terça-feira, março 29, 2016

SCENT OF A WOMAN (1992)

PERFUME DE MULHER
Um filme de MARTIN BREST



Com Al Pacino, Chris O’Donnell, James Rebhorn, Gabrielle Anwar, Philip Seymour Hoffman, etc.

EUA / 156 m / COR / 16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA: 23/12/1992
Estreia em Portugal: 5/3/1993



Lt. Col. Frank Slade: «Women! What can you say? Who made 'em? God must have been a fuckin' genius. The hair... They say the hair is everything, you know. Have you ever buried your nose in a mountain of curls... just wanted to go to sleep forever? Or lips... and when they touched, yours were like... that first swallow of wine... after you just crossed the desert. Tits. Hoo-wah! Big ones, little ones, nipples staring right out at ya, like secret searchlights. Mmm. Legs. I don't care if they're Greek columns... or secondhand Steinways. What's between 'em... passport to heaven. I need a drink. Yes, Mr Sims, there's only two syllables in this whole wide world worth hearing: pussy. Hah! Are you listenin' to me, son? I'm givin' ya pearls here.»




Um dos raros exemplos em que os americanos souberam fazer com mérito o trabalho de casa, ou seja, a adaptação de um filme europeu. O original era italiano, realizado por Dino Risi e com Vittorio Gassman no papel principal, e chamou-se “Profumo di Donna” (1974). Não era um grande filme, mas tinha por base uma boa ideia, bem original: um militar reformado, invisual, que se faz acompanhar por um adolescente numa espécie de peregrinação final pelos prazeres mundanos, onde o género feminino tem um papel fundamental (daí o cheiro, ou, mais polidamente, o perfume de mulher). Mas as semelhanças ficam-se por aí, e os dois filmes acabam por seguir caminhos diferentes. Em “Profumo di Donna” é a redenção do personagem principal através do amor de uma mulher, enquanto que neste “Scent of a Woman” são os códigos de moral e de honra que estão em causa.



Assim, e ao contrário do que sucedia no primeiro filme, em “Scent of a Woman”, as mulheres só têm lugar como objecto do desejo, estando os laços de afectividade completamente ausentes. A relação central que o filme procura equacionar é a do militar com o jovem estudante, uma espécie de aprendizagem e passagem de testemunho. Charlie Simms (Chris O’Donnell), é aluno do colégio Baird e, numa certa noite, testemunha involuntariamente o planeamento, por parte de três dos seus colegas, de uma partida visando o reitor e o seu precioso automóvel, um Jaguar novinho em folha. Sabendo que Charlie se encontra em posição de poder identificar os culpados, o reitor, Mr. Trask (James Rebhorn), aproveitando-se do facto de se tratar de um aluno com poucos recursos económicos, tenta chantageá-lo, prometendo-lhe a inclusão do nome para acesso à Universidade, em troco da informação pretendida. É debaixo desta pressão sobre o seu futuro, que Charlie Simms se vai ocupar do militar reformado, afim de ganhar um dinheiro extra para poder ir passar o dia de Acção de Graças junto da mãe e do padrasto.


O tenente-coronel Frank Slade (magnífico Al Pacino, no papel que lhe trouxe o Óscar e o Globo de Ouro, após uma série de nomeações) é um reformado invisual, amargurado e rabugemto, sempre contra tudo e contra todos, inclusive a sobrinha que lhe dá abrigo num anexo da moradia onde vive com o marido e os dois filhos. Como será fácil de imaginar, a recepção ao colegial não é nada acolhedora, mas Charlie acaba por aceitar a incumbência de fim-de-semana, afim de que os familiares do militar possam passar dois dias em paz e sossego. Só que Slade pretende aproveitar a oportunidade para dar uma escapatória a Nova Iorque, com o intuito de cumprir alguns desejos finais: hospedar-se num hotel de luxo (o Walforf-Astoria), comer e beber nos restaurantes mais caros, visitar o irmão (que não nutre grande afeição por ele) fornicar a mulher mais sensual que lhe possam arranjar e, finalmente, dar um tiro nos miolos. Slade consegue materializar todos esses desejos, e mesmo mais dois bónus extra: guiar um Ferrari último modelo e dançar o tango com Donna (Gabrielle Anwar), uma linda mulher que seduz num restaurante, na que é, certamente, a sequência mais célebre de todo o filme.


