessa Paradis) que nos dá uma angustiante e vulnerável Sarah mas sobretudo para Béatrice Dalle, que compõe aqui uma das mais perturbantes personagens femininas de que tenho memória. Dada a crueza das imagens e sobretudo por causa do distúrbio psicológico do enredo, “A L’Intérieur” deverá ser prudentemente evitado por parte de mulheres que se encontrem grávidas. De resto, convidam-se todos os apreciadores do género para se deliciarem durante cerca de 80 minutos num carrocel de contínuos sobressaltos.




quarta-feira, março 02, 2011

BSO - "GAROTA DE IPANEMA"

FILME-CANÇÃO
Uma das mais conhecidas canções da Bossa Nova, Garota de Ipanema" foi composta em 1962 por Vinícius de Moraes e Antônio Carlos Jobim, fazendo (e ainda faz) muito sucesso no exterior. Sua letra e a suavidade da melodia serviram de inspiração para o filme homônimo de 1967, dirigido por Leon Hirszman e tendo como roteirista Eduardo Coutinho, dois dos principais mentores do Cinema Novo, o movimento que lançou o cinema brasileiro mundialmente nos anos 60. O carioca Hirszman (1937-1987) vinha de "A Falecida" (1965), seu primeiro longa, baseado numa famosa peça teatral de Nelson Rodrigues e protagonizado pela diva Fernanda Montenegro (“Central do Brasil”).  É uma obra de impacto, bem acabada, principalmente quanto à construção do espaço dramático, reconhecida hoje como um dos nossos clássicos. Em 1966, em sociedade com Marcos Farias, o diretor adquiriu a Saga Filmes, produzindo “Garota de Ipanema”, que retrata a sociedade urbana do Rio de Janeiro, ao contrário da maioria dos filmes do Cinema Novo, que sempre investia em argumentos rurais.


Pouco visto e ainda hoje inédito em vídeo no Brasil, o filme conta com um elenco de atores talentosos e outrora conhecidos: Adriano Reis, Arduíno Colassanti e Irene Stefânia. Mas gira principalmente em torno de Márcia Rodrigues, uma bela atriz que fez carreira no teatro, televisão e cinema, sendo considerada uma das musas do Cinema Novo e do Cinema Marginal. Ela trabalhou com os mais expressivos cineastas brasileiros, incluindo no pacote o Nelson Pereira dos Santos de “El Justiceiro” (1967). No filme de Hirszman, ela é uma típica garota da Ipanema (bairro carioca de classe média alta) da época: vive na praia, vai a festas, freqüenta as rodas intelectuais, gosta de Bossa Nova, estuda na PUC, namora um campeão de surf e até tem um flerte com o cantor/compositor Chico Buarque de Hollanda, além de uma aventura com um fotógrafo casado, sempre amparada por um amigo, Zeca. Incerta quanto a seu futuro, angustiada em sua busca pela felicidade, representa uma maneira de ser da classe média. Vive só, em busca de solução para os seus problemas. Durante o carnaval, encontrará afinal uma resposta para as suas dúvidas, uma promessa de tempos mais autênticos e felizes, o reencontro consigo mesma.

Leon Hirszman
O que se percebe no filme é o desejo lúdico de lidar com todo o universo burguês que cerca o próprio cotidiano dos cineastas cariocas daquele tempo. O primeiro ponto a causar espanto em se tratando de uma obra cinema-novista foi que a imagem do popular desaparece completamente. Pouco consistente, o filme não agradou: a crítica acusou o cineasta de apelar para o “comercial” e o público achou que não correspondia ao mito narrado na famosa canção. No entanto, segundo o diretor, ele não tinha mesmo essa intenção, «pensei apenas em mostrar a vida que tinha uma garota daquele nível, uma vida enfadonha, sem perspectiva e sem liberdade». Isso frustrou as pessoas. Com o fracasso total do filme, a Saga Filmes fraquejou das pernas. No entanto, ele faria ainda dois grandes filmes: “São Bernardo” (1972), baseado na obra de Graciliano Ramos e um dos maiores filmes do cinema brasileiro; e seu trabalho mais célebre, “Eles Não Usam Black-Tie” (1981), premiado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza, onde alcança a plena maturidade e concretiza o idealizado projeto de um cinema nacional-popular. Leon Hirszman ficou também muito conhecido por sua intensa participação política. Trabalhou pela organização da categoria, pela regulamentação das leis do cinema e pelo fim da censura. Muito afetuoso, sua habilidade política e seu espírito conciliador eram reconhecidos pelos colegas de profissão. Segundo Nelson Pereira dos Santos, «por ele passava a solução política do cinema nacional».

