sexta-feira, outubro 21, 2011

GONE WITH THE WIND (1939)

E TUDO O VENTO LEVOU
Um Filme de VICTOR FLEMING


Com Clark Gable, Vivien Leigh, Leslie Howard, Olivia de Havilland, Thomas Mitchell, Hattie McDaniel, Barbara O'Neil, Evelyn Keyes, Ann Rutherford, Butterfly McQueen, Everett Brown, Alicia Rhett, Carroll Nye, Harry Davenport, etc.

EUA / 238 min / COR / 4X3 (1.37:1)

Estreia nos EUA a 15/12/1939 (Atlanta)
Estreia em PORTUGAL a 20/9/1943
(Lisboa, cinema S.Luiz)



Scarlett O’Hara: « Rhett, if you go, where shall I go? What shall I do?»
Rhett Butler: «Frankly, my dear, I don’t give a damn»

Começo por citar o crítico francês Robert Chazal que, a propósito de “Gone With The Wind” afirmou: «É preciso um espectáculo como este para compreender o verdadeiro cinema, o que mexe, que “mostra”, que suscita sentimentos, primitivos talvez, mas violentos». Épico, monumental, glorioso, fascinante..., todos os mais elogiosos dos adjectivos são bem vindos aqui. Não falta quem lhe chame o maior filme de todos os tempos. Se o não é, trata-se, pelo menos, de um dos mais notáveis exemplos da arte de contar histórias, mantendo os espectadores presos ao écran durante quase 4 horas. "Gone With The Wind" é, definitivamente, um dos mais importantes alicerces daquilo que Hollywood significa (ou significou) para todo o planeta. Se então nos concentrarmos apenas no período áureo dos grandes estúdios, não existe outro filme que melhor o represente.

1939 é o ano de início da 2ª Guerra Mundial e nos Estados Unidos (que só entrariam no cenário bélico dois anos depois) a actividade cinematográfica está no seu auge. Nesse fim de década, todas as expectativas se viram para aquela que seria a maior produção jamais feita e o filme mais caro da história do cinema até essa data. Tendo por fundo uma intriga romanesca, “Gone With The Wind” mostra todo um capítulo da história dos Estados Unidos – a Guerra da Sessessão – com a mesma mestria com que David W. Griffith tinha filmado o seu “The Birth of a Nation”. O meio e a atmosfera são notavelmente reconstituídos e a interpretação de todos os actores é elevada a um grau superior de excelência, chegando a confundi-los com as respectivas personagens.


Pela primeira vez, em Hollywood, era utilizada a cor num grande filme (premiada com um Óscar) e o resultado foi extremamente feliz, a ponto de se poder considerar “Gone With The Wind” o ponto de viragem nesse particular aspecto. Para além das demais expectativas, a cor constituía um chamariz adicional para levar o público a correr às salas onde o filme era exibido. Mas a guerra rebentou precisamente quando a exploração internacional começava a dar os primeiros passos e, assim, a maioria dos écrans europeus tiveram de esperar por 1945 para oferecer o filme aos seus espectadores, a maior parte das vezes em versão reduzida, dada a longa duração do mesmo. Em Portugal, o filme foi estreado a 20 de Setembro de 1943, devido à neutralidade imposta por Salazar, mas os franceses, por exemplo, só o descobriram em Maio de 1950.


Em 1967 a M-G-M fez uma versão comemorativa em 70 mm e som estereofónico, e foi nesse formato que o vi pela primeira vez, a 25 de Março de 1969. Tinha 15 anos nessa altura e fui com os meus pais uma noite ao cinema His Majestyz, em Johannesburg, cidade onde nos encontravamos a passar férias. Muito contrariado, diga-se em abono na verdade, apenas para aceder à insistência da minha mãe, que queria mostrar ao filho o filme da vida dela. Apesar de muita coisa me ter escapado (obviamente os filmes não eram legendados em português na África do Sul e nessa altura o inglês tinha para mim o mesmo significado que hoje em dia tem o chinês) lembro-me de ter ficado fascinado com toda aquela sumptuosidade. Logo que tive oportunidade voltei a vê-lo (já devidamente legendado, em território nacional) e confirmei todo o impacto que a primeira visão tinha exercido sobre mim.


Tendo custado cerca de quatro milhões e quinhentos mil dólares (uma exorbitância para a época), “Gone With The Wind” não parou nunca de gerar grandes receitas ao longo dos anos. É fácil compreender o sucesso do filme na altura da sua estreia (em que pulverizou todos os recordes) em Atlanta, na Georgia, a 15 de Dezembro de 1939 (numa cerimónia que durou três dias e teve o mayor da cidade como anfitrião, o qual decretou feriado estatal no dia da exibição do filme) – uma geração e uma sociedade iam ser “levados pelo vento” e o filme, de título premonitório, arrastava as multidões, indo permanecer como o símbolo do termo de uma época e do começo de outra. Mais difícil é perceber a sua longevidade, o ter atravessado incólume 7 décadas (em 2007 o American Film Institute classificou-o no 4º lugar de uma lista dos melhores filmes de sempre, liderada por “Citizen Kane” - uma lista altamente discutível, diga-se de passagem), sempre a despertar paixões em sucessivas gerações de cinéfilos.


Mas talvez não seja assim tão difícil. “Gone With The Wind” é um filme nostálgico em si mesmo, bem enquadrado em duas partes distintas – o antes e o depois da guerra. Como diz uma das personagens, o Sul foi derrotado numa só noite e com ele desapareceu todo um modo de vida, em que a despreocupação, a segurança e a certeza no amanhã eram o pão nosso de cada dia. Um pouco como acontece na grande maioria das vidas do cidadão comum, em que existem sempre charneiras a separar o antes de e o depois de. E por norma as pessoas tendem a esquecer-se do pior do passado e cristalizam apenas os bons momentos na memória.


Mas “Gone With The Wind” foi também um filme impessoal, arquitectado muito mais por um conjunto de meios faustosos do que por um pensamento criador. O elo mais importante foi sem dúvida o produtor David O. Selznick (1902-1965) que, pressentindo o sucesso, comprou a peso de ouro (50,000 dólares) os direitos do best-seller de Margaret Mitchell (único livro publicado pela escritora, tendo vendido mais de 1,5 milhões de cópias aquando da estreia do filme), contratou um exército de argumentistas (entre os quais Scott Fitzgerald), e se encarregou pessoalmente da montagem e da promoção do filme. Além disso, partiu na busca desenfreada de uma Scarlett ideal, acabando por confiar o papel a uma actriz inglesa, a praticamente estreante Vivien Leigh, depois de muitas centenas de audições.



