quarta-feira, setembro 18, 2013

DA CENSURA EM PORTUGAL


Cerca de 3500 filmes foram proibidos durante a ditadura, desde a criação da Inspecção dos Espectáculos, em 1928, até ao 25 Abril de 1974. Proibidos integralmente, já que muitos dos que chegavam às salas de exibição eram quase sempre alvo de cortes, mais ou menos extensos (lembram-se do "Cinema Paradiso"?). Tais proibições eram decretadas por razões politicas. E também por razões "morais". Quer num caso como no outro, sempre "a bem da Nação". Muitos outros não chegaram a ser proibidos porque os distribuidores nem sequer os apresentavam a "exame”, uma vez que sabiam de antemão que eles não passariam. Nem com os cortes habituais. Qualquer filme russo (entre 1936 e 1970), qualquer filme dum pais do leste (entre 1947 e 1970), qualquer filme indiano (entre 1953 e 1973) estava impedido de ser exibido, fosse ele qual fosse. Com pequenas excepções, todos os filmes de Eisenstein, de Vertov, de Buñuel, de Pasolini, muitos filmes neo-realistas italianos e da "nova vaga" francesa, vários filmes de Chaplin, de Renoir, de Bergman, entre outras, não "passaram na censura" e só puderam ser vistos nas salas portuguesas depois do 25 de Abril. A minha geração, e outras antes dela, sentiu o sufoco que era vermos assim sonegado um dos direitos mais básicos do ser humano, o ter a possibilidade de pensar por si próprio. Como muitos outros tive de saír de Portugal para poder ver tudo aquilo que nos era negado dentro de portas. Por isso, foi a queda da censura, logo após o 25 de Abril, o presente com o qual mais rejubilámos. Estavamos certissimos, porque quatro décadas depois, o exercício da liberdade de pensamento foi das raras conquistas que se mantiveram em Portugal.


Este pequeno livro, da autoria do crítico-cineasta Lauro António, foi publicado pela primeira vez em Julho de 1978, e é uma obra que procura testemunhar as relações que se estabeleceram entre a censura e o cinema visto – e o não visto – em Portugal, durante os 48 anos dominados por Salazar e Caetano. Ao descobrir as razões por que muitos filmes eram proibidos, compreende-se a gravidade e o absurdo de toda e qualquer forma de censura, e a imperiosa urgência de Liberdade.  E convém aqui recordar, como também Lauro António o faz no seu livro, «que o longo calvário dos filmes não terminava no dia em que saíam da sala de projecções do Palácio Foz com a autorização estampada. Muitas vezes, após legendados, eram outra vez vistos e revistos, de novo desfalcados em mais algumas fatias. Por vezes conseguiam estrear-se e só tempos depois incorriam nas iras frequentes de uma qualquer senhora bem instalada na hierarquia social que protestava o seu mau humor junto de quem de direito, intercedendo de forma a impor novos cortes, ou mesmo a completa proibição.» Referem-se de seguida alguns dos filmes mais conhecidos ou paradigmáticos, afim de que as novas gerações descubram esses anacronismos do passado, que, muito provavelmente, nunca lhes teria passado pela cabeça poderem ter existido um dia.

 The Spy Smasher / O Alvo Humano
(William Witney, EUA 1942)
«Trata-se de um filme de aventuras em que, durante 25 partes, se põem frente a frente, os costumados “Bom” e “Mau”. Mas ao contrário do que é normal em filmes deste género, em que os maus são indivíduos sem qualificações especiais, neste filme os maus são os nazis e os partidos do governo de Vichy. O problema é demasiado sério para servir de pretexto a um filme de aventuras e já está ultrapassado em termos de não se considerar útil manter posições demarcadas que a política dos últimos anos tem feito e vem fazendo cada vez mais esquecer. Parece-me por isso de proibir.» (comunicado de 16/11/1954)

A Terra Treme / La Terra Trema: El Episodio Del mare
(Luchino Visconti, Itália, 1948)
«Paira neste filme uma atmosfera de revolta contra a sociedade constituída. O ambiente em que decorre a acção, que se situa numa aldeia de pescadores no Sul de Itália onde a miséria, quase a desolação, rodeia os habitantes; as situações que o argumento contém, engendradas, sente-se que propositadamente, para gerar no espectador o descontentamento e o odioso; a índole dos personagens, calculadamente escolhidos para servir os propósitos do realizador, tudo isto pontuado, no decorrer do filme e como se a sua aparição fosse fortuita, com os símbolos comunistas estampados nas paredes, diz bem das intenções com que o filme foi feito. A figura principal é a de um jovem pescador que procura libertar-se da servidão e da prepotência a que um grupo de delegados duma empresa instalada na terra obriga os que mourejam na pesca, impondo na lota os preços que melhor lhes convêm. É vencido na luta e humilhado: mas, espera só até que venha o dia em que “a terra há-de tremer”. Pelo que se acaba de expor e porque o filme constitui um espectáculo inconveniente e altamente perigoso, propõe-se a sua proibição» (o censor: Félix Ribeiro)


