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sábado, abril 16, 2011
sexta-feira, abril 15, 2011
MONTAND: L'ACTEUR DU CHARME
Nascido a 13 de Outubro de 1921, em Monsummano Terme, Pistoia, Itália
Falecido a 9 de Novembro de 1991, em Senlis, Oise, Picardie, França
«Nunca refazemos a vida. Continuamos a viver»
No dia 9 de Novembro de 1991, um sábado, morreu de enfarte Ivo Livi, imigrante italiano naturalizado francês. Tinha 70 anos. Não era um italianozito qualquer a quem o coração cansado pregou uma partida ao fim de meio século de trabalho na fábrica. Era Yves Montand, cantor e actor de cinema, um dos franceses mais conhecidos no mundo. E actor de uma extraordinária aventura: a do século XX. Do estalinismo à crítica do estalinismo, Montand esteve em todos os combates. Mas nem só o social o apaixonou. Foi um grande amante de mulheres: Piaf, Signoret, Marilyn, as deusas.
Simone Signoret conta, na interessantissima autobiografia “La nostalgie n’est plus ce qu’elle était”, que Yves Montand lhe disse um dia em que sonhadoramente faziam o balanço de uma longa vida dedicada à canção, ao cinema e à intervenção política e social: «Pertencemos à categoria dos sobreviventes.» Nenhuma frase definiria melhor o trajecto quer de Montand, quer de Signoret. Mas agora é Montand quem nos interessa, esse imigrante italiano alto e elegante que se tornou um dos franceses mais conhecidos do século XX.
Ivo Livi, nascido a 13 de Outubro de 1921, na província italiana da Toscana, sobreviveu a tudo. A uma infância pauperrima; às contradições do estalinismo que conquistara o coração da sua família de militantes operários comunistas. Ainda o pequeno Ivo não fizera três anos e já se encontrava em Marselha, para onde a mãe, Giuseppina, e os dois irmãos mais velhos – Lydia e Giuliano – haviam ido ao encontro do pai, Giovanni Livi, que para lá fugira algum tempo antes, tentando a passagem para Estados Unidos. Porque fugira Giovanni da Toscana natal, onde os Livi eram conhecidos há séculos? Porque os seus princípios antifascistas o tinham transformado em alvo dos ódios de um familiar mussoliniano, que acabou mesmo por providenciar um incêndio na fabriqueta de vassouras dos Livi. Giovanni compreendeu: em Itália o clima tornara-se malsão para um homem livre. Nunca pôde, porém, aportar à sonhada América, porque entretanto o Governo dos EUA fechara as portas da imigração.
O pequeno Livi cresceu, pois, na Marselha operária. Abandonou a escola muito cedo para ajudar a família com um salário, não tendo sequer conseguido o diploma da instrução primária. Foi tudo, ou pelo menos muita coisa: ajudou o pai numa nova fábrica de vassouras que acabou por falir, foi metalúrgico, ajudante de estivador, cabeleireiro (no salão da irmã). Mas tal como o pai, sonhava com a liberdade das terras longínquas do Tio Sam. E como não conseguia lá entrar, resolveu trazer a América até si. Começou a cantar, e as primeiras canções não falavam do sul de França onde vivia, do Mediterrâneo onde se banhava, mas dos grandes espaços do Oeste americano. Este fascínio pela “nova fronteira” nunca o abandonará, mesmo quando adulto se tornar um dos mais conhecidos compagnons de route dos comunistas. E será talvez a criança que brinca aos cowboys, que manterá viva no seu coração e que mais tarde equilibrará as tendências dogmáticas do ex-operário.
Em 1938, com dezassete anos, Ivo consegue empregar-se como arrumador num cabaret de music-hall de Marselha, o Alcazar, onde de seguida começa a cantar, fazendo imitações de Charles Trenet, Maurice Chevalier e Fernandel. Nos tempos livres percorre todos os cinemas de Marselha: «Eles eram a minha vida, a minha camada de ozone. Wayne, Cooper, Flynn, Astaire, Garbo, Swanson, Crawford. Eram eles e elas que, para mim, viviam na realidade.» Seis anos depois,em 1944, ganha um concurso de amadores que o leva a Lyon e pouco depois a Paris, onde actua no ABC, no Bobino, nas Follies-Belleville e no célebre Moulin Rouge. A razão porque troca Marselha pela capital deveu-se a ter sido convocado para o Serviço do Trabalho Obrigatório, isto é, para o trabalho forçado na Alemanha nazi, que então ocupava a França. Isso não! O imigrante italiano que por todos os meios tentava fugir à condição de assalariado, não iria agora trabalhar para os alemães. Pareceu-lhe ser a altura de jogar tudo por tudo: Paris, a grande cidade, era o local ideal para um clandestino. As suas canções de cowboys fizeram sucesso na capital, mais que não fosse porquem lembravam o jazz e constituíam uma espécie de manifesto a favor do grande aliado contra os alemães.