A escolha de Clark Gable para o papel masculino principal foi quase uma certeza desde o princípio, embora outros actores também tenham sido considerados, nomeadamente Errol Flynn, Gary Cooper e Ronald Colman. Gable estava sob contrato da Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) e Selznick teve de negociar o empréstimo do actor com o seu sogro e responsavel pela MGM, Louis B. Mayer. Embora o motor da história seja o casal principal, os actores secundários ajudam, e muito, a colorir o retracto social que é “Gone With The Wind: Leslie Howard e Olivia de Havilland têm excelentes interpretações e as suas personagens facilmente ganham a simpatia do espectador. No entanto, é Hattie McDaniel que, com uma magnífica interpretação, cria uma personagem  memorável. A sua Mammy é a prova da multiplicidade social do filme e tornou-se num marco para a comunidade negra, já que a actriz foi a primeira a ganhar um Óscar.



As filmagens principais começaram em 26 de Janeiro de 1939 e terminaram 5 meses depois, em 27 de Junho. Embora “Gone With Wind” seja muitas vezes referido como uma produção Selznick, o filme é, talvez, o melhor exemplo de como o cinema é um processo colectivo, já que teve vários realizadores. George Cukor foi o primeiro a trabalhar no filme, mas foi substituído após três semanas de filmagens porque Clark Gable não estava satisfeito com o seu trabalho. Cukor foi substituido por Victor Fleming, que realizou 45% do filme e é creditado como realizador na ficha técnica (Cukor continuou a trabalhar no filme como “tutor” de Leigh e de Havilland). A meio das filmagens Fleming teve um esgotamento e foi substituido, durante duas semanas, por Sam Wood. Outros realizadores foram chamados a trabalhar no filme, incluindo diversos realizadores de 2ª unidade, que, entre outras, filmaram a grande cena do incêndio de Atlanta.


Por mais vezes que se veja o filme, subsiste a ânsia de chegar à derradeira cena, em que Scarlett O'Hara finalmente cai em si e decide aceitar incondicionalmente o amor de Rhett Butler. Este, já desinteressado, desgastado por tantas esperas, avanços e recuos, persiste na intenção de a abandonar. E quando ela lhe pergunta o que fará sem ele, responde que se está nas tintas: «Frankly, my dear, I don't give a damn». Esta simples frase (considerada pelo American Film Institute como a citação mais célebre da história do cinema) e a respectiva cena, é no filme apenas a cereja no topo do bolo. Um bolo enorme, bem recheado, que cada vez que o provamos nos deixa uma quantidade enorme de sabores na boca. Não resisto aqui a relembrar alguns desses sabores:

A cena na sala da residência dos Wilkes, onde acidentalmente Scarlett revela a Rhett Butler o segredo da sua paixão por Ashley – o baile de beneficiência em que a recém-enviuvada Scarlett é licitada por Rhett para uma dança (nunca um vestido negro brilhou tanto num salão) – aquela famosa sequência de Atlanta, em que um hábil movimento de grua mostra a imensidão da rua principal apinhada de feridos, com a bandeira sulista em primeiro plano – o incêndio, a saída de Atlanta e o primeiro beijo roubado por Rhett a Scarlett (não fosse o diabo tecê-las e vir a morrer em combate sem ter concretizado aquele desejo) – a chegada a casa, a uma Tara pilhada, e a descoberta da morte da mãe (atente-se na mestria com que é mostrada a entrada de Scarlett no quarto: o leito da morta em primeiro plano e o surgimento progressivo da silhueta de Scarlett, acompanhado por lúgrubes sombras na parede) – o final do I acto, onde já só existem as raízes do campo para comer e em que Scarlett faz a jura de nunca mais passar fome na vida, nem que para isso tenha de roubar ou matar.

No II acto os momentos inesquecíveis não deixam de marcar presença também: as tentativas de sedução de Scarlett em relação a Rhett, agora na prisão (que despreza a sua oferta sexual) e a Frank Kennedy (Carroll Nye), o noivo da irmã (com o qual se virá a casar para assim iniciar o rápido enriquecimento) – a noite de vigília passada na leitura de “David Copperfield” (única sequência em que os quatro protagonistas principais do filme aparecem juntos) – aquela elipse deliciosa em que, imediatamente após Rhett levar Scarlett ao colo pelas escadas acima em direção ao quarto, a vemos espreguiçar-se languidamente na manhã seguinte, com o rosto banhado por pura felicidade – o corolário da cena final do abandono, onde Scarlett remete para o dia seguinte resolver aquele problema. Enfim, limitei-me a enumerar apenas alguns dos mais célebres momentos deste filme intemporal; mas muitos outros existem que fazem com que as 4 horas de duração (retiradas de um total de 100 horas filmadas) passem num abrir e fechar de olhos.

O filme teve 9 Oscars da Academia: Filme, Realização, Actriz Principal (Vivien Leigh), Actores Secundários (Thomas Mitchell e Hattie McDaniel), Argumento-Adaptado, Fotografia (Cor), Direção Artística e Montagem; e ainda mais 3 nomeações: Actor Principal (Clark Gable), Actriz Secundária (Olivia De Havilland) e Partitura Musical (Max Steiner). Em 1989, o filme foi seleccionado pela Biblioteca do Congresso Norte-Americano como património nacional a preservar e, em 2004, foi completamente restaurado a partir dos três negativos em Technicolor existentes. Utilizando tecnologia digital, a nova cópia é de uma qualidade única, aconselhando-se o seu visionamento no formato Blu-ray.


CURIOSIDADES:

- No argumento final foi abolida a referência ao Ku Klux Klan, organização contactada - no seguimento da agressão a Scarlett pela parte de dois negros – para levar a cabo uma acção de retaliação.

- Os bilhetes para a estreia do filme em Atlanta custaram 40 vezes mais do que o preço habitual.

- Uma das poucas cenas dirigidas por George Cukor que sobreviveram na montagem final é a do nascimento do filho de Melanie em Atlanta. Outra é a da repreensão dada a Scarlett por parte de Mammy, em virtude dela se recusar a comer.

- 1400 actrizes (entre as quais celebridades como Jean Arthur, Lucille Ball, Bette Davis, Claudette Colbert, Joan Crawford, Katharine Hepburn, Carole Lombard, Norma Shearer ou Barbara Stanwyck) foram entrevistadas para o papel de Scarlett O’Hara. Mas apenas duas, Vivien Leigh e Paulette Godard fizeram testes a cores.