Mas o seu último desejo, o de dar um tiro nos miolos, é-lhe no entanto negado por Charlie (outra grande cena do filme), e Frank Slade acaba por desistir de partir à força deste mundo. Depois do fim-de-semana acabar, regressam ao ponto de partida, e após efectuar o pagamento anteriormente acertado, Slade separa-se do seu impedido de fim-de-semana e regressa a casa, provavelmente na pele de um homem um pouco diferente daquele que, apenas dois dias antes, tinha planeado tão cuidadosamente o seu suicídio. Quanto a Charlie, tem ainda o seu problema por resolver. A assembleia geral do colégio irá reunir como se de um pequeno tribunal se tratasse e é o futuro académico de Charlie que estará em jogo. Ele está sózinho, apenas com as suas convicções por companhia; mas, à última hora, irá receber um apoio inesperado. Inesperado por ele, porque o público já desconfia de antemão que o tenente coronel Frank Slade não iria desperdiçar a oportunidade de desancar mais uma instituição, regida por ideais retrógrados e moralistas.


CURIOSIDADES:

- Philip Seymour Hoffman, ainda em início de carreira, desempenha neste filme um pequeno papel. Ele é George, um dos colegas de Charlie.

- A cena em que o Frank Slade cai sobre um caixote do lixo, foi acidental, não constava do roteiro.

- Al Pacino frequentou uma escola de invisuais para se preparar para a sua personagem. Para a sequência do tango, ele e Gabrille Anwar ensaiaram durante 15 dias, e a filmagem levou 3 dias. A coreografia esteve a cargo de Jerry Mitchell e Paul Pellicoro.


- Leonardo DiCaprio foi a uma audição para o papel de Charles Simms, tal como Bem Affleck, Matt Damon e Brendan Fraser, entre outros. E a primeira escolha para Frank Slade foi Jack Nicholson.

- “hoo-ah” é uma expressão usada pelas forças armadas americanas em combate. Al Pacino alterou-a para “hoo-wah”, dizendo-a várias vezes ao longo do filme.

- O filme teve 4 nomeações para os Óscares (filme, realização, actor principal e argumento-adaptado) e outras 4 para os Globos de Ouro (filme-drama, actor principal, actor secundário e argumento). Em ambos os casos, Al Pacino foi o único vencedor.

sexta-feira, março 18, 2016

THE GODFATHER TRILOGY (1972 - 1974 - 1990)

O PADRINHO
Um filme de FRANCIS FORD COPPOLA

Com Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall, Richard S. Castellano, Diane Keaton, Talia Shire, Sterling Hayden, Al Lettieri, John Marley, John Cazale, etc.

USA / 180 m / COR / 16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA: 11/3/1972 (NY)
Estreia em Portugal: 24/10/1972 (Lisboa, cines Berna, Tivoli e Vox)
Estreia em Moçambique: 14/1/1973 (LM, teatro Manuel Rodrigues)

«I'm gonna make him an offer he can't refuse»


O PADRINHO – Parte II
Um filme de FRANCIS FORD COPPOLA

Com Al Pacino, Robert De Niro, Robert Duvall, Diane Keaton, John Cazale, Talia Shire, Lee Strasberg, Michael V. Gazzo, G.D. Spradlin, etc.

USA / 220 m / COR / 16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA: 3/12/1974 (San Francisco)
Estreia em Portugal: 14/10/1977 (Lisboa, cinema Eden)

«Keep your friends close, but your enemies closer»


O PADRINHO – Parte III
Um filme de FRANCIS FORD COPPOLA


Com Al Pacino, Diane Keaton, Talia Shire, Andy Garcia, Eli Wallach, Joe Mantegna, Sofia Coppola, George Hamilton, Bridget Fonda, Raf Vallone, etc.