 Antonio Nahud Júnior (do blogue "O Falcão Maltês")

terça-feira, março 01, 2011

FRONTIÈRE(S) (2007)

FRONTEIRA(S)


Um filme de XAVIER GENS


Com Karina Testa, Samuel Le Bihan, Estelle Lefébure, Aurélien Wiik, David Saracino, Chems Dahmani, Maud Forget, Amélie Daure, Jean-Pierre Jorris, Joël Lefrançois, Patrick Ligardes


FRANÇA - SUIÇA / 108 min / 16X9 (2.35:1)


Estreado em França a 1/7/2007
(Festival do Filme de Agde)
Estreado nos EUA a 9/5/2008
Inédito comercialmente em Portugal


Yasmine: «O meu nome é Yasmine. Um dia alguém disse: “Os homens nascem livres, com direitos iguais”. O mundo em que vivo é o oposto. Quem quererá nascer para crescer no caos e no ódio? 
Decidi poupar-lhe o pior»

Assim começa (mas em francês, na versão original) esta primeira obra de Xavier Gens, homenagem declarada e inequívoca ao grande pioneiro dos filmes de todos os horrores: “The Texas Chain Saw Massacre” (Tobe Hooper, 1974). É, diga-se desde já, uma homenagem muito bem conseguida porque feita com devota sinceridade, e que inclusivé vai muito mais além do filme original.

Em vez de entrar, rápida e deliberadamente, pela casa de torturas adentro, “Frontière(s)” inicia-se com um prólogo, localizado numas manifestações levadas a cabo em Paris, durante a campanha da eleição de um candidato de direita à Presidência de França. Um pequeno grupo de marginais muçulmanos – Alex, Tom, Farid, Yasmine e o seu irmão Sami – tentam escapar às investidas policiais. No entanto Sami é atingido gravemente e acompanhado pela irmã e por Alex ao hospital, onde acaba por falecer. Yasmine encontra-se grávida e tem intenções de abortar, apesar do último pedido de Sami para que conserve a criança.

A intenção do pequeno grupo - que tem em seu poder um saco com dinheiro roubado - é atingir a fronteira com a Holanda, rumo a Amsterdam, onde provavelmente Yasmine se irá ver livre da indesejada gravidez. Fazem-se à estrada em duas viaturas separadas, combinando encontrarem-se mais tarde num motel. E será aí, nesse palco obscuro e afastado da estrada principal, que a odisseia dos horrores irá ter lugar.

Tom e Farid são os primeiros a chegar ao albergue e, apesar do surpreendente bom acolhimento inicial (são presenteados com uma pequena orgia sexual pelas concièrges Gilberte e Klaudia) depressa se apercebem que acabaram de entrar num ninho nazi de sádicos canibais, liderados por um antigo oficial e criminoso de guerra SS. Alex e Yasmine chegam entretanto ao motel, já com o primeiro acto da carnificina em marcha.

A partir daqui sucede-se uma série de sequências violentas e macabras, de cuja descrição prudentemente me abstenho para não estragar a emoção da novidade de uma primeira visão do filme. Acrescento apenas que o estado de Yasmine a irá preservar temporariamente ao destino dos companheiros, porque o velho patriarca tem planos para aumentar a prole familiar. No entanto Yasmine não está disposta a ceder e inicia uma luta desesperada pela sobrevivência,

“Frontière(s)” é sem dúvida um dos filmes mais bem feitos no âmbito do ressurgimento do género de horror em França, e onde se faz sentir o dedo de Luc Besson, cujo nome se encontra associado à produção do filme. A direcção de actores é eficaz e sente-se que Xavier Gens respeita escrupulosamente os códigos do original, apesar deles se apropriar, como não podia deixar de ser. Ou seja, Gens consegue inovar mesmo navegando em águas por demais conhecidas de toda a gente. Uma referência à excelente fotografia que acompanha a evolução da história, desde os escuros da noite parisiense até ao clarear libertador e chuvoso da madrugada.

“Frontière(s)” não se irá livrar nunca do epíteto de versão francesa de “The Texas Chain Saw Massacre”. Mas como acima já referi, trata-se de uma homenagem sincera e feita com devoção por um fan confesso do original de Hooper. Existem outras referências ao longo do filme (a série “Hostel” ou mesmo alguns planos a fazerem lembrar o cinema de Carpenter), mas o que em última análise deverá ser retido deste filme alucinante é a incrível energia que o percorre do princípio ao fim, fruto de uma mise-en-scène nervosa e emergente. Ressalvando o brilhantismo de alguns dos actores – nomeadamente Karina Testa no papel de Yasmine e Jean-Pierre Jorris no do sádico patriarca - todos os créditos vão direitinhos para Xavier Gens, que aos 32 anos conseguiu dar um novo fôlego a um dos filmes que estará sem dúvida incluído nas suas maiores referências cinéfilas.