- Para a filmagem da sequência do incêndio de Atlanta (a primeira a ser filmada) foram queimados cenários de alguns filmes antigos, como “The Garden of Allah” e “King Kong”.

- Na sequência em é mostrada a rua principal de Atlanta apinhada de soldados feridos ou agonizantes, foram usados cerca de 800 figurantes, misturados com equivalente número de bonecos.



- Na cena em que Rhett Butler dá a beber uma bebida a Mammy para comemorar o nascimento da filha, o actor substituiu o usual chá por whisky verdadeiro sem lhe dizer nada.

- Vivien Leigh trabalhou 125 dias, tendo ganho o cachet de 25,000 dólares. Clark Gable recebeu 120,000 por um período de 71 dias.

- Na cena em que Scarlett cai pelas escadas abaixo, a frase dita por Rhett, imediatamente antes, consta no livro como «talvez faças um aborto». Selznick fez questão em que a mesma fosse alterada para «talvez tenhas um acidente».

- Se o valor das receitas que o filme teve ao longo dos anos fosse ajustado à inflação (única maneira de se fazerem essas contas de um modo justo e equitativo), “Gone With The Wind” teria um total de lucros de cerca de 1 bilião e 610 milhões de dólares, o que o coloca no 1º lugar na lista dos filmes que mais renderam em toda a história do cinema. “Star Wars” ocupa o 2º lugar, com 1 bilião e 420 milhões e “The Sound of Music” o 3º om 1 bilião e 135 milhões.

  
RHETT BUTLER  por  CLARK GABLE

A minha reacção ao saber que interpretaria Rhett Butler foi franca e simples: "o condenado comeu uma refeição abundante". Não quero que me entendam mal. Enquanto actor, adorei. Era um papel espantoso. Material do género "uma vez na vida". Mas, enquanto Clark Gable, um homem que gosta de escolher os seus papéis, e que se viu arrastado por uma série de circunstâncias sobre as quais não tinha qualquer controlo, estava morto de medo. Não pretendo desculpar-me. Devo reconhecer que as filmagens foram uma das experiências mais perfeitamente agradáveis e satisfatórias da minha vida. Durante as filmagens senti-me no meu elemento. Quando dei por mim rodeado de cenários, à frente de uma câmara, em roupa de época, a interpretar cenas dramaticamente realistas, foi então que pela primeira vez compreendi a personagem de Rhett. Os longos meses durante os quais o tinha estudado, tentando conhecê-lo tão bem quanto a mim próprio, fizeram-me acreditar que eu era Rhett. Finalmente tinha algo prático a fazer, algo a que me aplicar como actor. Eram as coisas que eu não podia fazer que me preocupavam mais.


Para tentar explicar-me, deixem-me regressar ao início. Eu nunca pedi para interpretar Rhett. Fui dos últimos a ler o livro. Sei, porque por curiosidade lhe perguntei, que não fui a inspiração de Margaret Mitchell para criar Rhett. Quando ela estava a escrever o seu livro, Hollywood ainda não tinha ouvido falar de mim, e tenho a certeza que a senhora Mitchell nunca teve interesse no trabalhador dos campos petrolíferos do Oklahoma desconhecido que eu era nessa altura. As primeiras vezes que ouvi o nome Rhett Butler, foi com crescente irritação. Ninguém gosta de parecer parvo. Era irritante ter conhecidos a perguntar entusiasmados, «Com certeza, leu “E Tudo o Vento Levou”?», e reagirem com surpresa e desapontamento quando eu respondia que não. Chegou uma altura em todos os que não tinham lido o livro eram considerados analfabetos, se não mesmo uma paródia social. Em Hollywood qualquer coisa fora do normal é logo "colossal". Habituamo-nos. Todas as semanas aparece um novo "livro mais importante de sempre", que se vai transformar no “maior filme de sempre”. E na semana seguinte, já ninguém se lembra dele. Foi isso que me impressionou com "E Tudo o Vento Levou" ... o vento continuava a soprar.

Como disse anteriormente, todos os minutos, dos cinco meses que passei na produção, foram aprazíveis. Foram os vinte e quatro meses de conversas que lhes antecederam que foram exasperantes. Foi só quando Spencer Tracy começou a saudar-me com, "Hi, Rhett!", que resolvi ler o livro. Antes disso, tinha resistido mesmo quando os meus melhores amigos me diziam, «Parece feito à tua medida.» Já tinha ouvido aquela conversa antes. Para que seja dita a verdade, a meio do livro me juntara ao resto da América, tornando·me um fã da obra da senhora Mitchell. Era um bom livro, bom demais. E Rhett era tudo o que uma personagem deveria ser e tão raramente é: claro, conciso e muito real. Ele respirava nas páginas do Iivro. Era um estudo de personagem impecável. Resistia a qualquer análise sem que se lhe conseguisse encontrar uma fraqueza. O que representa­va um problema.

Apercebi-me de que o actor que interpretaria Rhett teria uma grande dificuldade neste sentido. A senhora Mitchell tinha esculpido a ideia de Rhett nas mentes de milhões de americanos, cada um dos quais conhecia exactamente o aspecto e o temperamento de Rhett. Seria impossível satisfazê-los a todos. Qualquer actor deveria sentir·se afortunado se conseguisse satisfazer pelo menos a maioria. Não estou a dizer que não queria interpretar Rhett. Eu queria. Nenhum actor poderia resistir a um desafio daquele calibre. Mas o crescente aumento de popularidade da personagcm fez-me crer no célebre ditado, "A discrição é a melhor parte da coragem." Ler o livro, permitiu que eu me apercebesse do que estaria exactamente à minha espera se viesse a interpretar a personagem. Decidi permanecer calado.


De qualquer maneira, estava a ficar claro que a situação não dependeria de mim. O interesse do público em ver-me na pele de Rhett surpreendeu-me. Muito ames de qualquer intérprete ser escolhido, recebi pedidos para entre­vistas. Quando me recusei a comentar, os jornalistas fizeram-no por mim. A minha correspondência duplicou e depois triplicou. Vi-me em ilustrações no papel de Rhett, com patilhas. Não gosto de patilhas, elas fazem comichão. Parece que eu era o único a não dar por certo que seria eu a interpretar o papel. Foi uma sensação curiosa. Hoje percebo como se sente uma mosca presa numa teia de aranha. Isso não quer dizer que não me sentia lisonjeado pelo que o público me estava a fazer. Simplesmeme Rhett era algo demasiado grande. Não queria ter nada a ver com ele.


