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quarta-feira, março 02, 2011

BSO - "GAROTA DE IPANEMA"

FILME-CANÇÃO
Uma das mais conhecidas canções da Bossa Nova, Garota de Ipanema" foi composta em 1962 por Vinícius de Moraes e Antônio Carlos Jobim, fazendo (e ainda faz) muito sucesso no exterior. Sua letra e a suavidade da melodia serviram de inspiração para o filme homônimo de 1967, dirigido por Leon Hirszman e tendo como roteirista Eduardo Coutinho, dois dos principais mentores do Cinema Novo, o movimento que lançou o cinema brasileiro mundialmente nos anos 60. O carioca Hirszman (1937-1987) vinha de "A Falecida" (1965), seu primeiro longa, baseado numa famosa peça teatral de Nelson Rodrigues e protagonizado pela diva Fernanda Montenegro (“Central do Brasil”).  É uma obra de impacto, bem acabada, principalmente quanto à construção do espaço dramático, reconhecida hoje como um dos nossos clássicos. Em 1966, em sociedade com Marcos Farias, o diretor adquiriu a Saga Filmes, produzindo “Garota de Ipanema”, que retrata a sociedade urbana do Rio de Janeiro, ao contrário da maioria dos filmes do Cinema Novo, que sempre investia em argumentos rurais.


Pouco visto e ainda hoje inédito em vídeo no Brasil, o filme conta com um elenco de atores talentosos e outrora conhecidos: Adriano Reis, Arduíno Colassanti e Irene Stefânia. Mas gira principalmente em torno de Márcia Rodrigues, uma bela atriz que fez carreira no teatro, televisão e cinema, sendo considerada uma das musas do Cinema Novo e do Cinema Marginal. Ela trabalhou com os mais expressivos cineastas brasileiros, incluindo no pacote o Nelson Pereira dos Santos de “El Justiceiro” (1967). No filme de Hirszman, ela é uma típica garota da Ipanema (bairro carioca de classe média alta) da época: vive na praia, vai a festas, freqüenta as rodas intelectuais, gosta de Bossa Nova, estuda na PUC, namora um campeão de surf e até tem um flerte com o cantor/compositor Chico Buarque de Hollanda, além de uma aventura com um fotógrafo casado, sempre amparada por um amigo, Zeca. Incerta quanto a seu futuro, angustiada em sua busca pela felicidade, representa uma maneira de ser da classe média. Vive só, em busca de solução para os seus problemas. Durante o carnaval, encontrará afinal uma resposta para as suas dúvidas, uma promessa de tempos mais autênticos e felizes, o reencontro consigo mesma.

Leon Hirszman
O que se percebe no filme é o desejo lúdico de lidar com todo o universo burguês que cerca o próprio cotidiano dos cineastas cariocas daquele tempo. O primeiro ponto a causar espanto em se tratando de uma obra cinema-novista foi que a imagem do popular desaparece completamente. Pouco consistente, o filme não agradou: a crítica acusou o cineasta de apelar para o “comercial” e o público achou que não correspondia ao mito narrado na famosa canção. No entanto, segundo o diretor, ele não tinha mesmo essa intenção, «pensei apenas em mostrar a vida que tinha uma garota daquele nível, uma vida enfadonha, sem perspectiva e sem liberdade». Isso frustrou as pessoas. Com o fracasso total do filme, a Saga Filmes fraquejou das pernas. No entanto, ele faria ainda dois grandes filmes: “São Bernardo” (1972), baseado na obra de Graciliano Ramos e um dos maiores filmes do cinema brasileiro; e seu trabalho mais célebre, “Eles Não Usam Black-Tie” (1981), premiado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza, onde alcança a plena maturidade e concretiza o idealizado projeto de um cinema nacional-popular. Leon Hirszman ficou também muito conhecido por sua intensa participação política. Trabalhou pela organização da categoria, pela regulamentação das leis do cinema e pelo fim da censura. Muito afetuoso, sua habilidade política e seu espírito conciliador eram reconhecidos pelos colegas de profissão. Segundo Nelson Pereira dos Santos, «por ele passava a solução política do cinema nacional».

 Antonio Nahud Júnior (do blogue "O Falcão Maltês")