 Les Mauvaises Rencontres / Maus Encontros
(Alexandre Astruc, França 1955)
«Proibido porque roda à volta de um crime de aborto, e é de franca imoralidade»

 Le Avventure di Giacomo Casanova / As Aventuras de Casanova 
(Steno, Itália 1955)
«Voto a reprovação deste filme. Nele se contam várias das mais significativas aventuras sexuais de Casanova. Desde as mulheres casadas, que se entregam sem qualquer espécie de resistência, até à noiva de um outro, na própria noite de núpcias – temos toda uma teoria da aventura erótica, cuja apresentação excitará certamente os instintos das plateias, tantas as sugestões, pelas imagens e pelas palavras que o filme contém.» (o censor: Caetano de Carvalho)

 La Fille Aux Yeux D’Or / A Rapariga dos Olhos de Ouro
(Jean-Gabriel Albicocco, França – Itália, 1961)
«Filme estranho, com um desfecho de aberração sentimental, pelo que pode propor-se a sua reprovação.» (o censor: Mafalda Vaz Pinto)

Eye of the Devil / O Olho do Diabo
(J. Lee Thompson, GB 1966)
«Trata-se de um filme que foca um aspecto de demonismo, em práticas religiosas, que não pode deixar de ter repercussões sobre o público, especialmente na província.»

Lolita / Lolita
(Stanley Kubrick, GB-EUA, 1962)
«Baseado num livro que foi proibido no nosso país, este filme (de elevadissima craveira artística e técnica) expõe com realista fealdade a história sórdida de uma excessiva paixão de um homem adulto por uma adolescente. A baixeza do argumento leva-nos a votar pela reprovação.»

Die Bitteren Tränen Der Petra Von Kant / 
As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant
(Rainer Werner Fassbinder, RFA 1972)
«Filme de grande intensidade dramática que respira desde a primeira à última imagem um clima de sensualidade e erotismo como raramente temos visto. A problemática do amor focada na sua normalidade (casamento) e na sua anormalidade (homossexualidade feminina), tratada em termos de tal forma degradantes que não admitem sequer a hipótese de aprovação.»

Shaft in Africa / Shaft em África
(John Guillermin, EUA 1973)
«Reprovamos o filme. A forma como o tema é tratado, pondo em evidência a falência da civilização ocidental, a exploração dos negros, a inutilidade da lei, não consente na importação.»

The Pied Piper / A Flauta Mágica
(Jacques Demy, GB-EUA 1972)
«Trata-se a nosso ver de um filme intencionalmente contra a igreja. Não vemos que o público em geral seja capaz de se situar no contexto da Idade Média. Por outro lado, cremos que o mesmo público se deixará influenciar pela acção do filme que é de facto um libelo contra a igreja. Trata-se de um filme, de facto, bem feito que poderia vir a fazer muito mal. Aprovaríamos se o filme trouxesse algo que ajudasse o público a interpretar e a julgar os factos aludidos. Reprovamos.» (o censor: Padre Teodoro)


Alfie / Alfie
(Lewis Gilbert, GB 1966)
«Inclinamo-nos para a não importação do filme, uma vez que a figura central é um conquistador totalmente amoral, só vivendo para as conquistas sucessivas de todas as mulheres que encontra, sem qualquer espécie de escrúpulos. Não é que sob o aspecto erótico tenha cenas a eliminar em quantidade; tem sim sequências de prazer que teriam de ser cortadas. O que nos faz, porém, não nos pronunciarmos abertamente pela reprovação é a circunstância do filme ser efectivamente combativo, pois tende apenas para a condenação da figura central, apresentando-a sob o aspecto odioso de comportamento moral.»


The Plague of Zombies / A Praga dos Zombies
(John Gilling, GB 1966)
«Pronuncio-me contra a importação do filme pois, além de ser um filme de terror com uma acumulação já doentia de imagens e situações, é também um filme de magia negra, com detalhes de execução de envoulements. Acima de tudo julgo prejudicial a exibição na província por ser mais acessível a credulidade em causa de bruxaria.»