Para ter a certeza que não me tinha deixado enganar pela minha primeira impressão, voltei a ler o livro. Fiquei ainda mais convencido de que Rhett era demais para qualquer actor de mente sã. Mas não conseguia escapar-lhe. Considerei todas as fugas possíveis. A certa altura, até pensei escrever à senhora Mitchell. Achei que seria fantástico se me limitasse a dar a con­hecer uma declaração que dissesse: «Acredito que Clark Gable seria a pior opção possível para a personagem de Rhett Butler». Talvez quando à senhora Mitchell vir o meu Rhett, ou melhor o que eu fiz ao seu Rhett, con­cordará comigo. Talvez estejam interessados em saber que a minha escolha para a personagem teria sido Ronald Colman. Continuo a pensar que ele teria sido um óptimo Rhett.


As minhas pesquisas revelaram que a senhora Mitchell (o que foi extremamente inteligente da parte dela) não queria saber o que Hollywood pretendia fazer com o seu livro. Tudo o que ela queria era paz e tranquilidade. Ela escreveu um livro porque era o que gostava de fazer, e quando este suscitou reacções sem precedentes, a sua inocente autora só pediu para ser deixada em paz. Quando soube tudo isto, senti imedi­atamente uma enorme empatia por ela, embora até à data não tivesse tido o prazer de a conhecer pessoal­mente. Tenho a certeza de que nos entenderíamos, afinal Rhett causou alguma perturbação na vida de ambos.


Nos meses que se seguiram, o casting do filme tornou-se num debate de proporções idênticas às eleições nacionais, e em cada esquina se podiam ouvir acesos debates sobre o assunto. Rhett tornou-se numa preocupação cada vez maior. Continuava a ser o único que não tinha qualquer coisa para dizer a propósito dele. Nunca tive. Quando chegou a altura para começar a trabalhar, ainda estava cheio de dúvidas. Soube o que me esperava no dia em que David O. Selznick me telefonou. A sua compra dos direitos cine­matográficos do livro por 50,000 dólares estava na raíz de todas estas chatices. Tivemos uma conversa amigável. Eu a tentar esquivar-me, ele à procura do knockout. A ideia de David era fazer um contrato individual, caso o meu estúdio me autorizasse a participar no filme. Eu achava que o meu contrato era a minha escapatória. Especificava que só poderia fornecer os meus serviços à Metro-Goldwyn-Mayer. Comuniquei-o a David, acrescentando que, por mim, não estava interessado em interpretar Rhett.


Mas David não se deixou deter por esse pormenor. Sendo um amigo de longa data, e conhecendo-o bem, eu sabia que ele não ia desistir. Ele argumentou que era uma proposta sem precedentes para um actor. Nunca houvera um papel tão visível como o de Rhett. Mas essa era exactamente a razão pela qual o tinha recusado. Ele põs as cartas na mesa. Tentaria tudo o possível para convencer a M-G-M a emprestar-me para o filme. Concordámos deixar que eles decidissem com um aperto de mãos. Eu podia ter resistido mais. Não o fiz, e ainda bem. Estou feliz por não o ter feito. Hollywood sempre me tratou bem, nunca tive razão de queixa dos meus papéis e se o estúdio pensava que eu deveria interpre­tar Rhett, não era eu que devia tentar esquivar-me. Não tive nada a ver com as negociações. Soube que iria interpretar Rhett através dos jornais. E como parte do acordo, seria a Metro-Goldwyn-Mayer a distribuir o filme.


A escolha de Vivien Leigh para interpretar Scarlett foi uma agradável surpresa. A sua Scarlett foi tão energética e autêntica, que para mim foi muito mais fácil do que esperava entrar na pele de Rhett. Outra agradável surpresa foi a escolha de Victor Fleming para realizar o filme; ele já me tinha dirigido em "Test Pilot", e tinha confiança absoluta nele. Uma coisa que me recordo claramente é que em todos os meses de preparação para o filme nunca houve nenhuma divergência de opinião. Nenhum indivíduo, além da senhora Mitchell, merece maior reconhecimento dos outros. Foi um trabalho de equipa.

Havia uma só maneira de filmar "E Tudo o Vento Levou", ou seja, como a senhora Mitchell o tinha escrito. Havia um único problema, de difícil solução. Viven Leigh e eu falamos nele centenas de vezes, e chegámos à conclusão que Scarlett e Rhett, embora fossem personagens fortes, bem definidas e individualistas, dependeriam um do outro para se comple­mentarem. Nesse sentido, quero deixar aqui o mais sincero agradecimento a Vivien Leigh. Ela foi Scarlett a cada momento, e tenho uma grande dívida para com ela pela sua contribuição para o meu papel.

"E Tudo o Vento Levou" foi diferente de qualquer outro filme em que tenha participado. No passado, aqueles actores que diziam "viver" os seus papéis faziam-me sorrir, mas tenho que admitir que todos nós, e falo por todos os que de alguma maneira estiveram ligados ao filme, tivemos a clara sensação de estar a vivê-lo. A senhora Mitchell descreveu um período que é tipicamente americano, que é real, que nos inspira. Quando os electricistas, os assistentes mecânicos, os maquilhadores e os carpinteiros, que não se emocionam com os filmes que fazem, resolvem ficar no plateau para os ensaios das cenas e irrompem em aplausos espontâneos ao assistirem à interpretação de algumas das principais cenas dramáticas por parte de Vivien Leigh, percebemos que se trata de algo muito especial. São eles os críticos mais rigorosos do mundo.
  

SCARLETT O’HARA  por  VIVIEN LEIGH

Passou um ano desde a noite em que assistimos às primeiras filmagens de "E Tudo o Vento Levou". Foi um espectáculo grandioso - quarteirões inteiros consumidos pelas chamas enquanto Atlanta ardia - e eu fiquei algo confusa pela magnitude de tudo aquilo e pelo que parecia uma confusão terrível. Foi naquela noite que conheci David O. Selznick, o homem responsável pela produção de "E Tudo o Vento Levou", que ainda não tinha escolhido uma Scarlett O'Hara para o seu filme. Olhando para trás, parece-me que a qualidade fantásti­ca daquele incêndio, a confusão que senti e a sensação de estar sózinha no meio de centenas de pessoas era uma premonição do que estava para vir. Na época, naturalmente, não podia saber o que o futuro me reserva­va, e se alguém se tivesse arriscado a prevê-lo, provavelmente lhe teria respondido que não fazia sentido.

Mas o inesperado aconteceu e transformou-me, pelo menos durante alguns meses, quer eu o quisesse ou não, na personagem conhecida como Scarlett O'Hara. Hoje a dificuldade é olhar a personagem objectivamente. Que seria um papel inesquecível para qualquer actriz era óbvio, mas com toda a honestidade posso dizer que reagi ao pedido do senhor Selzníck para eu fazer uma prova para o papel como teria reagido a uma bríncadeira. Havia dezenas de jovens a fazer o mesmo, e eu não considerava seriamente a possibilidade de poder ser mesmo eu a interpretar o papel. Mas quando a decisão foi tomada, descobri que interpretar Scarlett não seria brincadeira nenhuma. A partir daquele momento, fui arrastada pelos acontecimentos, quase como se de uma poderosa onda se tratasse: fui Scarlett, só Scarlett e sempre Scarlett, noite e dia, durante meses a fio.

Puseram-me logo duas questões, que sempre estiveram presentes. Primeiro, todos queriam saber se o papel me intimidava. Em segundo lugar, perguntaram o que pensava eu da Scarlett afinal? Talvez se tivesse lutado, desejado e perdido sono a pensar se ficava com o papel, teria tido medo. Mas da maneira como as coisas correram, não tive tempo para me deixar levar pela preocupação. O factor tempo, e o apoio compreensivo do senhor Selznick, eliminaram o medo antes deste se instalar. Quanto à Scarlett, as minhas opiniões sobre essa jovem teimosa estão tão interligadas com a experiência que tive ao interpretá-la, que tenho alguma dificul­dade, nesta altura, em tentar analisar os meus sentimentos no que a ela toca. Vivi a Scarlett durante quase seis meses, do amanhecer até à noite profunda.

Tentei que cada gesto, cada movimento fossem fiéis ao que Scarlett era, e tive de sentir que até as coisas mesquin­ has dela eram da minha responsabilidade. Desde o momento em que comecei a ler "E Tudo o Vento Levou" há três anos, fiquei fascinada pela Scarlett, como muitos outros. Achei que ela precisava de umas boas palmadas, à moda antiga, em algumas ocasiões e teria ficado feliz em administrá-las pessoal­mente. Convencida, mimada, arrogante - todas estes traços são claramente parte do seu carácter. Mas ela também tem muita coragem e determinação, e acredito que é por isso que muitas mulheres têm uma admiração secreta por ela, mesmo que não possamos sentir orgulho dos seus muitos defeitos.

Embora fizesse todos os esforços para transpor para a realidade as características da obra de Margaret Mitchell, haveria sempre momentos em que a depressão se instalava. As filmagens exigiram tamanho esforço, todos os detalhes preparados minuciosamente, dias inteiros passados na recriação exacta de uma situação, que era natural que às vezes sentisse que o meu desempenho não correspondia às exigências do senhor Selznick, que o realizador Victor Fleming se esforçava tanto para respeitar. Mas o senhor Selznick parecia pressentir a chegada desses momentos, e então estava sempre presente para me dar o seu encorajamento, pelo que lhe estou infinitamente agradecida. O senhor Fleming, embora ocupado com a necessidade de coordenar mil e um detalhes ao mesmo tempo, parecia dispor de uma reserva inesgotável de paciência e boa disposição. Acho que todos sentimos que ali, mais do que nunca, éramos chamados para darmos a nossa especial contribuição ao esforço geral, mergulhando cada um na sua tarefa especiaI.

Houve meses em que ia para o estúdio directamente de casa às 6.30 da manhã, tomava o meu pequeno almoço enquanto estava a ser maquilhada e penteada, e apresentava-me no set às 8.45 para a primeira cena. Sair do estúdio pelas 9 ou 10 da noite era a regra e não a excepção. Evidentemente não aprovei­tei nada da célebre vida nocturna de Hollywood! Não quero com isto dizer que todo este duro trabalho não teve as suas compensações e momentos de descon­tracção. Ao longo de tantas semanas juntos, o elenco desenvolveu as suas pequenas brincadeiras e as suas formas de atenuar a tensão. O senhor Fleming con­seguia sempre preparar-me para uma cena difícil com uma elaborada vénia e chamando-me "Fiddle-dee-dee" a alcunha que me deu. E o bom humor natural de Clark Gable estava sempre pronto para aliviar a tensão dos momentos mais emotivos. Leslie Howard, como bem podem imaginar, é o bom humor em pessoa; raramente se zanga, e apimenta os momentos mais inesperados com um pouco de humor seco inglês.


Com certeza se recordam que em certa noite, Rhett Butler sobe uma grande escadaria com Scarlett ao colo. Estávamos prontos para filmar essa cena ao fim da tarde após um dia particularmente exigente. Como tão fre­quentemente acontece, várias coisas correram ma!, e o pobre Clark teve que subir essas escadas comigo ao colo uma dúzia de vezes até a cena ficar satisfatória. Mesmo o valente senhor Gable começava a revelar sinais de cansaço - o director artístico tinha mesmo desenhado uma escadaria bem comprida. «Vamos tentar mais uma vez, Clark», disse o real­izador. Clark franziu o sobrolho, mas pegou em mim e subiu aqueles degraus todos. «Obrigado, Clark», disse Fleming, «Não precisava desta última repetição, mas tinha apostado que não irias conseguir». Clark percebeu a piada – mas não tenho a certeza do que faria, se estivesse no seu lugar!


Talvez os dias mais difíceis para mim, falando em termos de puro esforço físico, foram aqueles dedicados à filmagem da cena em que Scarlett navega na torrente de pessoas em fuga durante a evacuação de Atlanta. Não podíamos filmar toda a cena como um plano de sequência única, e por isso passei uma eternidade a evitar o trânsito caótico na Peachtree Street, calculan­do cada passo para evitar cavalos a galope e coches descontrolados. Entre takes, a maquilhadora, que parecia estar em todo lado ao mesmo tempo, chegava, limpava a minha cara, para depois voltar a sujá-Ia com tinta da cor exacta do pó de argila da Georgia. Deve ter limpo a minha cara 20 vezes por dia - e aplicado o pó vermelho novamente cada vez.

Foi nessa altura que a dificíl tarefa de organização se revelava na sua forma mais espectacular. Cavalos e cav­aleiros tinham que atravessar certos locais em momen­tos precisos, e eu devia fazer o mesmo. Posso garantir que ver um canhão atrelado a cavalos a precipitar-se na nossa direcção a galope não é uma experiência agradá­vel, mesmo quando se sabe que os cavaleiros são profis­sionais e que têm tudo planeado. Estava tão concentra­da em estar no lugar certo ao momento certo, que foi só ao chegar à cama naquela noite que me apercebi que Scarlett O'Hara estava cheia de nódoas negras.