USA / 162 m / COR / 16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA: 20/12/1990 (California)
Estreia em Portugal: 15/03/1991


«Real power can't be given. It must be taken»



Fez esta semana um quarto de século que a história da família Corleone acabou de ser contada em terras portuguesas. Se a esses 25 anos adicionarmos mais 19 (recuando até à data de estreia do primeiro filme), chegamos à conclusão de que a saga do “Padrinho” já anda pelas nossas vidas há 4 décadas. É muito tempo, uma vida inteira, mas está longe de se esgotar. A cada visionamento (e eu já levo algumas dezenas), há sempre algo a descobrir. É assim o cinema dos grandes mestres, é assim o cinema de Francis Ford Coppola: rico, profundo, atravessado por mil matizes, que têm sempre o condão de nos encantar. Com o passar dos anos, a trilogia “The Godfather” ultrapassou o simples estatuto fílmico para se enraizar como um ícone na cultura americana do século XX e não só. Um pouco por todo o lado se escreveram, e continuam a escrever, críticas, livros, teses sobre os filmes e sobre o impacto e influência por eles desencadeados. As citações e alegorias são permanentes e não é preciso ser-se cinéfilo para se sentir uma admiração sem limites por estas obras de arte de Coppola.


«I believe in America. America has made my fortune». Assim começa, com estas palavras que vêm do escuro, "The Godfather". A longa sequência inicial do filme é uma das mais perfeitas da história do cinema. Peso todas as palavras e considero, acima de tudo, as suas implicações narrativas. Como Fritz Lang, também Coppola parece interessar-se, em particular, pela cena no seu conjunto, fazendo dela a teia inexorável em que, como numa tragédia, se define o fatum de cada personagem. Alternando entre a luz aberta dos exteriores e o tom rembrandtiano dos interiores, essa longa sequência, a do casamento da filha de Don Vito Corleone, tem uma concepção musical cujo movimento mais intensamente emotivo é o do encadeado que nos faz passar da pose de fotografia de família ao plano em que Don Vito conduz a noiva para a pista de baile, num gesto que prefigura já a dança.


"The Godfather" está povoado destes pequenos instantes em que se parece sentir a elevação poética das coisas domésticas. Coppola põe neles a mais romântica sinceridade emocional. Mas o cineasta sente-se obrigado a disfarçar o que seja emoção subjectiva. Deve, portanto, universalizar as emoções, atribuindo-lhes um prolongamento metafísico ou racional: vai, por isso, procurar convencer-nos de que a mola real destes rituais, dos beijos que os homens trocam, das mãos que se afloram provocando o rubor dos pintores renascentistas, só pode ser a ambição do poder. "The Godfather" transforma-se então num Macbeth moderno, em que recorrem as mesmas imagens: sangue e morte, escuridão e insónia. Lembro ao acaso: a aterradora impertinência da cabeça do cavalo sob um lençol; a genial montagem do atentado contra Don Vito; o assassínio retórico de Sony; o lúgubre deslizar do personagem de Michael para o sonambulismo, depois da vigília ao pai no hospital.


"The Godfather, Part II" não tem essa poesia escandalosamente simples, como se tivesse deixada lá por acaso. É o filme de um cineasta que acaba de perder a juventude e chegou à idade da experiência. Não admira que nele a poesia ceda o lugar ao ensaio: "The Godfather, Part II" quer ser a análise do percurso implacável e brutal de um homem obsessionado com o seu próprio poder. Mas mesmo este modo de o definir é ainda uma concessão ao romanesco. Não é só o conceito do Poder ou o exercício pragmático da autoridade, mas igualmente uma teia de fundo de corrupção política e as estruturas económicas e sociais do capitalismo, que o filme toma por objecto.


