quinta-feira, julho 02, 2015

FRANÇOIS TRUFFAUT - OS FILMES DA MINHA VIDA (1975)

Foram precisos 40 anos para que este célebre livro de Truffaut viesse a ser editado em Portugal. "Les Films De Ma Vie" reúne alguns dos muitos textos que o cineasta (falecido em 1984, com apenas 52 anos) escreveu ao longo da sua vida, nomeadamente enquanto crítico de cinema nos Cahiers du Cinéma. Esses textos exaltam, acima de tudo, a vida e o cinema, assim como os autores que estiveram sempre entre os dois, presos a um mundo que juntava a realidade e o seu reflexo, ou a vida projectada à escala maior dos nossos sentimentos e dos nossos segredos - a escala do ecrã.


COM QUE SONHAM OS CRÍTICOS?

Num dia de 1942, ardendo de impaciência por ver o filme de Marcel Carné Os Trovadores Malditos, que finalmente chegava ao meu bairro, no Cinéma Pigalle, decidi faltar às aulas. O filme agradou-me muito e, na mesma noite, a minha tia, que estudava violino no Conservatório, passou lá por casa para me levar ao cinema; já tinha a escolha feita: Os Trovadores Malditos e, como estava fora de questão confessar a minha gazeta da tarde, tive de revê-lo fingindo que estava a descobri-lo. Foi exactamente nesse dia que percebi o quão fascinante pode ser entrar pouco a pouco na intimidade de uma obra admirada, até ao ponto em que se consegue atingir a ilusão de reviver a sua criação.

Um ano depois, chegava Le Corbeau, de Clouzot, que me preencheu mais ainda; devo tê-lo visto umas cinco ou seis vezes entre a data da sua estreia (Maio de 1943) e a Libertação, que assistiu à sua proibição; mais tarde, quando foi novamente autorizado, tornei a vê-lo várias vezes por ano, até lhe conhecer o diálogo de cor, um diálogo muito adulto comparado com o dos outros filmes, com uma centena de palavras fortes cujo sentido ia adivinhando progressivamente. Como toda a intriga de Le Corbeau girava em torno de uma epidemia de cartas anónimas a denunciarem abortos, adultérios e diversas corrupções, o filme fornecia uma ilustração bastante parecida com aquilo que eu via à minha volta, nessa época de guerra e de pós-guerra, de colaboracionismo, de delação, de mercado negro, de desenrascanço e cinismo.

Os meus primeiros duzentos filmes foram vistos em estado de clandestinidade, ou por fazer gazeta à escola, ou por entrar na sala sem pagar (pela saída de emergência ou pelas janelas da casa de banho), ou ainda por aproveitar as saídas nocturnas dos meus pais, com a necessidade de me encontrar na cama no seu regresso a casa. Era, pois, com fortes dores de barriga que eu pagava este grande prazer, com a barriga num nó, a cabeça amedrontada, invadido por um sentimento de culpabilidade que só podia aumentar a emoção provocada pelo espectáculo.




Eu sentia uma grande necessidade de entrar nos filmes e conseguia-o aproximando-me cada vez mais do ecrã para me abstrair da sala; rejeitava os filmes de época, os filmes de guerra e os westerns porque tornavam a identificação mais difícil; por exclusão de partes, sobravam os filmes policiais e os de amor; ao contrário dos pequenos espectadores da minha idade, não me identificava com os heróis heróicos mas sim com as personagens deficientes e, de forma mais sistemática, com todas as que erravam. Compreender-se-á que a obra de Alfred Hitchcock, toda ela dedicada ao medo, me tenha seduzido desde o início, e depois a de Jean Renoir, voltada para a compreensão: «O que é terrível nesta terra é que toda a gente tem os seus motivos» (A Regra do Jogo, 1939). A porta estava aberta, eu estava pronto a receber as ideias e as imagens de Iean Vigo, Jean Cocteau, Sacha Guitry, Orson Welles, Marcel Pagnol, Lubitsch, Charlie Chaplin, evidentemente, todos aqueles que, sem serem imorais, «duvidam da moral dos outros» (Hiroxima, Meu Amor, 1959). 