Os deuses protegem os audazes, e pouco tempo depois da Libertação, já Yves Montand – que afrancesara o nome e escolhera este apelido artístico recordado do grito da mãe a chamá-lo da janela para o jantar: «Ivo, monta!» - cantava as primeiras partes dos espectáculos de Edith Piaf, que na altura era já uma grande senhora da canção francesa. Com o seu charme natural, e na força dos seus 24 anos, Montand acabou, é claro, na cama de Edith. Estranho par, este: ele altissimo, um metro e noventa; ela frágil, magra, pequenina, ardente. Quando a beijava tinha de pegar nela ao colo. Mas Piaf era a maior, artisticamente. E Montand tinha de subir até às alturas onde ela pairava. Piaf ensinou-lhe tudo: a vestir-se, a escolher as canções. Escreveu-lhe mesmo as letras de algumas. Obrigou-o a abandonar o estilo americano que, passada a euforia da guerra, passaria também de moda. «Foi Edith Piaf que me ensinou a cantar canções eternas», dirá mais tarde.
Ao fim de três anos, separaram-se. Os jornais, sempre à espreita dos escândalos, acusaram Montand de ter abandonado a sua companheira porque ela era mais velha e já para nada lhe servia. Mentira: foi a Môme que o deixou, como se, depois do trabalho acabado, mais nada tivesse que fazer com ele. O jovem italo-marselhês sentiu o golpe e sentiu a injustiça dos boatos postos a circular pelos jornais sensacionalistas. Mas o seu orgulho de macho latino ferido forçou-o a calar-se. Só anos mais tarde confessou publicamente que fora abandonado. Mas antes da separação Montand estreia-se no cinema ao lado de Piaf. O filme chamou-se “Étoile Sans Lumière”, teve críticas muito desfavoráveis, mas foi o início de uma carreira paralela à das canções. Ao longo de 4 décadas Montand dividiu-se pelas duas, sempre com grande sucesso. Naquele mesmo ano de 1946, entra num segundo filme, “Les Portes de la Nuit”, do prestigiado realizador Marcel Carné, e onde contracena com Serge Reggiani, outro cantor-actor imigrante de Itália. Antes dos anos 40 chegarem ao fim, Montand é finalmente cabeça de cartaz no filme “L’Idole”.
É durante estes anos que Montand cimenta a fama de maníaco perfeccionista, com repetições exaustivas de ensaios, e a frequência constante de estudos de canto e dicção. E tudo isso sem descurar o mundo do cinema, onde vem a conhecer a mulher da sua vida, Simone Signoret. O encontro acontece na Côte d’Azur (Saint-Paul-de-Vence), em 1949, e é amor à primeira vista. Simone divorcia-se do marido, o realizador Yves Allégret (que fora secretário de Trotski), de quem tem uma filha de três anos, Catherine (tornar-se-á mais tarde também actriz e virá a ser perfilhada por Montand após a morte de Simone, em 1985). Os três fixam residência em Paris (na praça Dauphine) e o casamento é celebrado a 22 de Dezembro de 1951, tornando Montand e Signoret um dos casais mais mediáticos do mundo do espectáculo.
Tal como Piaf o introduzira nos segredos do music-hall, Signoret vai dar-lhe a conhecer a Rive Gauche: Sartre e Simone de Beauvoir, Jacques Prévert, Picasso, Braque e outros, tantos outros. E livros, e ideias. Fará deste filho de comunistas um intelectual de esquerda. Em 1952 Montand beneficia de um outro presente, este vindo directamente das mãos de Henri-Georges Clouzot: é a sua escolha para intérprete principal de “Le Salaire de la Peur”, que o conduz definitivamente ao estrelato. O filme é distinguido com 5 importantes prémios: Grande Prémio do Festival de Cannes, Urso de Ouro de Berlin, BAFTA inglês, Blue Ribbon e o Prémio da Associação de Críticos Franceses para o melhor filme do ano. Em 1953 Montand faz a primeira peregrinação a Monsummano, a sua aldeia natal na Toscânia. Em plena guerra da Indochina ele canta "Quand un Soldat" em cena, enquanto outra canção, "Sanguine", é censurada na rádio sob a acusação de lubricidade. Em meados de Agosto desse ano Simone perde o filho que esperava.
