sábado, dezembro 24, 2011
quinta-feira, dezembro 22, 2011
BIO-FILMO: FRANK CAPRA
Nascido a 18 de Maio de 1897, em Bisanquino, Itália
Falecido a 3 de Setembro de 1991, em La Quinta, Califórnia, EUA
«There is one word that aptly describes Hollywood - nervous»
Uma das mais discutidas personalidades do cinema americano, estabeleceu a sua reputação - sólida e popular - nos anos 30, ao identificar-se, melhor que nenhum outro, ao "new deal" rooseveltiano, e aos seus ideais democráticos e humanitários. Os seus filmes da época ilustram exemplarmente essa ideologia e valeram-lhe um grande sucesso e múltiplos prémios. Depois, as modas foram-lhe hostis, mas, nos últimos anos, e já depois de terminada a carreira, Capra conheceu de novo e graças aos filmes dessa época, os favores do público e da crítica jovens que procederam à sua reabilitação.
Nasceu a 18 de Maio de 1897, sexto dos sete filhos de Salvatore e Sara Nicolas Capra, camponeses sicilianos de Bisanquino, aldeia perto de Palermo, tendo emigrado para os Estados Unidos, juntamente com os pais e os três irmãos mais novos, apenas com 6 anos (só voltou à Itália em 1976, onde foi alvo de uma grande homenagem). Frank vende jornais nas ruas de Los Angeles mas, ao contrário dos irmãos, frequenta a escola, termina o liceu com distinção e matricula-se na faculdade, cujos estudos consegue financiar através de bolsas e em diversos trabalhos a tempo parcial. Em 1918 licencia-se em engenharia química pelo Troop Polytechnic Institute e em 1921 ingressa no cinema, onde foi assistente de realização. De 1922 a 1924 trabalha na montagem e escreve os argumentos para Mack Sennett, especializando-se como gag-man. Em 1925 inicia a sua colaboração com Harry Langdon, sendo, ao que parece, o criador do personagem mais popular desse actor. Rompeu com Langdon e realizou o primeiro filme sózinho, que foi um fracasso. Em 1927 divorcia-se da actriz Helen Howell que conhecera durante a rodagem de "Greed", de Stroheim, e com quem estivera casado 4 anos. A partir de 1928 começa a definir-se o seu estilo, que lhe vai valendo crescente popularidade. A glória começa com "Lady For a Day" [1933], passa por "It Happened One Night" [1934], um dos filmes de Hollywood mais premiados de todos os tempos e prolonga-se até 1941.
Por esta altura, Capra conquistara uma importante posição no interior do sistema dos estúdios, desenvolvera estreitas relações de trabalho e granjeava a reputação de conseguir manter uma boa atmosfera de trabalho durante as rodagens, bem como uma excelente relação com os seus actores. Para além disso conseguira o privilégio de exercer o controle pessoal sobre o argumento, o casting e a montagem dos seus filmes. O respeito pelo seu nome no interior da comunidade cinematográfica acentua-se, sendo-lhe atribuídas um total de 28 nomeações pelo conjunto da sua obra (seis dessas nomeações saíriam vencedoras, incluindo as de melhor realização por "Mr. Deeds Goes To Town" [1936] e "You Can't Take It With You" [1938]. Capra assume igualmente um papel de relevo na definição da política dos estúdios.
Durante a guerra trabalha nos Serviços Cinematográficos (série "Why We Fight") e em Setembro de 1943 comanda uma equipa especial que fotografa a frente de guerra. Nesse mesmo ano, Winston Churchill concede-lhe a Ordem do Império Britânico e em 1945 o General Marshall distingue-o com uma medalha pelos serviços prestados. Regressa a Hollywood no Verão desse ano para fundar, com William Wyler e George Stevens, a Liberty Films que se viria a fundir com a Paramount em 1947. Os seus filmes do post-guerra não são bem recebidos (o belissimo "It's a Wonderful Life" [1946] só muito mais tarde seria considerado um dos melhores e mais populares filmes do cineasta) e Capra permanece fora do cinema durante quase toda a década de 50, trabalhando então para a televisão. Apesar de nunca ter tornado públicas as suas convicções políticas, descobre em 1952 que fora rotulado como simpatizante do partido comunista.
As suas últimas obras datam do fim dos anos 50, em colaboração com Frank Sinatra e Glenn Ford. Sempre mal acolhidas, Capra decide terminar a sua carreira em 1961, com um remake de "Lady For a Day". Entre 1969 e 1970, Frank Capra dedica-se a escrever a sua autobiografia: "The Name Above the Title". Dela se depreende como estes anos foram difíceis para o orgulhoso e, em tempos, poderoso cineasta. A publicação do livro lança Capra numa carreira de conferencista, fazendo-o encontrar no público estudante americano uma nova audiência. Finalmente, em 1977, a América prestou-lhe uma grande homenagem na passagem do seu octogésimo aniversário. Recebe um título honorário pela Universidade de Wesleyan em 1981 e o décimo American Film Institute's Life Achievement Award em Março de 1982. Quatro anos depois do desaparecimento da sua segunda mulher, Lucille Reyburn, com quem casara em Brooklyn em 1932 e de quem tivera quatro filhos, vem a falecer no dia 3 de Setembro de 1991, devido a um ataque de coração durante o sono. Tinha 94 anos.
FILMOGRAFIA:
1961 - Pocketful of Miracles / Milagre por um Dia (+ produção)
1959 - A Hole In the Head / Tristezas Não Pagam Dívidas (+ produção)
1951 - Here Comes the Groom / A Sorte Bate à Porta (+ produção)
1950 - Riding High / Desejo (+ produção)
1948 - State of the Union / Um Filho do Povo (+ produção)
1946 - It's a Wonderful Life / Do Céu Caíu uma Estrela
(+ argumento + produção)
1944 - Arsenic and Old Lace / O Mundo é um Manicómio
1941 - Meet John Doe / Um João Ninguém (+ produção)
1939 - Mr. Smith Goes to Washington / Peço a Palavra
1938 - You Can't Take It with You / Não o Levarás Contigo
1937 - Lost Horizon / Horizonte Perdido
1936 - Mr. Deeds Goes to Town / Doido com Juízo
1934 - Broadway Bill / Derradeira Vitória
1934 - It Happened One Night / Uma Noite Aconteceu
1933 - Lady For a Day / Milionária por um Dia
1933 - The Bitter Tea of General Yen / A Grande Muralha (+ produção)
1932 - American Madness / Loucura Americana (+ produção)
1932 - Forbidden / O Seu Grande Amor (+ produção)
1931 - Platinum Blonde / Loira Platinada (+ produção)
1931 - The Miracle Woman
1931 - Dirigible / O Dirigível (+ produção)
1930 - Rain or Shine (+ produção)
1930 - Ladies of Leisure
1929 - Flight (+ produção)
1929 - The Donovan Affair
1929 - The Younger Generation / A Geração Moderna
1928 - Submarine / O Mergulhador
1928 - The Power of the Press
1928 - Say It with Sables / O Preço do Amor
1928 - The Way of the Strong
1928 - The Matinee Idol (+ produção)
1928 - So This Is Love?
1928 - That Certain Thing (+ produção)
1927 - For the Love of Mike / Os Três Pais
1927 - Long Pants / Calças Compridas
1926 - The Strong Man / Atleta à Força
quarta-feira, dezembro 21, 2011
terça-feira, dezembro 20, 2011
HUMAN DESIRE (1954)
DESEJO HUMANO
Um filme de FRITZ LANG
Com Glenn Ford, Gloria Grahame, Broderick Crawford, Edgar Buchanan, Kathleen Case, Peggy Maley, Diane DeLaire, Grandon Rhodes, etc.
EUA / 91 min / PB /
16X9 (1.85:1)
Estreia nos EUA a 5/8/1954
Estreia em PORTUGAL a 22/6/1955
Henri Langlois (antigo director da Cinemateca Francesa), escreveu um dia a propósito dos dois maiores cineastas alemães: «O que há de notável na obra de Murnau é a sua mobilidade. O que há de notável na obra de Fritz Lang é a sua estabilidade.» Por outras palavras, o que Langlois quis certamente salientar foi a sólida implantação arquitectónica duma inabalável estrutura nos filmes de Lang. Estrutura moral (neste homem cuja obra tem o rigor dum tratado de ética), estrutura metafísica (impossível não identificar os seus filmes com as grandes questões a que normalmente se aplica esta etiqueta), estrutura estética assente numa construção rigorosa em que o olhar dos Deuses (ou do destino) se confunde com o da câmara, abarcando todas as aventuras numa só aventura: a que inelutavelmente mantém o homem preso da fatalidade que sobre si se abate. Fatalidade que, para Lang, é o outro nome da deusa de olhos vendados, a Justiça, escrevendo direito por linhas mais que tortas.
O cinema de Lang, neste seu último período (e "Human Desire" é um dos exemplos mais evidentes), tende a ser uma justaposição de imagens, presididas geralmente pela obsessão da simetria, filmadas com aparente impassibilidade por uma câmara quase sempre imóvel, cujas poucas deslocações obedecem apenas à mais limitada funcionalidade. Uma planificação concebida com um sentido rigoroso da síntese reduz estas obras ao que André Bazin chamou «o vazio barométrico da encenação.» Esta sobriedade e concisão convertem o Lang da velhice num dos casos mais exemplares e incompreendidos de um cineasta que levava o estilo próprio às sua últimas e mais arriscadas consequências.
Um filme de FRITZ LANG
Com Glenn Ford, Gloria Grahame, Broderick Crawford, Edgar Buchanan, Kathleen Case, Peggy Maley, Diane DeLaire, Grandon Rhodes, etc.
EUA / 91 min / PB /
16X9 (1.85:1)
Estreia nos EUA a 5/8/1954
Estreia em PORTUGAL a 22/6/1955
"She was born to be bad...to be kissed...to make trouble". Assim rezava a publicidade deste filme de Fritz Lang, remake americana de "La Bête Humaine" [Jean Renoir, 1938], e com argumento baseado no romance homónimo de Emile Zola. Tenho lido que o filme de Renoir é superior (o próprio Lang assim o pensava) mas não concordo com essa premissa. Este "Human Desire" (título não muito do agrado de Lang, que o achava redundante) é um dos melhores exemplos de film-noir que tenho memória e Gloria Grahame - num papel que esteve para ser entregue a Rita Hayworth - nunca esteve tão perversamente bela e sedutora. «Parece que foi criada para o filme negro, a não ser que seja o contrário», disse dela Tavernier, que cita um crítico americano que escreveu: «quando ela olha, olha realmente; quando está apaixonada, acreditamo-la; e quando está em apuros, em apuros ficamos também.» De facto, três características dos papeis representados por Gloria, bem em evidência neste filme.
"Scarlet Street" [1945] já falava de velhos senis a quem a frustração levava a cometer assassínios, quer na pessoa da mulher desejada perante a qual não se sentem à altura, quer na do rival que outrora a possuiu. Aqui é um marido ciumento, Carl Buckley (Broderick Crawford), que abre as feridas do passado ao insistir com a mulher para interceder por ele junto ao patrão, afim de que possa recuperar o emprego perdido. A recusa inicial de Vicky (Gloria Grahame) prende-se com o facto de em muito nova ter sido amante daquele, situação de que só com muita dificuldade se conseguiu libertar. Ansiosa por uma nova oportunidade de vida, Vicky acaba por ceder à insistência e ir ter com o velho amante. Regressa com a promessa da readmissão do marido, mas este, desconfiado, acaba por ver confirmadas as suspeitas de que a mulher se deitou com o patrão para conseguir o pretendido.
Menos por ciúme ou desejo de vingança do que para fazer de Vicky cúmplice e ligá-la de novo a ele, Carl obriga-a a escrever um bilhete para um novo encontro, na sequência do qual assassina o superior numa carruagem de comboio. Depois do crime, e mais uma vez induzida pelo marido (que agora tem em seu poder a carta incriminatória para a poder chantagear), Vicky seduz Jeff Warren (Glenn Ford), maquinista que por acaso viaja no mesmo comboio, de modo a afastá-lo das imediações do compartimento onde o crime foi cometido. Disposta a tudo para se libertar da chantagem de que passa a ser vitima, Vicky torna-se amante de Warren com o objectivo de o levar a eliminar o marido. Só que no último instante Warren arrepia caminho e é Vicky que no fim vem a sofrer as consequências.
Henri Langlois (antigo director da Cinemateca Francesa), escreveu um dia a propósito dos dois maiores cineastas alemães: «O que há de notável na obra de Murnau é a sua mobilidade. O que há de notável na obra de Fritz Lang é a sua estabilidade.» Por outras palavras, o que Langlois quis certamente salientar foi a sólida implantação arquitectónica duma inabalável estrutura nos filmes de Lang. Estrutura moral (neste homem cuja obra tem o rigor dum tratado de ética), estrutura metafísica (impossível não identificar os seus filmes com as grandes questões a que normalmente se aplica esta etiqueta), estrutura estética assente numa construção rigorosa em que o olhar dos Deuses (ou do destino) se confunde com o da câmara, abarcando todas as aventuras numa só aventura: a que inelutavelmente mantém o homem preso da fatalidade que sobre si se abate. Fatalidade que, para Lang, é o outro nome da deusa de olhos vendados, a Justiça, escrevendo direito por linhas mais que tortas.
"Human Desire" começa por nos mostrar o andamento da locomotiva conduzida por Warren e Alec Simmons (Edgar Buchanan), colegas de profissão. Da cabine de comando a câmara desce para os carris, e quando se encontra entre duas vias, com um comboio a passar à direita e outro à esquerda, os flancos lisos que desfilam são só superfícies imóveis e vibrantes que estão de repente ali e desaparecem de repente. Nunca no filme os comboios são vistos no seu movimento horizontal, nunca é comunicada a sensação de deslocação ou de viagem. É como se os dois ferroviários constituissem os órgãos vitais da locomotiva que conduzem. António Nahud Júnior, ao comentar este filme no seu blogue, "O Falcão Maltês", refere também este aspecto muito particular de "Human Desire": «...personagens decaídos que se despedaçam entre si em um universo asfixiante de apartamentos simplórios e estações de trem, de linhas ferroviárias com traçados retilíneos e restritivos, que são como uma espécie de imagem de seus próprios destinos.»
O cinema de Lang, neste seu último período (e "Human Desire" é um dos exemplos mais evidentes), tende a ser uma justaposição de imagens, presididas geralmente pela obsessão da simetria, filmadas com aparente impassibilidade por uma câmara quase sempre imóvel, cujas poucas deslocações obedecem apenas à mais limitada funcionalidade. Uma planificação concebida com um sentido rigoroso da síntese reduz estas obras ao que André Bazin chamou «o vazio barométrico da encenação.» Esta sobriedade e concisão convertem o Lang da velhice num dos casos mais exemplares e incompreendidos de um cineasta que levava o estilo próprio às sua últimas e mais arriscadas consequências.
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