copyright 1975, 2007, Éditions Flammarion / copyright 2015 (Maio), Orfeu Negro

CASABLANCA (1942)

CASABLANCA

Um filme de MICHAEL CURTIZ


Com Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains


EUA / 102 min / PB / 4X3 (1.37:1)


Estreia em New York a 26/11/1942
Estreia em Portugal a 17/5/1945

Ilsa Lund: "You're saying this only to make me go"
Rick Blaine: "I'm saying it because it's true. Inside of us, we both know you belong with Victor. You're part of his work, the thing that keeps him going. If that plane leaves the ground and you're not with him, you'll regret it. Maybe not today. Maybe not tomorrow, but soon and for the rest of your life"
Ilsa Lund: "But what about us?"
Rick Blaine: "We'll always have Paris. We didn't have, we, we lost it until you came to Casablanca. We got it back last night"
Ilsa Lund: "When I said I would never leave you"
Rick Blaine: "And you never will. But I've got a job to do, too. Where I'm going, you can't follow. What I've got to do, you can't be any part of. Ilsa, I'm no good at being noble, but it doesn't take much to see that the problems of three little people don't amount to a hill of beans in this crazy world. Someday you'll understand that. Now, now... Here's looking at you kid"

Há sempre outros que vêm à cabeça quando se fala no melhor filme de sempre. Há sempre outros maiores, mais grandiosos. Há sempre outros mais profundos. Há sempre outros mais belos. Mas, se procurarmos no fundo da alma colectiva, onde se mantém a doce memória do toque inefável de uma obra-prima, sabemos invariavelmente qual é "O Filme". Não há outro filme rodeado por semelhante aura e que demonstre a todo o momento ter vida própria e tamanha capacidade de sobrevivência: ultrapassou o culto a Humphrey Bogart; sobreviveu às ondas revivalistas; enxovalhou os que tiveram o desplante de o colorir; salta de geração em geração com a vitalidade de uma obra que, mais cedo ou mais tarde, acaba por ser o filme preferido de quase toda a gente (ou, pelo menos, aquele que de imediato nos salta para a ponta da língua).

Poucos são, ainda, os que não desejaram ver o filme uma e outra vez, ou os que não transbordam de nostalgia quando ouvem Dooley Wilson cantar «As Time Goes By». O interesse extraordinário e duradouro despertado por "Casablanca" resulta provavelmente da conjugação perfeita de vários elementos que associamos aos melhores filmes da Idade de Ouro de Hollywood: personagens intensos que participam naquilo que é essencialmente uma história de amor; um local exótico; actores secundários de primeira categoria; incidentes melodramáticos; um diálogo vivo, humorístico e cínico; interlúdios sentimentais; e a restauração do idealismo e da dedicação heróica a uma causa pelo personagem representado por Humphrey Bogart.
"Casablanca" começou a ser filmado a 25 de Maio de 1942 sem o guião estar terminado. Todo o filme foi feito nos estúdios da Warner em Burbank, com excepção duma curta sequência sobre a chegada do Major Strasser ao aeroporto de Casablanca. Esta cena foi filmada no velho Metropolitan Airport em Van Nuys. A 17 de Julho, quando a companhia filmava a cena de clímax do aeroporto no palco 1 do estúdio, Al Alleborn, director da unidade, escreveu no seu relatório: «Durante o dia, a companhia sofreu vários atrasos provocados pelas discussões entre Curtiz e Bogart. Tive que ir chamar Wallis e trazê-lo à cena para resolver a situação... Também houve inúmeros atrasos devido ao facto de os actores não conhecerem os diálogos, que correspondiam a uma cena escrita de novo na noite anterior».


Após 59 dias de filmagens (mais 11 do que inicialmente previsto), a rodagem foi concluída a 3 de Agosto, e Owen Marks terminou a montagem do filme pouco tempo depois. Max Steiner tinha sido incumbido de compor a música. Após ter visto o filme, Steiner não gostou da ideia de voltar a utilizar o tema "As Time Goes By", escrito por Herman Hupfeld e interpretado originalmente por Frances Williams numa revista da Broadway em 1931 chamada "Everybody's Welcome". A música não lhe agradava e por isso preferia compor uma melodia original que se adequasse à relação entre Rick e Ilsa. Mas tal alteração obrigaria a que algumas cenas tivessem de ser filmadas outra vez, por se referirem especificamente à canção. Mas Ingrid Bergman tinha já cortado o cabelo muito curto (para o papel de Maria em "From Whom The Bell Tolls" que entretanto lhe tinha sido atribuído) e por isso estava fora de questão filmar de novo. Steiner foi assim obrigado, contra a sua própria vontade, a utilizar o agora célebre tema.

"Casablanca" custou cerca de 950 mil dólares. Não foi um filme barato, mas não foi de forma alguma um filme extremamente caro para a época. O lançamento fora anunciado para Junho de 1943 mas no início de Novembro de 1942 os Aliados desembarcaram no Norte de África, em Casablanca. De imediato, os responsáveis da Warner em Nova Iorque procuraram saber de Jack L. Warner, que se encontrava nos estúdios, se o filme terminado poderia de alguma forma ser modificado de maneira a tirar partido daquele acontecimento tão auspicioso. A 11 de Novembro, Wallis enviou um memorando a Tenny Wright, responsável pela produção, relativamente a uma cena proposta para o epílogo, com a participação de Claude Rains e Humphrey Bogart, e cerca de 50 ou 60 extras. No dia seguinte teve uma resposta de Jack Warner: «É impossível mudar este filme e continuar a fazer sentido com a história que contámos originalmente. Fizemos uma ante-estreia ontem à noite e a reacção do público foi incrível. Desde que surgiu o título até ao fim houve aplausos e expectativa... Se o filme fosse mexido agora tornar-se-ia numa obra remendada». 

Depois de decidir não filmar o novo final, a Warner Brothers fez imediatamente planos para estrear o filme em Nova Iorque no dia de Acção de Graças, apenas 18 dias depois dos desembarques. A data de lançamento geral, 23 de Janeiro de 1943, coincidiu com as conferências realizadas entre o Presidente Roosevelt e o Primeiro-Ministro Churchill em Casablanca, o que ajudou ao êxito do filme, que viria a ser distinguido pela Academia com 3 Oscares: realização, argumento e melhor filme do ano. Humphrey Bogart (actor principal), Claude Rains (actor secundário), Arthur Edeson (fotografia), Owen Marks (montagem) e Max Steiner (banda sonora), ficar-se-iam pelas nomeações.

LOBBY CARDS:
VER VIDEO AQUI - "AS TIME GOES BY"
Edição especial em CD da banda sonora de "Casablanca":

OS MEUS 30 FILMES DA VIDA

Não, não são os melhores filmes que eu vi na minha vida, esses poderão fazer parte de uma outra lista, muito mais permeável ao tempo. São, isso sim, aqueles que, por variadíssimas razões (que não cabe aqui explanar, mas que, de um modo geral, estão relacionadas directamente com memórias pessoais), identifico como os que melhor conviveram comigo nas cindo décadas que levo já a ver cinema. Se não fossem eles, de certeza que eu seria uma pessoa diferente, tal como acontece, por exemplo na música, se Brel, os Beatles ou o Zeca Afonso nunca tivessem existido, ou na literatura, se nunca tivesse lido Nietzsche, Camus ou Bertrand Russell. Pensei de início numa lista de 20 títulos, mas confesso a minha incapacidade de deixar demasiados de fora. Por isso, e ainda assim com alguma dificuldade, acabei por me fixar nos que considero “Os Meus 30 Filmes da Vida”, aqueles que foram essenciais para moldar a minha personalidade. Dado o critério estritamente pessoal que presidiu à elaboração desta lista, ela é, nesta altura do campeonato, provavelmente definitiva, com muito pouca chance de vir a ser alterada. A ordem é puramente alfabética:


- 2001: A Space Odyssey (Stanley Kubrick, 1968)
- Ben-Hur (William Wyler, 1959)
- Born Free (James Hill e Tom McGowan, 1966)
- (The) Bridges of Madison County (Clint Eastwood, 1995)
- C’era Una Volta Il West (Sergio Leone, 1968)


- (Le) Charme Discret de la Bourgeoisie (Luis Buñuel, 1972)
- Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore, 1988)
- City Lights (Charles Chaplin, 1931)
- (A) Clockwork Orange (Stanley Kubrick, 1971)
- Cuando Tú No Estas (Mario Camus, 1966)


- Doctor Zhivago (David Lean, 1965)
- Friends (Lewis Gilbert, 1971)
- Gone With the Wind (Victor Fleming, 1939)
- (The) Graduate (Mike Nichols, 1967)
- (The) Great Escape (John Sturges, 1963)


- Grand Prix (John Frankenheimer, 1966)
- (A) Hard Day’s Night (Richard Lester, 1964)
- Harold And Maude (Hal Ashby, 1971)
- Love Story (Arthur Hiller, 1970)
- (The) Misfits (John Huston, 1961)


- One From the Heart (Francis Ford Coppola, 1982)
- Out of Africa (Sydney Pollack, 1985)
- Planet of the Apes (Franklin J. Schaffner, 1968)
- Rosemary’s Baby (Roman Polanski, 1968)
- Samson & Delilah (Cecil B. DeMille, 1949)


- Somewhere in Time (Jeannot Szwarc, 1980)
- Splendor in the Grass (Elia Kazan, 1961)
- Starman (John Carpenter, 1984)
- Summer Holiday (Peter Yates, 1963)
- West Side Story (Jerome Robbins e Robert Wise, 1961)

quinta-feira, dezembro 11, 2014

IT'S A WONDERFUL LIFE (1946)

DO CÉU CAÍU UMA ESTRELA
Um Filme de FRANK CAPRA


Com James Stewart, Donna Reed, Lionel Barrymore, Thomas Mitchell, Henry Travers, Beulah Bondi, Frank Faylen, Ward Bond, Gloria Grahame, H.B. Warner, Frank Albertson, etc.

EUA / 130 min / PB / 4X3 (1.37:1)

Estreia nos EUA a 20/12/1946
Estreia em PORTUGAL a 30/11/1947
(Lisboa, cinema Politeama)
Não existe filme mais apropriado para o Natal do que esta pequena maravilha de Frank Capra. Ao longo das décadas foi certamente  o filme mais programado pelas televisões de todo o mundo para a noite de consoada ou para o próprio dia de Natal. E é no mínimo estranho o facto de "It's a Wonderful Life" ter sido um autêntico flop comercial quando se estreou a 20 de Dezembro de 1946 - em plena época natalícia portanto - na cidade de Nova Iorque. Mas como diz o ditado, «ri melhor quem ri por último» e hoje, passados que são 68 anos (!), "It's a Wonderful Life" (por uma vez bem traduzido em português como "Do Céu Caíu Uma Estrela") aí está, com o mesmo brilho de sempre, a encantar sucessivas gerações de cinéfilos. Não serei portanto original, mas não posso deixar de o sugerir para (mais) esta quadra festiva. Se puderem, mandem vir a versão em blu-ray, que não está bloqueada (região 0), inclui legendas em brasileiro, o documentário "The Making of It's a Wonderful Life" e ainda a versão a cores do filme (esta obviamente perfeitamente dispensável). Deixo-vos com os votos de um Bom Natal e o comentário que o saudoso João Bénard da Costa fez sobre o filme em 1999.