"The Godfather, Part II" começa no grande plano do rosto de Michael. Começa onde acabava o primeiro filme, no beijo de vassalagem que alguém depõe na mão de Michael. Depois, os personagens saem e fica, soberana, a imagem da cadeira vazia. Todo o posterior desenvolvimento está, em potência, nesta imagem-conceito. Do primeiro para o segundo filme assiste-se a uma mudança (melhor seria dizer, ao aparecimento) da perspectiva moral. Num jogo de rigorosas equivalências, de um filme a outro passa-se de um tempo antigo, esplendidamente anacrónico e afectivo, a um tempo moderno, em que a vontade domina, mesmo quando a mecânica de conspiração em que nele assentam as relações humanas nos faça lembrar o que fictícia ou autenticamente tenha sido o pior do Império Romano.


Na teia dessas conspirações, a solidão é menos do que humana e não pára de se expandir. Não há exemplo mais acabado de loner na obra de Copolla do que Michael Corleone. Em "The Godfather" o assunto era a morte do pai. Em "The Godfather, Part II" é o espectáculo da solidão do filho: uma solidão que pretende demonstrar pelo absurdo a inutilidade do poder, uma solidão que exprime, como o auto-retrato de Van Gogh, um profundo desejo de comunicação com os seus semelhantes.


Por norma, existe a tendência de se considerar a 3ª parte como o “patinho feio” da trilogia. Nada de mais erróneo. Sem esse epílogo ficaria sempre um vazio, a sensação da história incompleta. E basta recordar aquela montagem final, ao som da Cavalleria Rusticana (vinte minutos que deveriam constar do programa curricular de qualquer curso de cinema), para compreendermos estar em presença de uma jóia rara. À semelhança, aliás, do que já acontecia nas duas primeiras partes, nomeadamente na segunda (talvez a mais perfeita de todas), em que a técnica do flashback é elevada à arte suprema de bem contar uma história, a qual vai alternando a actualidade (fim dos anos 50, durante a pré-revolução cubana) com os anos 20 (inícios da imigração maciça italiana para os EUA). Vamos assistindo à tomada do poder por parte de Michael Corleone (Al Pacino), enquanto, paralelamente, nos é mostrada a ascendência do pai, Vito Corleone (Robert De Niro), que no primeiro episódio da saga (localizado entre 1945 e 1955) seria, como se sabe, interpretado por Marlon Brando. Coppola chegou a afirmar que a razão base de ter feito o segundo filme foi exactamente o desejo de mostrar as vivências de um pai e de um filho em simultâneo, como se elas acontecessem na mesma época.


O filme de 1972 iria constituir um êxito sem precedentes, que ajudou a catapultar as carreiras de Coppola e Al Pacino, ao mesmo tempo que Brando voltava a ocupar o lugar que por mérito próprio sempre lhe pertencera: o do melhor actor da sua geração. Até Mario Puzo, que tinha escrito o romance original, não escondeu que o tinha feito a pensar em Brando na personagem de Vito Corleone. Os produtores, no entanto, não lhe queriam dar ouvidos, uma vez que o célebre actor tinha recentemente acumulado uma série de reveses comerciais, já para não falar na sua personalidade, difícil e conflituosa. Avançaram com vários nomes, entre os quais os de Edward G. Robinson e de Laurence Olivier, mas Coppola convenceu Brando a sujeitar-se a um teste, cujo resultado acabou de vez com as reservas dos homens da Paramount, os quais, ainda assim, exigiram que Brando trabalhasse por um pequeno cachet (100 mil dólares) e uma percentagem dos lucros. Uma decisão que se tornaria extremamente lucrativa para o actor, que posteriormente viria a usufruir de mais de 15 milhões de dólares, dado o grande êxito do filme.