Depois de em 1954, Montand e Signoret terem feito da sua nova propriedade na Normandia um lugar de encontro e militância artística, produzem no ano seguinte a peça “Les Sorcières de Salem”, da autoria de Arthur Miller, que se estreia em Paris, no teatro Sarah Bernhardt com enorme sucesso. A versão cinematográfica aparece em 1957, numa realização de Raymond Rouleau. Entretanto, no decurso de uma actuação em Moscovo, Montand trava conhecimento com Nikita Khrouchtchev, o primeiro secretário do Partido Comunista da U.R.S.S., a quem faz sentir a sua decepção pela recente insurreição de Budapeste (a invasão da capital da Hungria por tropas da Armada Vermelha).
Pouco depois, e acompanhado por Signoret, realiza uma digressão triunfal por diversos Países do Bloco d’Este. De Moscovo a Praga, multidões esperavam Montand. Os teatros enchiam. As fábricas paravam para os operários o ouvirem. Montand e Signoret olhavam para o paraíso do socialismo e torciam o nariz. Desconfiavam da propaganda. Segue-se em 1959 outra grande digressão de sucesso aos Estados Unidos. E, na Broadway de Nova Iorque Montand adquire o status de grande vedeta internacional. A 4 de Abril de 1960 é Simone Signoret que recebe o Óscar de Hollywood para a melhor actriz do ano no filme “Room at The Top” enquanto Montand filma “Let’s Make Love”, sob a direcção de George Cukor.
É nesta época agitada que Montand vai viver a agitação de uma nova relação amorosa. Depois da ardente Piaf, da intelectual e calorosa Signoret, é a vez da mulher-criança Marilyn: «Era louco pela minha mulher, mas que podia fazer?» Marilyn sofria de timidez, de insegurança, de medo de desagradar. Montand é o primeiro actor com quem contracena que a trata como actriz e não como uma starlette que a máquina de Hollywood transformara em diva. Não espanta, por isso, que a desamparada Norma Jean se tenha lançado nos braços deste latin lover quase quarentão, que conquistava enfim a América da sua infância, no corpo da sua ninfa: «Marilyn era um ser excepcional na medida em que era a sua luz interior que a impelia para o palco, diante dos projectores.»
E Signoret? Signoret assistiu ao início do romance, juntamente com Arthur Miller – os dois casais eram vistos muitas vezes juntos, em restaurantes e outros locais públicos. Depois, Signoret teve de regressar à Europa, para rodar um filme em Itália, deixando o marido, sózinho e disponível. Marilyn entra por Montand adentro, sob o olhar plácido da grande senhora, segura do seu poder. Finda a promoção de “Let’s Make Love” Montand voltará a França e a Simone. Que mais tarde dedicará doze páginas da sua auto-biografia à antiga rival: «Marilyn não era um mito nem um poster, mas sim uma vizinha de patamar que gostava muito da sua vizinha. O que aconteceu não foi triste, foi aborrecido. E ela nunca soube o quanto eu ‘não’ a detestei.»
E Signoret? Signoret assistiu ao início do romance, juntamente com Arthur Miller – os dois casais eram vistos muitas vezes juntos, em restaurantes e outros locais públicos. Depois, Signoret teve de regressar à Europa, para rodar um filme em Itália, deixando o marido, sózinho e disponível. Marilyn entra por Montand adentro, sob o olhar plácido da grande senhora, segura do seu poder. Finda a promoção de “Let’s Make Love” Montand voltará a França e a Simone. Que mais tarde dedicará doze páginas da sua auto-biografia à antiga rival: «Marilyn não era um mito nem um poster, mas sim uma vizinha de patamar que gostava muito da sua vizinha. O que aconteceu não foi triste, foi aborrecido. E ela nunca soube o quanto eu ‘não’ a detestei.»