Clarence: «You've been given a great gift, George: 
A chance to see what the world would be like without you»

Em "The Name Above the Title", Frank Capra conta com vagar a génese deste wonderful film. Capra regressava da guerra a Hollywood e tinha que se readaptar a uma capital do cinema que mudara muito (post-guerra quente e pré-guerra fria). Um dia, Charles Koerner entrou-lhe pela porta (porta do recém inaugurado Liberty Films, que Capra fundara com William Wyler e George Stevens para continuar a ter "The Name Above the Title") com meia dúzia de páginas dactilografadas em forma de cartão de Natal que continham o script que Dalton Trumbo extraíra do conto de Van Doren Stern "The Greatest Gift". Dou a palavra a Capra: «Era a história que toda a vida procurara. Uma cidadezinha. Um homem. Um homem bom, ambicioso. Mas tão preocupado em ajudar os outros, que deixava perder as oportunidades da vida. Um dia, perdeu a coragem. Desejava nunca ter nascido. E esse desejo era-lhe satisfeito. Meu Deus, que história! O género de história que fará dizer às pessoas quando eu fôr velho e estiver a morrer: foi ele quem fez "The Greatest Gift"». Capra comprou imediatamente os direitos mas encarregou o casal Hackett - Albert Hackett e Frances Goodrich - (que tinham feito a série do "Homem Invisível" e depois escreveriam musicais como "The Pirate", "Summer Holiday", "Easter Parade", "Give a Girl a Break", "Seven Brides for Seven Brothers" ou a série dos "Pais da Noiva") de reescrever a história. Para o protagonista escolheu imediatamente "o único actor que podia fazer aquele papel": Jimmy Stewart, como Capra, no seu primeiro filme post-guerra. E rodou "It's a Wonderful Life" em quatro meses (de Abril a Agosto de 46) "num orgasmo ininterrupto", Quando o concluiu estava firmemente convencido de ter feito «the greatest film I have ever made. Better yet I thought it was lhe greatest film anyboby ever made».

 Mas a América (e o mundo) tinham mudado muito. E se o filme ainda valeu a Capra a sua sétima (e última) designação para o Oscar (que perdeu a favor de outra produção da Liberty Films, "The Best Years of Our Lives" de Wyler), como designação valeu a James Stewart, o sucesso foi bastante relativo. Não faltou quem dissesse que o Capra-corn se estava a tornar cada vez mais corn e menos Capra e quem escrevesse que «a história era tão piegas, que roçava o infantilismo». Bosley Crowther no New York Times chamava-lhe «um repertório de banalidades melodramáticas». E nenhum anjo desceu do céu para o ajudar no meio dessa irónica indiferença. Capra ainda fez mais meia dúzia de bons filmes, mas o seu inconfundível touch chegou aqui ao final. Nunca mais houve um Capra assim. Mas o tempo, nas suas muitas voltas, veio dar razão ao cineasta. 53 anos depois," It's a Wonderful Life" é um cult-movie e o mais amado dos filmes de Capra. Danny Peary na sua obra sobre os cult-movies afirma mesmo acreditar que qualquer inquérito o incluiria entre os mais populares filmes americanos de sempre, ao lado do "Feiticeiro de Oz", de "E Tudo o Vento Levou", de "Casablanca", de "Música no Coração" ou de "A Guerra das Estrelas". 