Victim / A Vítima
(Basil Dearden, GB 1961)
«Considero indecoroso admitir sequer a possibilidade de aprovar esta miséria desta fita cujo argumento consiste em proteger a homossexualidade. Isto lembra-me que um deputado no parlamento de Inglaterra propôs que se legalizasse o matrimónio de homossexuais entre si. Esta peça é conduzida no sentido de humanizar a lei, de maneira que ela reconheça que ser homossexual não é mais do que um desequilíbrio emocional, quer dizer, nem sequer é moralmente condenável! Protesto contra a pouca vergonha do produtor que tem a desculpa de ser inglês com o vício nacional. Mas protesto ainda mais contra a imprudência e desvergonha do importador. A propaganda da pretendida lei é manifesta.» (o censor: Cortez Pinto, 2/1/1962)

Moderato Cantabile / Recusa ou Uma Certa Mulher
(Peter Brook, GB 1960)
«Pela imoralidade gratuita e absurda do comportamento dos dois personagens principais, pela exploração, igualmente absurda e sem justificação do rebaixamento moral do protagonista e pelo tom geral do filme, de um péssimo niilista. Não autorizamos a sua importação.»


Il Bell' Antonio / O Belo António
(Mauro Bolognini, Itália 1960)
«Porque se trata de um filme cujo tema foca um caso de impotência de natureza psicofísica, de difícil compreensão e aceitação para o nosso público, votamos pela reprovação.»


Le Déjeuner Sur L'Herbe / Um Piquenique no Campo
(Jean Renoir, França 1959)
«O tema da fita é a inseminação artificial entre os homens. Julgo o assunto absolutamente inconveniente para ser tratado em espectáculos públicos, e por isso reprovo.»


Deux Ou Trois Choses Que Je Sais d'Elle / 
Duas Ou Três Coisas Sobre Ela
(Jean-Luc Godard, França 1967)
«Trata-se de um filme dirigido contra a sociedade de consumo, antiamericano e com graves implicações de ordem social, moral e política. Pronunciamo-nos, por isso, pela sua reprovação.»


Pretty Maids All In A Row / Querido Professor
(Roger Vadim, EUA 1971)
«Trata-se de um filme inteiramente negativo em que o sexo e o erotismo e a degradação das alunas de um liceu andam de mãos dadas. A figura sinistra de "Tigre" e o papel a que se presta a professora sexy, com o aluno Ponce, completam o quadro da degradação que domina todo o filme. Reprovamos.» (o censor: Alberto Machado)


L'Amica / O Caminho do Pecado
(Alberto Lattuada, Itália 1969)
«A imoralidade do comportamento no filme, todo ele sexo da primeira à última imagem, apesar de já ter sido apresentado com cortes, levou-nos a proibir.»


Zabriskie Point / Deserto de Almas
(Michelangelo Antonioni, EUA 1970)
«O tema do filme - a revolta da juventude numa América do Norte que atingiu um nível industrial que não responde aos seus anseios - leva-nos a considerá-lo inconveniente no momento actual. Reprovamos o filme: a revolta da juventude nas primeiras partes e a destruição da civilização na última, são os motivos determinantes. Já não se fala nas cenas pornográficas da 8ª parte facilmente elimináveis.» (o censor: Pedroso de Almeida)

segunda-feira, setembro 16, 2013

LA PAURA (NON CREDO PIÙ ALL'AMORE) (1954)


O MEDO
Um filme de ROBERTO ROSSELLINI


Com Ingrid Bergman, Mathias Wieman, Renate Mannhardt, Kurt Kreuger, etc

ITÁLIA-RFA / 82 min / PB / 
4X3 (1.37:1)

Estreia na RFA a 5/11/1954
Estreia em ITÁLIA a 18/2/1955




“Non Credo Più all'Amore”, também chamado “La Paura”, adaptando um romance de Stefan Zweig, "Angst", foi o quarto filme da tetralogia Ingrid Bergman, depois de “Stromboli”, “Europa 51” e “Viagem em Itália”, sendo igualmente o último filme rodado pela actriz sob a direcção de Rossellini, antes do seu divórcio, em 1957. Deve dizer-se que, para lá destas longas-metragens de cinema, Ingrid Bergman ainda apareceu em duas outras obras do marido, um episódio do colectivo “Siamo Donne”, precisamente chamado “Ingrid Bergman” (1952), e o teledramático “Giovanna d’Arco Al Rogo” (1954).


“O Medo” inspira-se evidentemente no género de “filme negro” norte-americano, criando um clima e impondo personagens e situações nitidamente suscitadas por este tipo de películas que teve em França e nos EUA os principais cultores. Até alguns aspectos técnico-artísticos, como a fotografia a preto e branco, da responsabilidade de Carlo Carlini e Heinz Schnackertz, ou a partitura musical, assinada por Renzo Rossellini, se mostram devedores do “film noire”. Neste caso, não se pode dizer que o cineasta se tenha mantido muito fiel ao seu princípio de recusar todo o tipo de efeitos e de dramatização. A música sublinha dramaticamente muitas sequências, e a própria ambiência fotográfica contribui para um clima de inquietação e suspense, aliás numa tradição igualmente muito hitchcoqueana.