Após mais uma série de digressões – Japão, Inglaterra, outra vez os EUA (o casal chega a jantar com Kennedy na Casa Branca) – Montand decide em 1964 dedicar-se quase por inteiro ao cinema, relegando os recitais musicais para segundo plano. Filma com Costa-Gavras, Alain Resnais, René Clément, John Frankenheimer, Claude Lelouch, André Delvaux, Vincente Minnelli, Jean-Pierre Melville, Jean-Luc Godard, Claude Sautet, entre outros. Tudo realizadores de primeira água que contribuem decisivamente para o melhor período da sua longa carreira. Por outro lado, o seu natural charme continua a cativar a grande maioria das actrizes que com ele vão contracenando: Shirley MacLaine, Ingrid Thulin, Eva Marie Saint, Annie Girardot, Candice Bergen, Anouk Aimée, Barbra Streisand, Jane Fonda, Romy Schneider, Stéphane Audran, Catherine Deneuve.
A vertente política continua entretanto a ser uma das razões da notoriedade do casal Montand / Signoret, que protestam contra a invasão da Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia em 1968 ou o encarceramento de intelectuais soviéticos. Em 1974 apoiam os refugiados chilenos (para angariar fundos, Montand dá um recital excepcional no Olympia) e no ano seguinte vão a Espanha protestar contra a condenação à morte de militantes da ETA e da FRAP. Outras tomadas de posição vão sendo assumidas nos anos seguintes, como em 1981, altura em que Montand lança um apelo para a compra de um barco visando escoltar os boat-people vietnaitas no Mar da China, defendendo-os assim contra os piratas tailandeses. Montand e Signoret – quase não se pode falar de um sem falar do outro – não foram pessoas de coerência exemplar, tal como a geração de que fizeram parte. Mas esforçaram-se e pelo menos fizeram ouvir as suas vozes de protesto. Porque, como dizia Brecht, «quem não sabe é ignorante; mas quem sabe e se cala é um malfeitor.»
Em Setembro de 1985, enquanto rodava o filme “Manon des Sources”, Montand é fortemente abalado pela morte da sua companheira de toda uma vida. Simone Signoret tinha apenas 64 anos, a mesma idade de Montand nessa altura. O actor sobrevive-lhe seis anos, período durante o qual vem a ser pai pela primeira vez. Carol Amiel, a assistente da sua digressão de 1982, com quem se vem a casar em 1987, dar-lhe-á um descendente, Valentin Montand, que nasce a 31 de Dezembro de 1988. Montand, pai babado, convoca a imprensa para lhes apresentar o rebento. Mas o período para disfrutar deste filho tardio é extremamente curto, pois Montand vem a falecer menos de três anos depois, a 9 de Novembro de 1991, devido a um enfarte de miocárdio.
Contava 70 anos e no dia anterior tinha terminado a rodagem do seu último filme, “IP5: L’Île aux Pachydermes”, no qual a sua personagem, por incrível coincidência, também morre de uma crise cardíaca. Alguns meses antes Montand tinha sido alvo de um processo de paternidade, movido por uma mulher que alegava ser ele o pai da filha. A ordem do tribunal para recolha de uma amostra de DNA chegou já depois do enterro, mas a queixosa não desistiu das suas intenções e o corpo de Montand foi exumado. A 11 de Março de 1998 o teste de paternidade deu negativo. Finalmente em paz, Yves Montand repousa na mesma campa de Simone Signoret, no cemitério Père-Lachaise, em Paris.
FILMOGRAFIA:
1992 – IP5: L’Île aux Pachydermes
1991 – Netchaïev est de Retour
1988 – Trois Places Pour Le 26
1986 – Manon des Sources / Manon das Nascentes
1986 – Jean de Florette
1983 – Garçon! / Um Homem Apaixonado
1982 – Tout Feu, Tout Flamme / A Vida é uma Festa
1981 – Le Choix des Armes / A Escolha das Armas
1979 – I... Comme Icare / O Sorriso do Assassino
1979 – Clair de Femme / A luz da Paixão
1978 – Les Routes du Sud / A Estrada do Sul
1977 – La Ménace / A Ameaça
1976 – Le Grand Escogriffe / O Grande Patife
1976 – Police Python 357 / O Polícia Python 357
1975 – Le Sauvage / Meu Irresistível Selvagem
1975 – Section Spéciale
1974 – Vincent, François, Paul... et les Autres
1973 – Le Hasard et la Violence / O Acaso e a Violência
1972 – Le Fils / O Filho
1972 – État de Siège / Estado de Sítio
1972 – César et Rosalie / César e Rosalie
1972 – Tout Va Bien / Tudo Vai Bem
1971 – La Folie des Grandeurs / A Mania das Grandezas
1970 – Le Cercle Rouge / O Círculo Vermelho
1970 – On A Clear Day You Can See Forever / Melinda
1969 – L’Aveu / A Confissão
1969 – L’Aveu / A Confissão
1969 – Z / Z, A Orgia do Poder
1968 – Le Diable Par la Queue / O Diabo à Solta
1968 – Mr Freedom
1968 – Un Soir, Un Train / Laços Eternos
1967 – Vivre Pour Vivre / Viver Para Viver
1966 – Paris Brûle-t-il? / Paris Já Está a Arder?
1966 – Grand Prix / Grande Prémio
1965 – La Guerre Est Finie / A Guerra Acabou
1967 – Vivre Pour Vivre / Viver Para Viver
1966 – Paris Brûle-t-il? / Paris Já Está a Arder?
1966 – Grand Prix / Grande Prémio
1965 – La Guerre Est Finie / A Guerra Acabou
1965 – Compartiment Tueurs / A 6ª Testemunha
1962 – My Geisha / A Minha Gueixa
1961 – Aimez-Vous Brahms ? (Goodbye Again) / Mais Uma Vez, Adeus
1960 – Sanctuary / Requiem Por Uma Freira
1960 – Let’s Make Love / Vamo-nos Amar
1959 – La Loi / A Lei
1958 – La Lunga Strada Azzurra / A Longa Estrada Azul
1956 – Les Sorcières de Salem / As Bruxas de Salem
1956 – Uomini e Lupi / Homens e Lobos
1955 – Les Héros Sont Fatigués / Os Heróis Estão Cansados
1955 – Marguerite de la Nuit / Margarida da Noite
1955 – Napoléon / Napoleão
1954 – Tempi Nostri (episode “Mara”) / Os Nossos Tempos
1953 – Le Salaire de la Peur / O Salário do Medo
1951 – L’Auberge Rouge / Recordações Perdidas
1951 – Paris est Toujours Paris / Paris é Sempre Paris
1950 – Souvenirs Perdus (episode “Le Violon”) / Histórias Esquecidas
1947 – L’Idole / O ídolo
1946 – Les Portes de la Nuit / As Portas da Noite
1946 – Étoile Sans Lumière / Estrela Sem Luzquinta-feira, abril 14, 2011
VIVRE POUR VIVRE (1967)
VIVER PARA VIVER
Um filme de CLAUDE LELOUCH
Com Yves Montand, Annie Girardot, Candice Bergen, Irène Tunc, Anouk Ferjac, Uta Taeger, Jean Collomb, Michel Parbot, Amidou
FRANÇA-ITÁLIA / 130 min / COR /
16X9 (1.66:1)
Estreia em França a 14/9/1967
Estreia nos EUA a 18/12/1967 (New York)
Estreia em Moçambique a 3/11/1968
(LM, Teatro Manuel Rodrigues)
Mas se “Vivre Pour Vivre” se destaca sobretudo pela magnificência dos intérpretes, da música e das imagens, não é menos verdade que o filme se encontra inteligentemente recheado de belos diálogos, sempre que os mesmos têm uma importância fundamental para o desenrolar da história. Como o primeiro encontro casual de Robert e Candice na varanda do motel onde ambos se deslocaram para os respectivos affaires («a gente se conhece?», pergunta Candice; «acho que não», responde Robert, «senão estaríamos no mesmo quarto». Se tal resposta acontecesse nos dias que correm era mais do que provável que a jovem e bela americana corresse para a esquadra de polícia mais próxima a queixar-se vítima de assédio sexual. Mas aqui os tempos eram outros; e Candice limita-se a exclamar: «Quel drôle de type!”; e, claro, a resposta de Robert não se faz esperar: «Quel drôle d’américaine!»)