Embora possa parecer estranho, as cenas em que o esforço era emocional foram mais diffceis de rodar do que aquelas que exigiam esforço físico. Uma noite ficamos nos estúdios até cerca das 11 da noite, para depois viajarmo para o campo para filmar uma cena ao nascer do sol, na qual Scarlett cai de joelhos nos campos abandonados de Tara e jura que nunca mais passará fome. O sol apareceu no céu pouco depois das 2 da manhã, e eu não pude dormir, embora tivesse à minha disposição um camarim numa caravana. Conseguimos gravar a cena, e regressei a casa pelas 4.30 da manhã, mas não me lembro de ter estado particular­mente cansada. Por outro lado, lembro-me do dia em que Scarlett mata um desertor nortista, e recordo-me que depois daquele desagradável episódio, eu e a maravilhosa Olivia de Havilland, que interpreta Melanie, ficámos quase histéricas, não só pela tensão emocional da cena que acabávamos de interpretar, mas também pela queda quase demasiado "realista" do homem morto pelas escadas abaixo.


Mas quando finalmente chegou o dia em que com­pletámos o filme, não pude deixar de sentir alguma tris­teza por termos terminado a nossa tarefa, e que todos os intérpretes e o elenco - tão atenciosos e gentis durante todo o processo - estavam a separar-se. Clark Gable, Leslie Howard, Olivia de Havilland, Tom Mitchell, Barbara O'Neil - todos eles excelentes intérpretes. Voltaríamo-nos a encontrar, é claro, mas nunca mais teríamos uma experiência como a de “E Tudo o Vento Levou".



A BANDA-SONORA:
(da autoria de Max Steiner, gravada em 7 de Setembro de 1973 pela National Philharmonic Orchestra, dirigida por Charles Gerhardt)


quinta-feira, outubro 20, 2011

OS 20 FILMES MAIS LUCRATIVOS DA HISTÓRIA DO CINEMA

Os valores que entram nesta tabela (em milhões de dólares) foram obtidos com o devido ajustamento à inflação - único processo que permite comparar as receitas obtidas por todos os filmes da história do cinema. As décadas de 60, 70 e 80 são as melhor representadas, com 4 filmes cada. E a dupla Spielberg-Lucas leva a parte de leão com 7 filmes, ou seja, 35% do total. Consequentemente, os géneros de aventura e ficção-científica assumem também a liderança. De assinalar ainda o cinema de animação, que consegue meter 3 títulos nesta tabela. De um modo geral são todos títulos que o público tem normalmente a noção de terem sido grandes êxitos, com excepção de "The Sting" e de "The Graduate", que confesso não estar à espera de ver num TOP 20 dos filmes mais lucrativos da história do cinema. Mas ainda bem: são dois belos filmes e é óptimo que tenham sido vistos assim por tanta gente.

quarta-feira, outubro 19, 2011

1 ANO PRÓ FALCÃO

O blogue “O FalcãoMaltês”, da autoria de Antonio Nahud Jr., celebrou agora o primeiro ano de existência. Ainda um catraio, dirão alguns, mas a verdade é que os amantes do cinema clássico (o verdadeiro, o que vale a pena ser visto, revisto, apreciado e idolatrado), já não dispensa uma passagem semanal por aquele lugar. Nahud teve uma excelente ideia para comemorar esta data festiva: convidou 10 blogueiros a fazerem-lhe um conjunto de três perguntas cada um e depois respondeu a tudo, com muita franqueza e paixão cinéfila. O Rato Cinéfilo transcreve de seguida bocados dessa grande entrevista (quem a quiser ler na íntegra basta dar um salto ao “Falcão Maltês”):


- Nota-se a exposição de um vasto repertório em “O Falcão Maltês”, seja de fotos ou de informação sobre filmes, diretores e estrelas do cinema. O material é pesquisado apenas na web, ou você tem um arquivo pessoal? Fale mais sobre esse repertório apresentado, sobretudo referente aos filmes e estrelas do passado.
ANJ - Não deixo de pesquisar na web, Adalberto, mas boa parte do material postado neste blog vem do meu arquivo pessoal. Desde garoto, quando via os primeiros filmes, eu ia para casa rabiscar em cadernos sobre eles, completando essas anotações ingênuas com imagens recortadas em revistas ou jornais. Eu sempre li muito. Desde muito cedo. E comecei a gostar de cinema na mesma época, misturando tudo na minha cabeça. Logo passei a colecionar revistas de cinema, cartazes, figurinhas, livros etc. Até fazia ficha de filmes. Perdi muita coisa nessa minha vida cigana, morando em tantas cidades e países diferentes, mas ainda restou um farto acervo, do qual realmente me orgulho. Preservo uma coleção de cerca de três mil filmes, mais de uma centena de livros sobre cinema, inúmeras revistas e trilhas sonoras, além de pastas-arquivos abarrotadas de recortes.

"Rocco e Seus Irmãos", de Luchino Visconti
- Comparando-se o cinema de hoje ao do passado, você acredita que ainda há lugar para a arte e a invenção?
ANJ - Nos últimos anos, como sabemos, a sensibilidade cultural caiu barbaramente, tornando ainda mais difícil a sobrevivência da arte inteligente e sofisticada, predominando o tolo, o perecível. O cinema também mergulhou nessa crise, mas alternativas positivas existem, mesmo com essa aparentemente irreversível decadência cultural. Já não há aquela efervescência cinematográfica em busca de um estilo, um movimento, ou mesmo da “obra perfeita”.  Os cineastas de hoje não estão interessados em qualidade, mas em ganhar dinheiro e fama. São raros os que fogem dessa tendência. O que vale hoje é a cultura da celebridade, da vulgaridade televisiva. A mediocridade domina o mundo.

"O Sétimo Sêlo", de Ingmar Bergman
- Quais os cinco melhores filmes na sua opinião afetiva?
ANJ - Tenho percebido que sempre que ouso listar os melhores de sempre, os filmes não são os mesmos das listas anteriores. Talvez eu seja meio volúvel, hoje Visconti, amanhã Bergman. Mas vamos lá. Fico com “Rocco e seus Irmãos / Roco e i Suoi Fratelli” (1960), de Luchino Visconti; “Rashomon / Idem” (1950), de Akira Kurosawa; “A Marca da Maldade / Touch of Evil” (1958), de Orson Welles; “Fausto / Faust – Eine Deutsche Volkssage” (1926) de F. W. Murnau; e “O Sétimo Selo / Det Sjunde Inseglet” (1956), de Ingmar Bergman.

"A Sede do Mal", de Orson Welles

- Qual o pior cinéfilo, aquele metido a crítico, que observa cada detalhe para somente criticar cada um dele baseado em alguma regra cinematográfica (e ai de você se discordar dele) ou aquele que torce o nariz quando você lhe fala sobre um filme com mais de 10 anos de idade sem nem ao menos pensar se seria uma boa experiência vê-lo?
ANJ - Eu não entendo o cinéfilo que vive só de modismos ou blockbusters, esnobando o cinema clássico. É o mesmo que gostar de música e não ouvir jazz, bossa-nova, samba canção. Essa desinformação limita, não abre caminhos, não se sustenta. Tampouco compreendo o cinéfilo metido a crítico de cinema, analisando rigorosamente cada filme que vê sem qualquer preparo. Sei que não existe uma escola de crítica, onde se sai crítico de cinema, mas tal profissão não é fácil como muita gente pensa. O crítico deve ter, antes de mais nada, um repertório muito extenso da cinematografia e a capacidade de contextualizar os filmes no universo sócio-político-cultural em que eles se inserem. Ele também precisa investir na inteligência do leitor, despertando o interesse por textos elaborados. O que vejo em abundância nada mais é do que o triunfo da preguiça intelectual, o superficial que não satisfaz.

"Aconteceu no Oeste", de Sergio Leone
- Tendo vivido na Europa, o que você acha do spaghetti-western?
ANJ - Tenho até vergonha de confessar, mas sinceramente não suporto o spaghetti-western, mesmo vendo talento em Giuliano Gemma, Franco Nero, Gian Maria Volonté e em alguns diretores como Sergio Corbucci ou Damiano Damiani. Toda a sua embalagem me parece primária, rude, improvisada, sem verdade ou emoção. Por achar o spaghetti-western tão oportunista e descartável, terminei por separar o Sergio Leone dessa febre cult sem estilo. “Era Uma Vez no Oeste / C’era una Volta Il West” (1968) é uma obra-prima memorável e o Leone, magistral. Ele não merece seguidores tão chinfrins.

"Do Céu Caíu Uma Estrela", de Frank Capra
- Cite três filmes que influenciaram a sua vida
ANJ - “O Sétimo Selo”, de Bergman, tornou-me consciente da fragilidade da vida e do desequilíbrio humano. “A Felicidade Não se Compra / It’s a Wonderful Life” (1946), de Frank Capra, me fez crer na inocência e na generosidade como bens preciosos e em extinção. “A Noite / La Notte” (1961), de Antonioni, revelou-me que a solidão e a falta de comunicação são estigmas incontornáveis da humanidade.

"A Noite", de Michelangelo Antonioni
- Diga o filme e a personagem (masculina ou feminina) que você mais gostaria de ter desempenhado no cinema e porquê.
ANJ - Gosto do Rick Blaine de Humphrey Bogart em “Casablanca” (1942), mesmo não me interessando muito pelo filme num todo. Acho comovente esse quarentão independente, rebelde, deslocado, solitário, sem esperanças, vivendo num país que não é o seu, percebendo a loucura generalizada e estrangulando-se emocionalmente pela recordação de um amor impossível. Cai como uma luva no meu estilo de vida.

"Casablanca", de Michael Curtiz
- Acredito que o cinema, tal como o conhecemos durante as nossas vidas, tem os dias contados e não vai sobreviver no futuro. Imagine que você dispõe de uma máquina do tempo e pode ir ao ano 5000 dar uma palestra sobre o que era essa coisa da “Sétima Arte” dos séculos XX e XXI. Quais os cinco filmes que você levaria debaixo do braço para exemplificar o que era o Cinema nas suas diversas vertentes?
ANJ - Êta, amigo, tá complicado... Contar a história do cinema em cinco filmes não é fácil não... Vamos ver... Começaria com “Tempos Modernos / Modern Times” (1936), de Chaplin. Saltaria para “O Boulevard do Crime / Les Enfants Du Paradis” (1945), de Marcel Carné. Continuaria com o neo-realista “Ladrões de Bicicleta / Ladri di Biciclette” (1948), de Vittorio De Sica. Depois “2001 – Uma Odisséia no Espaço / 2001: A Space Odyssey” (1968), de Kubrick, e por fim, “Apocalipse Now / Idem” (1979), de Coppola.

- Se  você tivesse que usar três substantivos para descrever "cinema"... quais usaria?
ANJ - Preto-e-branco, coração, memória.

"O Destino Bate à Porta", de Tay Garnett
- Nós, muitas vezes, temos gostos completamente opostos em questão de atores/atrizes... Explique-me... por que Lana Turner?
ANJ - A questão da atração/afeição é inexplicável, misteriosa. Cada um tem os seus fetiches e sensações privadas. O mesmo acontece em relação ao universo cinematográfico. Muitas vezes nos encantamos por certos atores/atrizes sem nenhum talento especial e sem qualquer motivo aparente. Por exemplo, gosto demais do Tyrone Power e da Rita Hayworth, dois atores de talento limitado. Já outros - embora tenha consciência do talentos deles -, não consigo engolir, até incomodam, fico sempre pensando: "Esse personagem ficaria melhor na pele de tal ator. O filme cresceria muito mais". É o que sinto em relação a Jimmy Stewart, Doris Day, Tony Curtis, Julie Andrews, Sidney Poitier, John Wayne, June Allyson, Joan Collins, Dean Martin, entre outros. A Lana não faz parte do meu círculo de seletos, mas aprecio sua beleza sensual, o porte de diva, a trajetória perene e apaixonada. O autógrafo que tenho dela aconteceu mais por impulso. Ela estava no Festival de San Sebastian e eu a seguia com os olhos, procurando desvendar o mito. De repente, a estrela sorriu para mim, eu me aproximei e timidamente pedi um autógrafo. Na época, meu inglês era limitado e nem deu para confessar como sou fã de alguns de seus filmes.

"Amarcord", de Federico Fellini
- Uma das minhas memória prediletas... você se lembra da primeira vez que entrou num cinema? Descreva sua sensação...
ANJ - A primeira vez realmente não me recordo. Nas defasadas matinês do cinema da minha cidade interiorana só exibiam reprises de filmes de Jerry Lewis, Elvis Presley, épicos (Hercules, Maciste etc.) e westerns italianos. Eu ia semanalmente assisti-los como quem ia à missa, bastante entediado. Tudo realmente começou na minha primeira sessão noturna, em um cinema de arte. Eu tinha doze anos e fui com meu pai assistir “Amarcord”. Fiquei enfeitiçado, estarrecido. Ainda mais que não havia nenhuma outra criança presente, somente adultos. Passei o resto da noite sem dormir, literalmente seduzido pela magia do bom cinema.

"Tempos Modernos", de Charles Chaplin

quinta-feira, outubro 06, 2011

THE HOLE (2009)

MEDOS
Um filme de JOE DANTE


Com Chris Massoglia, Haley Bennett, Nathan Gamble, Teri Polo, Bruce Dern, Quinn Lord

EUA / 92 min / COR / 16X9 (1.85:1)

Estreia em ITÁLIA a 11/9/2009
(Festival de Veneza)
Estreia nos EUA a 31/10/2009
(Festival AFI)
Estreia em PORTUGAL a 21/4/2011


«Cresci a adorar filmes de suspense e de criaturas. Na minha carreira já realizei uma série de filmes de terror e também sobre a adolescência, como “Gremlins”. Mas nenhum deles tinha a mesma mistura daqueles arrepios de nos fazer saltar da cadeira com elementos de drama humano como o que esta história me ofereceu.»
Joe Dante

Filmado no agora muito em voga 3D, “The Hole” não necessita desse complemento técnico para ser aquilo que é – um bom entretenimento de suspense genuíno. Aliás, diz quem viu, a versão em 3D fica muito aquém da versão “normal”, o que em nada vem abonar esta nova moda, feita exclusivamente a pensar em lucros adicionais. Pessoalmente recuso-me a ver tais filmes que, no meu entender, vêm desvirtuar o cinema, transformando-o numa mera atração de feira. Um pouco como acontecia com o Cinerama dos anos 50 e 60, mas sem as características espectaculares desse sistema. Já não bastavam os efeitos digitais, usados quase sempre despudoradamente, agora a grande indústria tenta também cativar os mais incautos com uma dimensão extra. Felizmente que a “novidade” não tem tido grande impacto junto do público e o mais natural será o seu desaparecimento a curto prazo.

Joe Dante tem passado a maior parte da sua carreira entretido com produções para televisão, sobretudo realizando episódios para séries. “CSI: Nova Iorque”, “Masters of Horror”, “Night Visions”, “Amazing Stories” ou “The Twilight Zone” (nova edição) são algumas dessas séries, de maior ou menor sucesso. A sua estreia no cinema data de 1978, com o filme “Piranha”, onde dirige Kevin McCarthy, o intérprete de “Invasion of the Body Snatchers”, após o que realizou alguns filmes durante a década de 80 e no domínio do fantástico, tais como “The Howling” (1981), “Gremlins” (1984), “Explorers” (1985) ou “Innerspace” (1987). Por causa desses títulos é vulgar designar-se o seu cinema como “terror familiar”, significando isso uma ausência de violência gráfica (o chamado gore), antes privilegiando a emoção e o suspense. Este The Hole” não foge à regra, distanciando-se por isso das características mais comuns do filme de terror; apesar do seu início, já visto muitas dezenas de vezes – a mudança para uma nova casa de uma pequena família, aqui formada por uma mãe e dois filhos. Mas as semelhanças ficam-se por aqui.

Na cave da nova casa, os dois irmãos, Dane (Chris Massoglia) e Lucas (Nathan Gamble), descobrem, com a ajuda da nova vizinha, Julie (Haley Bennett) um misterioso buraco, fechado a sete chaves, que depois de aberto apresenta a inquietante particularidade de não ter fundo. Não, não é nenhum portal para o inferno, como os três adolescentes chegam a pensar, pelo menos aquele “inferno bíblico” povoado de diabretes. O inferno, aqui, são os medos pessoais de cada um, são os pesadelos mais sombrios e ocultos que se vão pouco a pouco materializando. Com argumento de Mark L. Smith, “The Hole” enquadra-se melhor no género do filme de aventuras, como aliás é compreensível face aos antecedentes de Dante, não descurando contudo todo um clima de grande suspense que mantém sempre alerta a atenção do espectador . De realçar ainda a fotografia e também uns cenários pouco vulgares neste tipo de produção, os quais, na parte final do filme chegam a invocar alguma pintura moderna, nomeadamente a de Salvador Dali.




domingo, outubro 02, 2011

RED RIDING HOOD (2011)

A RAPARIGA DO CAPUZ VERMELHO
Um filme de CATHERINE HARDWICKE



Com Amanda Seyfried, Gary Oldman, Billy Burke, Shiloh Fernandez, Max Irons, Virginia Madsen, Lukas Haas, Julie Christie


EUA - CANADÁ / 100 min / 16X9 (2.35:1)


Estreia nos EUA a 7/3/2011
Estreia em PORTUGAL a 14/4/2011
Resolvi alugar este filme por três razões: primeiro porque sou fã do fantástico e do filme de terror; depois porque tenho grande apreço pelo trabalho do actor inglês Gary Oldman; finalmente, confesso que estava muito curioso em ver como Julie Christie, uma das mulheres mais lindas do meu tempo (e a inesquecível intérprete de Lara do “Doutor Zhivago”) se encontrava aos 70 anos. Após uma (penosa) visualização, tive mesmo de me contentar apenas com a satisfação desta última curiosidade. Apesar de ter envelhecido com classe, não teria reconhecido a actriz se não soubesse que era ela quem interpretava a avózinha do capuchinho vermelho. No resto, nada se salva neste filme. O fantástico e o terror estão ausentes (muito por causa de um argumento sem pés nem cabeça, onde o maior interesse reside na resposta à questão «mas afinal quem é o lobo mau?», à semelhança da maior parte dos livros de Agatha Christie, onde o conhecimento de quem era o criminoso era sempre o momento mais ambicionado. Mas aqui nem sequer essa revelação funciona); as interpretações são do piorio (que tristeza ver Gary Oldman envolvido numa coisa destas); a realização e a montagem cumprem quase religiosamente a “regra dos planos de 3 segundos” (só tarde demais é que me dei conta do nome que assina este amontoado de imagens – Catherine Hardwicke, a mulher responsável pelo famigerado e inóquo “Twilight”). Com a agravante do embuste que é recorrer-se a uma fotografia “bonitinha” para camuflar todas as deficiências reinantes. Estou convencido que até o público (muito) adolescente a quem “Red Riding Hood” obviamente se destina, sentirá alguma dificuldade em retirar alguma satisfação do filme. Enfim, um produto perfeitamente escusado, que só vai engrossar o lote dos filmes que nos levam a acreditar na extinção da outrora chamada “Sétima Arte”. Lote esse que, infelizmente, não pára de crescer.