A família siciliana, retratada por Puzo e filmada por Coppola, vai mais além da tradicional família ligada por laços sanguíneos. Nela são de igual modo englobados os chamados “afilhados”, pessoas com problemas sobretudo do foro legal, a quem falha a ajuda das instituições. É por isso que procuram Don Vito, um homem poderoso, com as mesmas origens e raízes culturais, com o qual estabelecem laços de vassalagem, originando desse modo a coesão social tipicamente italiana, baseada na ajuda mútua e tráfico de influências. Mas ao redor da família Corleone existem outras famílias de idênticas características, todas elas interessadas em tomar as rédeas do poder e serem mais poderosas umas do que outras. E será essa rivalidade que estará na origem dos ajustes de contas sangrentos que irão ocorrer ao longo de toda a saga.


Contrariamente ao que possa parecer, a personagem central da trilogia não é Vito Corleone, mas sim o filho mais novo, Michael Corleone. É ele o real protagonista da obra, é à roda dele que tudo gira. Começa timidamente, como o herói de guerra que não se quer envolver nos negócios da família, mas o passar dos anos vai-lhe pouco a pouco moldando a personalidade. É forçado a defender o pai, a matar por ele e, contra todas as expectativas e ambições pessoais, a suceder-lhe na defesa intransigente da família, sempre colocada acima de tudo e de todos. Com uma excepção, a do irmão Fredo (John Cazale), o qual não será perdoado pelo facto de se ter envolvido em negócios contra os interesses familiares, que quase resultariam no assassinato do próprio Michael Corleone. 


Estamos já no segundo filme, com um Michael cada vez mais duro, mais insensível e mais obstinado na expansão e consolidação do império da família Corleone, mesmo que isso se traduza na desagregação dos principais elementos dessa mesma família. Michael vai perdendo tudo à sua volta: a mãe, por razões naturais; a mulher, que aborta apenas com o intuito de interromper a linhagem familiar; o irmão, que ele próprio manda assassinar. Apenas a irmã, Connie (Talia Shire), parece estar firme junto dele, mas provavelmente mais por medo do que por amor fraternal. A segunda parte de “The Godfather” termina envolvida num manto de tristeza, com um Michael sentado no jardim, sózinho, absorto nos seus pensamentos, que mais não são do que os seus próprios fantasmas.


Inicialmente concebida para se chamar “A morte de Michael Corleone” (título que desagradou aos produtores), a 3ª parte do “Padrinho” foi realizada 16 anos depois, com Coppola a defini-la mais como um epílogo aos dois primeiros filmes. Vamos encontrar um Michael Corleone precocemente envelhecido, mais sereno, embora carregando o peso do seu passado, que tenta de novo assumir uma posição de legitimidade, e ao mesmo tempo encontrar a redenção dos seus pecados junto à Igreja católica. Com esse intuito delega no sobrinho Vincent (Andy Garcia) toda a responsabilidade, em troca dele renunciar aos encantos da filha Mary (Sofia Coppola). Vincent torna-se assim o novo Don, com direito ao beija-mão e a plenos poderes, os quais não hesita em usar para levar a cabo um novo ajuste de contas com todos os que se lhe atravessam no caminho.  Michael Corleone, uma vez mais, não consegue alterar o seu destino e no fim é a tragédia que se abate sobre os seus entes queridos, lançando-o em definitivo na solidão, que o acompanhará até ao fim dos seus dias.


Falta mencionar outra grande referência da trilogia: a sua magnífica banda sonora. Poucos filmes serão de imediato identificados ao som das primeiras notas musicais dos diferentes temas musicais: “Love Theme”, “The Godfather Waltz”, “Apollonia”, “Connie’s Wedding”, etc. Nino Rota (3/12/1911 – 10/4/1979), o compositor fétiche de Fellini e Carmine Coppola (11/6/1910 – 26/4/1991), o pai do realizador, criaram uma partitura musical para a eternidade. Ao nível das canções destaca-se “I Have But One Heart”, interpretada por Al Martino (a personagem de Johnny Fontane) no primeiro filme e sobretudo a belissima “Promise Me You’ll Remember”, interpretada por Harry Connick Jr. na última parte.