Mas deixem-me acabar com uma confissão: adoro toda aquela sequência final, passada no restaurante da estância de inverno. O arrependimento de Robert leva-o a cortejar de novo Catherine, mas sentindo-se desprezado face à negação dela em reatar a relação entre ambos. Depois de toda a tortura psicológica exercida por Catherine vemos um Robert desalentado e conformado a deixar o restaurante e sentimos que o filme vai acabar ali mesmo, quando ele entrar para o carro e partir. Mas a grande quantidade de neve caída cobre totalmente o vidro dianteiro e ele tem necessidade de a remover. É então que na sequência desse gesto vemos o rosto de Catherine, que o espera com aquele olhar cúmplice dentro da viatura. Um breve sorriso de Robert, e então sim, é mesmo o final do filme.
Um filme de CLAUDE LELOUCH
Com Yves Montand, Annie Girardot, Candice Bergen, Irène Tunc, Anouk Ferjac, Uta Taeger, Jean Collomb, Michel Parbot, Amidou
FRANÇA-ITÁLIA / 130 min / COR /
16X9 (1.66:1)
Estreia em França a 14/9/1967
Estreia nos EUA a 18/12/1967 (New York)
Estreia em Moçambique a 3/11/1968
(LM, Teatro Manuel Rodrigues)
“Vivre Pour Vivre” é a sétima longa-metragem de Claude Lelouch, realizada logo a seguir ao premiado “Un Homme et Une Femme”, que acabara de ganhar a Palma de Ouro do Festival de Cannes, dois Globos de Ouro (melhor filme estrangeiro e melhor actriz dramática – Anouk Aimée), o BAFTA para a melhor actriz estrangeira e 2 Óscares da Academia de Hollywood, nas categorias de melhor argumento e filme numa língua estrangeira. Isto para citar apenas os principais prémios, porque o filme obteve muitos mais em diversos certames em todo o mundo. Na altura da estreia de “Vivre Pour Vivre” a tónica geral foi o desapontamento em relação ao seu antecessor e o nome Lelouch foi usado como sinónimo de um fotógrafo sem cultura cinéfila, tendo-se inclusivé chegado a escrever que “Vivre Pour Vivre” «era um filme sem ideias e sem emoções, e recheado de documentários irrisórios e propósitos frívolos.» Nada de mais falso ou tendencioso. “Vivre Pour Vivre” é, pelo contrário, uma obra feita quase totalmente de emoções, em que os diálogos cedem amiúde o lugar à imagem e ao fundo musical, visando precisamente realçar a diversidade de sentimentos entre os principais protagonistas.
Claude Lelouch foi contemporâneo de ilustres cineastas franceses do início dos anos 60: Truffaut, Chabrol, Godard, Rohmer, Rivette, Varda e Eustache, nomes que nessa altura constituíam a essência do movimento que se convencionou chamar de “Nouvelle Vague” (termo que começou a aparecer em diversas publicações no final dos anos 50 e que se revestiu de maior significado durante o Festival de Cannes de 1959 ao designar dessa forma o conjunto de filmes franceses a concurso). Ora, Lelouch nunca foi conotado com o movimento, pelo contrário, sempre foi colocado um pouco à margem. De um modo algo discriminatório, os críticos reinantes nessa época não lhe reconheciam os mesmos méritos dos outros pela simples razão de que Lelouch nunca fora um crítico de cinema, nunca escrevera nos então muito em voga Cahiers du Cinéma. E o facto de Lelouch ter vencido a Palma de Ouro em Cannes foi algo que esses mesmos críticos tiveram de engolir na altura mas que não esqueceram. Por isso, assim que tiveram oportunidade, trataram imediatamente de vilipendiar o trabalho do realizador francês.
“Vivre Pour Vivre” foi o primeiro filme de Claude Lelouch a que tive o prazer de assistir quando o mesmo se estreou em Moçambique, corria o ano de 1968. Só alguns anos mais tarde teria a possibilidade de ver “Un Homme et Une Femme” e alguns dos seus trabalhos subsequentes. Dizem que o primeiro amor é sempre inesquecível e talvez exista alguma lógica nisso. A verdade é que foi este filme de Lelouch o que maior prazer me deu. Prazer esse, sempre renovado todas as vezes que a ele regressei. E já preciso da maioria dos dedos das mãos para contabilizar o número de todos esses regressos ao longo dos anos.