Para mim, "It's a Wonderful Life" é paixão antiga desde que o vi no Politeama, tinha eu doze anos. E muitas vezes, ao longo da vida, me tenho lembrado da moral desta fábula (corn ou not corn) e a tenha contado a gente que repete, com James Stewart, que «era melhor não ter nascido». E nunca consegui deixar de chorar no tear-jerking finale, «admittedly one of the most sentimental endings of all time» (estou a citar Danny Peary). Mas se esse final, após a "ressurreição" de James Stewart, com "The Bells of Saint Mary" no cinema da terra (second feature), a dedicatória no Tom Sawyer, a música de Natal, os milhões de merry christmas, os milhares de dólares a cair no cesto e os milhares de amigos a entrar é, de facto, o mais tear-jerking e o mais natalício dos finais de um filme (que deve ser o que mais vezes foi programado pelas televisões para a noite de Natal) não penso, como a maioria dos críticos, que este filme seja o mais optimista dos filmes de Capra. Já em tempos comparei a estrutura das suas obras precedentes (sobretudo "Mr. Smith Goes to Washington") com a dos westerns clássicos. O cowboy que veio parar a uma cidade de "duros" , apanha   muita "porrada"  e no final vence o "mau" da fita, no último duelo.

Nesses filmes, esse herói, chamasse-se Gary Cooper ou James Stewart, vencia sózinho ou acompanhado por uma minoria de "bons", a princípio aterrorizada e depois, à medida que o "herói" crescia, mais desenvolta nos seus auxílios. Aqui, neste filme com que se encerra o ciclo do great old Capra, James Stewart vence também, mas precisa de uma ajuda de que até aí jamais precisara: a do anjo de 293 anos chamado Clarence Goodbody que, de resto, desceu à terra não apenas para o ajudar, mas para ganhar as asas que em todo esse tempo ainda não tinha conseguido alcançar. O personagem é prodigioso, Henry Travers é-o também, mas essa "descida à terra" não nos deve fazer esquecer que todo o filme é visto do ponto de vista do céu. Ao princípio estamos na terra («You are now in Bedford Palls») na mesma noite de Natal do fim, com a neve a cair e os sons do Natal. 

Ouvimos em off orações e a câmara vai até às estrelas, onde Clarence trata Deus por "Sir". Deus tem uma voz de patrão, firme e dura, manda-o sentar e dá-lhe uma hora para ele se vestir. E quando ele está "sentado" (a câmara sempre nas estrelas, sem personagens) convida-o para um "bom filme": a vida de George Bailey desde o dia, aos sete anos, em que salvou o irmão mais velho de morrer afogado, até à noite de Natal que é tempo de todo o filme. Ao princípio, não se vê nada (quem não tem asas, não vê dos outros planetas) até que a imagem foca "o começo do filme". E quando passamos da infância à idade adulta, de Bobby Anderson a James Stewart, Deus  diz a Clarence «Take a good look on him» e o plano imobiliza-se em paralítico com James Stewart de braços todos abertos, no arquétipo da imagem capriana, que também no cinema nunca mais voltou a ter (depois é o James Stewart de Mann, de Hitchcock, de Ford, tão genial como sempre, mas bem diferente como personagem). É como se Capra nos dissesse também que nunca mais ninguém o iria ver assim, como fora em "You Can't Take It With You" ou como fora em "Mr. Smith".

A história da vida de George Bailey é a história de coisas tão bonitas, como Gloria Grahame a fazer parar o trânsito, o graduation ball de 1928, com James Stewart a dançar o Charleston como Fonda dançava a valsa no "Young Mr. Lincoln"; aquele espantoso mergulho colectivo; Donna Reed "the prettiest girl in town"; o roupão caído, ela atrás dos arbustos e a morte do pai; os discursos de Stewart (sempre vagamente demagógicos); o "point me in the right direction"; o telefonema a três e o beijo a dois (a câmara sem se mexer, num dos mais prodigiosos planos que alguma vez alguém assinou); a "wedding night"; e o beijo de Ernie a Bert (essa sequência é inadjectivável); James Stewart, o charuto e o aperto de mão a Barrymore; a guerra em filigrana, e tanto mais. Mas é também, em surdina, o elogio do sacrifício e por breves apontamentos (um olhar de Stewart para o irmão ou para a mãe, o espantoso e patético personagem de Thomas Mitchell) a insinuação que basta um leve toque e podemos ver o negativo de tudo isso. E a noite da inexistência de Stewart é esse negativo. 

Os mesmos geniais secundários, fraternais e solidários, "mudam de filme" e quem vence são outros arquétipos deles, patentes nos casos de Beulah Bondi, Ward Bond, Frank Foylen. Aparentemente, esses eram os que não tinham razão para mudar. Se percebemos que o farmacêutico tivesse ido parar 20 anos à cadeia, não fosse George, se percebemos que o irmão tivesse morrido, não fosse George, se percebemos (já mais forçadamente) que Donna Reed tivesse ficado solteirona e de óculos, não fosse George, porque mudaram tanto todos os outros, porque são todos tão agrestes e rudes? E - o que é mais - porque mudou a cidade toda (mudou até de nome) convertida num vasto lupanar, entre strip-teases e luzes agressivas? E por que é que o único personagem que George não re-visita é Lionel Barrymore, o único que não podia ter mudado? Pode um homem só transformar tanto a vida de todos? Capra diz-nos que sim, mas diz-nos que sim, não no real, mas no "filme mostrado" por Deus a Clarence e, depois, na noite que resultou do "truque" do Anjo. De certo modo, "It's a wonderful life" (mas no cinema...), "it's an awful city", mas com batota.

É por isso que a explosão final é tão forte. Porque tudo o que até aí fora um pouco mágico (coisa de anjos e estrelas) e encarna naquela noite de Natal, em que a presença do Anjo é apena a de uma discreta campainha, sob a força do plano de George com os filhos ao colo e dos dólares que vêm de tudo e de todos. Para um tal hino à vida e ao amor (a palavra final da dedicatória de Clarence) foi preciso ir até às estrelas. Forçar um pouco a mão ao destino, para melhor tentar a liberdade. Não se trata de viajar no passado para descobrir a inelutabilidade dele, mas de não sair da mesma noite, para mostrar como o futuro a modifica. Aparentemente construído em flashback, este filme desfila como as imagens dele. A vida na terra, mesmo em Bedford Falls, é bem mais maravilhosa e mais comovente do que a vida dos anjos que a deixam (apesar das asas ganhas) com uma secreta nostalgia. No céu, não há Natais. Esse é o lote dos homens e é por isso que "it's a wonderful life". Por mais simpático que o anjo seja, não temos pena nenhuma de o ver desaparecer. O nosso amor é George Bailey - James Stewart, em paralítico ou na agitação frenética da imensa alegria final.
(João Bénard da Costa, 1999)


CURIOSIDADES:

- A primeira versão do filme terminava com a canção "Ode to Joy", que depois foi substituída por "Auld Lang Syne"

- James Stewart estava nervoso quando filmou a cena do beijo ao telefone, com Donna Reed. No entanto, o actor acabaria por fazer a cena num único take e de tal modo persuasivo, que a cena teve de ser encurtada para evitar problemas com os censores da época.

- Jean Athur foi a primeira escolha de Frank Capra para o papel de Mary. No entanto a actriz já se encontrava comprometida para uma peça na Broadway e teve de declinar o convite

- A piscina situada por baixo do ginásio existia na realidade (não foi trucagem), e pertencia ao Liceu de Beverly Hills, em Los Angeles

- Dalton Trumbo, Dorothy Parker e Clifford Odets colaboraram todos eles no argumento do filme, sem que os seus nomes alguma vez tenham sido citados.

- Em 2006, o American Film Institute votou "It's a Wonderful Life" como o filme mais inspirador de todos os tempos. No ano seguinte, o mesmo AFI classificou-o em 20º lugar na lista dos melhores filmes de sempre

- Apesar de centrado na época natalícia, o filme foi rodado em pleno Verão, debaixo de altas temperaturas

- Filme favorito de James Stewart e Frank Capra

- Frank Capra ganhou o Globo de Ouro pela realização e o filme teve 5 nomeações para os Óscares, nas categorias de Director, Filme, Actor Principal, Som e Montagem



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