CURIOSIDADES:

- Francis Ford Coppola achava que apenas dois actores poderiam interpretar Don Vito Corleone, Laurence Olivier e Marlon Brando, que considerava serem os dois maiores actores do mundo, em especial o segundo, que chegou a apelidar de “meu herói”. Opinião contrária tinham os produtores que preferiam entregar o papel principal a outros actores, casos de Orson Welles ou Anthony Quinn.

- Talia Shire, que interpreta Connie Corleone, filha de Don Vito, é irmã de Francis Ford Coppola.

- Antes de Coppola, Sergio Leone foi convidado para dirigir o filme, mas recusou, pois achava que uma história que glorificava a máfia não era interessante o suficiente. Mais tarde, Leone arrependeu-se de o não ter dirigido e acabou fazendo seu próprio filme de gangsters, “Era Uma Vez na América”. Peter Bogdanovich também se recusou a dirigir o filme.

- Marlon Brando queria que o rosto da sua personagem se parecesse com o de um buldogue, pelo que resolveu encher a boca de algodão ao interpretar o teste que Coppola lhe pediu. Para as gravações, foram usadas peças feitas por um dentista, que hoje estão em exposição num museu em Nova York.


- Nos ensaios para a célebre cena com a cabeça de cavalo, foi usada uma cabeça falsa. No entanto, para as filmagens, a produção conseguiu uma cabeça verdadeira, que foi adquirida numa fábrica de alimentos para cães. Segundo o actor John Marley, os seus gritos de susto foram autênticos, porque não sabia que seria usada uma cabeça verdadeira.

- Como era seu hábito, Marlon Brando não conseguiu decorar a maioria das suas falas do filme, tendo espalhado cartões por todo o set com o texto que deveria interpretar.

- O gato que Vito Corleone segura foi encontrado por Brando no estúdio e não fazia parte dos planos do filme tê-lo em cena.

- Apesar de ter ficado conhecida por interpretar Mary Corleone na última parte da trilogia, Sofia Coppola, filha de Francis e hoje também cineasta, participou do primeiro filme. Ela era o bebê de Connie e Carlo (Michael Rizzi), que é baptizado por Michael Corleone.

- A famosa voz rouca de Don Vito é inspirada no mafioso Frank Costello, um dos gangsters mais poderosos da história dos EUA. Marlon Brando viu-o na TV na década de 50 e resolveu imitá-lo.



- Sylvester Stallone chegou a fazer testes para interpretar os personagens Paulie Gatto e Carlo Rizzi, mas não foi aprovado. Anos depois, viria a trabalhar com Talia Shire no clássico “Rocky”. Também Martin Sheen fez testes para interpretar Michael Corleone, mas não foi aprovado. Ele acabou trabalhando com Coppola e Brando em “Apocalypse Now”, em 1979.

- Warren Beatty, Jack Nicholson e Dustin Hoffman foram convidados para interpretar Michael Corleone, mas recusaram. Alain Delon, Burt Reynolds e Robert Redford foram de igual modo sugeridos, mas Coppola recusou aceitá-los.

- Os avós maternos de Al Pacino emigraram da cidade de Corleone, na Sicília, para os Estados Unidos, assim como Don Vito.

- Na cena do atentado a Don Corleone, é possível ver um poster do lutador Jake LaMotta numa janela. O boxeur foi interpretado por Robert De Niro em “Ragging Bull”, de Martin Scorsese, em 1980.

- O nome do tradicional chapéu da Sicília, como os que foram usados pelos guarda-costas de Michael Corleone, é coppola.


 - O actor que interpreta Luca Brasi, Lenny Montana, estava tão nervoso por contracenar com Marlon Brando que errou parte da sua fala. A cena em que ele treina o que vai dizer a Don Corleone, não fazia parte do filme, mas foi incluída na montagem final, pois Coppola gostou do nervosismo verdadeiro do actor.