Irene Wagner (Ingrid Bergman) é mulher de um cientista, Albert Wagner (Mathias Wieman), que esteve doente durante algum tempo, e depois enclausurado num campo de concentração (durante o III Reich, por ser judeu?; depois do fim da guerra, numa acção de desnazização?). Durante este tempo de ausência do marido, Irene tomou conta dos negócios do casal e orientou sabiamente a sua fábrica de produtos farmacêuticos, mas deixa-se igualmente levar para uma situação de adultério, mantendo um caso com Erich Baumann (Kurt Kreuger). Quando o marido regressa, Irene procura terminar a relação, mas por essa altura surge Johann Schultze (Renate Mannhardt), uma ex-amante de Erich, que inicia uma acção de chantagem, pedindo dinheiro para calar o caso e não o denunciar ao marido. Irene vai cedendo, até que as economias começam a rarear, mas angustia-se particularmente, sobretudo, a partir da altura em que Johann lhe rouba um anel de grande significado. O medo vai-se intensificando, Irene parece descontrolada, mas as revelações estão para vir e o volte-face final obedece a todos os requisitos deste tipo de obras.


No romance de Stefan Zweig (publicado em 1910), a acção passa-se em Viena de Áustria, o adultério de Irene surge mais por divertimento e jogo do que por falta de amor ao seu marido. Aparece então uma mulher a exercer chantagem, quando Irene sai de casa do amante, um jovem músico de certo sucesso. Percebe-se finalmente que a chantagista não é mais do que uma actriz, contratada pelo marido de Irene, para levar esta a confessar a culpa e poder depois perdoar-lhe. A contextualização do filme na Alemanha do pós-guerra tem o seu intuito óbvio. De resto, o clima em que todo o drama se desenrola é tenso e violento, de um ponto de vista psicológico. Rossellini consegue criar uma ambiência de medo larvar, sempre na iminência de que algo aconteça de irremediável.


Mais uma vez, derradeiras cenas apontam para uma tragédia, a que a mão do destino (ou do milagre, sempre tão presente em Rossellini) obsta. A realização é brilhante, na sua eficácia narrativa, na sua simplicidade. O filme foi rodado muito rapidamente, em cerca de 30 dias, e marca uma preocupação invulgar no cinema deste autor, uma incursão pelos terrenos da interioridade, explorando sentimentos e emoções. Toda a interpretação é excelente, com particular destaque para Ingrid Bergman, num papel que parece ter sido pensado para si. O que, dadas as circunstâncias, terá mesmo sido. (Lauro António)

terça-feira, janeiro 01, 2013

A ÚLTIMA VIAGEM DE 2012

Alguns dos passageiros que embarcaram em 2012
no comboio da saudade:

20 de Janeiro
ETTA JAMES (Cantora, 73 anos)

3 de Fevereiro
BEN GAZZARA (Actor, 81 anos)

11 de Fevereiro
WHITNEY HOUSTON (Cantora, 48 anos)

18 de Abril
DICK CLARK (Entertainer, 82 anos)

19 de Abril
LEVON HELM (Músico e compositor, 71 anos)

17 de Maio
DONNA SUMMER (Cantora, 63 anos)

20 de Maio
ROBIN GIBB (Músico e compositor, 62 anos)

5 de Junho
RAY BRADBURY (Argumentista, 91 anos)

26 de Junho 
NORA EPHRON (Argumentista e realizadora, 71 anos)

8 de Julho
ERNEST BORGNINE (Actor, 95 anos)

13 de Julho
RICHARD D. ZANUCK (Produtor, 77 anos)

15 de Julho
CELESTE HOLM (Actriz, 95 anos)

16 de Julho
JON LORD (Músico e compositor, 71 anos)

18 de Agosto
SCOTT McKENZIE (Músico, 73 anos)

1 de Setembro
HAL DAVID (Músico e compositor, 91 anos)

5 de Setembro 
JOE SOUTH (Músico e compositor, 72 anos)

25 de Setembro
ANDY WILLIAMS (Cantor, 84 anos)

27 de Setembro
HERBERT LOM (Actor, 95 anos)

18 de Outubro
SYLVIA KRISTEL (Actriz, 60 anos)

25 de Outubro
 
GUNNEL BROSTROM (Actor, 89 anos)

23 de Novembro
LARRY HAGMAN (Actor, 81 anos)

11 de Dezembro
RAVI SHANKAR (Músico, compositor, 92 anos)

24 de Dezembro
CHARLES DURNING (Actor, 89 anos)

28 de Dezembro
JON FINCH (Actor, 70 anos)

29 de Dezembro
PAULO ROCHA (Realizador, 77 anos)