O argumento, assinado por Pierre Uytterhoeven e pelo próprio Lelouch (que também foi responsável pela montagem) não podia ser mais banal ao contar a história de um triângulo amoroso. Robert Colomb (Yves Montand), a sua mulher Catherine (Annie Girardot, actriz recentemente falecida, a 28 de Fevereiro, com a doença de Alzheimer) e a sua última amante, Candice (Candice Bergen) são os vértices desse triângulo. Provavelmente teria sido a sua recente consagração que permitiu a Lelouch dispor de tão talentosos actores, sobretudo Montand e Girardot, que já eram admirados e respeitadissimos na altura. E “Vivre Pour Vivre” deve muito do seu carisma e popularidade às magníficas interpretações dos seus actores. Mas também à belissima partitura musical de Francis Lai e à mise-en-scêne de Lelouch, uma das suas imagens de marca. Convém lembrar que apesar da existência de fotógrafos contratados (no caso de “Vivre Pour Vivre” o director de fotografia chamava-se Patrice Pouget) era quase sempre Lelouch que no decurso das filmagens manobrava as câmaras, o que conferia aos seus filmes uma certa imagem de marca, pessoal e intransmissível.
São muitas as sequências inesquecíveis de “Vivre Pour Vivre”, feitas todas elas de poucos diálogos mas muita música e movimentos de câmara. Lembro-me especialmente daquela rotação de 360 graus no quarto do hotel de Amsterdam, onde Candice chega inoportunamente, sem se fazer anunciar e com o intuito de estragar a semana do amante com a legítima esposa. Vemos em primeiro lugar o abraço dos dois, depois uma acesa discussão no final da primeira deambulação da câmara em redor do quarto e novamente o mesmo abraço do início após outra rotação, desta vez em sentido contrário. Ou seja, por um simples artifício de um movimento de câmara, Lelouch mostra-nos algo que não chegou a acontecer, que só teve lugar no pensamento do protagonista. De recordar também a magnífica cena da confissão de Robert passada no comboio, em que o som vai pontuando frases soltas e close-ups do rosto de Catherine. Ou ainda aquele longo plano-sequência do regresso de Robert a uma casa vazia onde já só a solidão existe.
Mas se “Vivre Pour Vivre” se destaca sobretudo pela magnificência dos intérpretes, da música e das imagens, não é menos verdade que o filme se encontra inteligentemente recheado de belos diálogos, sempre que os mesmos têm uma importância fundamental para o desenrolar da história. Como o primeiro encontro casual de Robert e Candice na varanda do motel onde ambos se deslocaram para os respectivos affaires («a gente se conhece?», pergunta Candice; «acho que não», responde Robert, «senão estaríamos no mesmo quarto». Se tal resposta acontecesse nos dias que correm era mais do que provável que a jovem e bela americana corresse para a esquadra de polícia mais próxima a queixar-se vítima de assédio sexual. Mas aqui os tempos eram outros; e Candice limita-se a exclamar: «Quel drôle de type!”; e, claro, a resposta de Robert não se faz esperar: «Quel drôle d’américaine!»)
Outro diálogo delicioso é o que ocorre quando Catherine sai do cinema com uma amiga, onde foram ver um filme protagonizado por uma ex-amante de Robert: «Queria ver a actriz que entra no filme. Ela e Robert tiveram um caso». «Mas ele sabe que tu sabes?», pergunta-lhe a amiga. «Estás louca? Ele só se preocupa com ele mesmo. E eu é que tenho de compartilhar as suas amantes, o seu trabalho.» Aceito que “Vivre Pour Vivre” acaba de um modo um tanto ou quanto convencional, sobretudo numa época – o final dos anos 60 – em que a revolução das mentalidades era o pão nosso de cada dia e todas as contestações estavam ali ao virar da esquina. Sobretudo a emancipação das mulheres e a revolução sexual, que mudariam as relações do homem e da mulher para sempre.
Mas deixem-me acabar com uma confissão: adoro toda aquela sequência final, passada no restaurante da estância de inverno. O arrependimento de Robert leva-o a cortejar de novo Catherine, mas sentindo-se desprezado face à negação dela em reatar a relação entre ambos. Depois de toda a tortura psicológica exercida por Catherine vemos um Robert desalentado e conformado a deixar o restaurante e sentimos que o filme vai acabar ali mesmo, quando ele entrar para o carro e partir. Mas a grande quantidade de neve caída cobre totalmente o vidro dianteiro e ele tem necessidade de a remover. É então que na sequência desse gesto vemos o rosto de Catherine, que o espera com aquele olhar cúmplice dentro da viatura. Um breve sorriso de Robert, e então sim, é mesmo o final do filme.
Para os interessados disponibiliza-se aqui a banda sonora original:
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