- O beijo que Vito Corleone dá em Johnny Fontane não estava no argumento e foi improvisado por Marlon Brando. Segundo James Caan, a reacção confusa do actor Al Martino foi real, pois foi apanhado de surpresa.

- O último trabalho que Marlon Brando fez antes de morrer foi a dobragem do seu personagem Don Corleone para o vídeo-game “The Godfather”, que foi lançado em 2006, dois anos após a morte do actor.

- As filmagens de “The Godfather” duraram seis meses, mas as cenas com Marlon Brando foram gravadas em apenas 35 dias, para que ele pudesse cumprir a sua agenda e actuar em “Last Tango In Paris”, de Bernardo Bertolucci.

- Mario Puzo negou que o personagem Johnny Fontane foi inspirado em Frank Sinatra. O cantor ficou furioso na época em que o livro foi lançado e chegou a ofender Puzo quando o encontrou num restaurante. Mais tarde, Sinatra teria pedido a Coppola para interpretar Don Corleone no filme, mas o cineasta já tinha a certeza de que o papel seria de Marlon Brando.


- Coppola enfrentou tantas dificuldades e críticas durante a rodagem que achou que o filme seria um fracasso; e, na época do lançamento, viajou com a família para Paris, afim de não presenciar a decepção que seria nos cinemas. Finalmente, foi convencido por amigos a voltar para os Estados Unidos, pois o filme havia sido um sucesso.

- “The Godfather” pode ser considerado o primeiro blockbuster do cinema. Antes dele, os filmes eram lançados apenas num cinema e nenhuma outra sala num raio de 80 km poderia exibir o mesmo filme. A partir dele, várias salas próximas começaram a lançar filmes simultaneamente.

- Numa reunião com a Paramount, Coppola pediu um Mercedes 600 como prémio, caso o filme atingisse a marca de 15 milhões de dólares. Os executivos prometeram o carro apenas se o filme alcançasse os 50 milhões nas bilheterias. Quando o filme facturou 100 milhões de dólares, Coppola e George Lucas foram a uma concessionária da Mercedes, compraram o carro e enviaram a conta para a Paramount.


- Relativamente a distinções, e falando apenas dos Óscares de Hollywood, a trilogia obteve um total de 29 nomeações, das quais 19 se revelaram vencedoras. Assim, em 1973, “The Godfather” obteve 7 Óscares (Filme, Realizador, Actor principal: Marlon Brando, Argumento adaptado, Actores secundários: Al Pacino, James Caan e Robert Duvall), tendo sido nomeado para mais 4 categorias (Guarda-Roupa, Montagem, Som e Música original). Dois anos depois foi a vez de “The Godfather, Part II” arrecadar um total de 8 Óscares (Filme, Realizador, Actor principal: Al Pacino, Actores secundários: Robert De Niro e Michael V. Gazzo, Argumento adaptado, Direcção artística e cenários, e Música original), tendo concorrido em mais 3 categorias (Actor secundário: Lee Strasberg, Actriz secundária: Talia Shire, e Guarda-Roupa). “The Godfather, Part III” teria um total de 7 nomeações (menos 4 que os filmes anteriores): Filme, Realizador, Actor secundário (Andy Garcia), e ainda Montagem, Música Original e Direcção artística e cenários. Não ganhou nenhum Óscar.


- Na cerimónia de 1973, Marlon Brando recusou a estatueta do Oscar em protesto à discriminação contra os índios americanos feita pela indústria do cinema. O actor enviou uma atriz que se passou por uma índia apache e recusou o prémio em seu nome durante a cerimónia.

- Para se preparar para o seu papel, Robert De Niro viveu na Sicília durante 3 meses, onde aprendeu a falar o dialecto siciliano.

- Em algumas cenas que tinham lugar nos anos 20, os actores usaram calças com zippers. Alguém reparou nesse pormenor (o zipper ainda não tinha sido inventado nessa altura) e essas cenas tiveram de ser filmadas de novo.

- Quando o pequeno Vito chega a Ellis Island, é marcado com um X dentro de um círculo. Isto acontecia realmente, mas apenas quando se suspeitava que o imigrante tinha um qualquer defeito mental.

- A data de nascimento de Vito Corleone é 7 de Dezembro de 1891. Os acontecimentos descritos na trilogia têm lugar entre 1901 e 1997, ano da morte de Michael Corleone.

- Raf Vallone interpreta o Papa João Paulo I, que governou a Santa Sé apenas durante 33 dias: entre 26 de Agosto e 28 de Setembro de 1978 (data da sua morte, em circunstâncias pouco esclarecedoras, de que aliás o último filme dá conta).



- Pela sua interpretação em “The Godfather, Part III”, Sofia Coppola foi “distinguida”, por larga maioria (65% dos votos), com 2 Razzie Awards (Actriz secundária e Nova actriz), prémios atribuídos aos piores filmes do ano.

- Depois da rodagem do primeiro filme, em 1972, Al Pacino e Diane Keaton tiveram um romance durante alguns anos. A relação acabou pelo facto de Pacino não se querer comprometer oficialmente. Essa ligação teve relevância na actuação dos dois actores em “The Godfather, Part III”, devido às suas personagens também se encontrarem separadas há longos anos.

- A personagem de Tom Hagen, interpretada por Robert Duvall nos dois primeiros filmes, era para ser mantida na terceira parte. Mas a Paramount não acedeu à exigência do actor (que pediu 5 milhões de dólares para retomar o seu papel), e criou um novo Consiglieri, o advogado B.J. Harrison, que seria interpretado por George Hamilton. Numa linha de diálogo, explicava-se que Hagen tinha falecido alguns anos antes.

- Os actores Alec Baldwin, Matt Dillon, Val Kilmer, Charlie Sheen, Billy Zane e Nicolas Cage, foram todos equacionados para o papel de Vincent Mancini, que acabou por ser entregue a Andy Garcia.


- A celebridade dos filmes da trilogia deveu-se também, em grande parte, à excelência dos diálogos e sobretudo a algumas expressões:

Bonasera: «I believe in America. America has made my fortune»

Don Corleone: «You look terrible. I want you to eat, I want you to rest well. And a month from now this Hollywood big shot's gonna give you what you want»
Johnny Fontane: «Too late. They start shooting in a week»
Don Corleone: «I'm gonna make him an offer he can't refuse. Okay? I want you to leave it all to me. Go on, go back to the party»

Michael: «My father is no different than any powerful man, any man with power, like a president or senator»
Kay: «Do you know how naive you sound, Michael? Presidents and senators don't have men killed»
Michael: «Oh. Who's being naive, Kay?»

Clemenza: «Leave the gun. Take the cannoli»

Carlo: «In Sicily, women are more dangerous than shotguns»

Michael: [speaking to Carlo] «Only don't tell me you're innocent. Because it insults my intelligence and makes me very angry»

Michael: «My father taught me many things here - he taught me in this room. He taught me: keep your friends close, but your enemies closer»


Michael: «I know it was you, Fredo. You broke my heart. You broke my heart!»

Connie: «Michael, I hated you for so many years. I think that I did things to myself, to hurt myself so that you'd know - that I could hurt you. You were just being strong for all of us the way Papa was. And I forgive you. Can't you forgive Fredo? He's so sweet and helpless without you. You need me, Michael. I want to take care of you now»

Michael: «Never hate your enemies. It affects your judgment»

Vincent: «I am your son. Command me in all things»
Michael: «Give up my daughter. That is the price you pay for the life you choose»

Michael: «Never let anyone know what you are thinking»

Mary: «I'll always love you»
Vincenti: «Love somebody else»

Michael: «Goodbye my old friend. You could have lived a little longer, I could be closer to my dream»

PORTFOLIO: