sexta-feira, julho 31, 2015

BIO-FILMO: LEE MARVIN

Nascido a 19/2/1924, em Nova Iorque, EUA
Falecido a 29/8/1987, em Tucson, Arizona, EUA

Ele era um bêbado incorrigível, dentro e fora dos écrans, e entrou nos filmes mais violentos da sua época. Mas primeiro e acima de tudo, Lee Marvin foi um actor fantástico e um dos mais cool que o cinema nos deu a conhecer. Lembrado pelas muitas personagens de “durões” que interpretou ao longo de 4 décadas (dos anos 50 aos anos 80), a sua época de “ouro” centra-se na segunda metade dos anos 60, na qual se inserem os seus filmes mais famosos: “Cat Ballou” (1965) (que lhe trouxe o seu único Óscar, bem como o Globo de Ouro na categoria de actor principal), “The Ship Of Fools” (1965) (uma magnífica interpretação, destacando-se de um grande lote de actores consagrados), “The Dirty Dozen” (1967) (talvez o filme mais popular de todos, mas que Marvin detestava por achá-lo uma fraca caricatura da guerra), “Point Blank” (1967) (um dos seus papeis mais marcantes)  ou “Paint Your Wagon” (1969) (uma deliciosa comédia musical, ao lado de Clint Eastwood e Jean Seberg, onde interpreta um dos maiores hits daquele ano, “Wandrin’ Star”).


Filho de um publicitário e de uma designer de moda, Lee Marvin nasceu em Nova Iorque, a 19 de Fevereiro de 1924 (o nome “Lee” foi-lhe atribuído em honra do general confederado Robert E. Lee), e começou bem cedo a fazer jus à fama de “macho”, ao ser expulso de várias escolas durante a juventude. Nos inícios da 2ª Guerra Mundial, Lee Marvin alistou-se no Corpo de Fuzileiros Navais, sendo ferido com alguma gravidade em Junho de 1944, durante a batalha de Saipan. Passou o resto da guerra em convalescença, na sua cidade natal, onde mais tarde conseguiu o primeiro emprego como aprendiz de canalizador, em Woodstock. Essa profissão levá-lo-ia um dia a reparar as instalações sanitárias de um teatro, onde se manifestou a sua paixão pelas luzes da ribalta. Chegou a substituir um actor doente durante um ensaio, e, pouco depois, começou a frequentar um curso de representação, o que o levou a desempenhar pequenos papeis em produções teatrais e também televisivas.


No início dos anos 50, já casado com a sua primeira mulher, Elizabeth (que lhe daria 4 filhos), Lee Marvin mudou-se para Hollywood e as suas participações em filmes não pararam de crescer, quer em quantidade quer em importância, tornando-o, pouco a pouco, num actor bastante conhecido, sobretudo em papeis de “vilão”, e também por causa da sua aparência física, que o cabelo grisalho prematuro evidenciava ainda mais. O primeiro filme em que participou como actor principal foi “Eight Iron Man” (1952), de Edward Dmytryk. Seguiu-se “The Big Heat” (1953), um filme realizado pelo prestigiado Fritz Lang, que o ajudaria a cimentar ainda mais a sua imagem de marca. Durante toda a década de 50, Lee Marvin participou também em inúmeras séries televisivas, a mais célebre das quais foi “M Squad” (1957-1960), onde desempenhou o papel do detective Frank Ballinger em mais de 100 episódios.


“The Killers” (1964), de Don Siegel, seria o seu primeiro papel importante da nova década de 60 e no ano seguinte receberia o seu único Óscar (e também o Globo de Ouro) pela sua interpretação de um pistoleiro em constante estado de embriaguez no filme “Cat Ballou” (1965), no qual contracenava com Jane Fonda. Outros prémios atribuídos durante a sua carreira poderão ser conferidos aqui. Lee Marvin, que nunca foi uma pessoa sentimental, guardava apenas 4 recordações da sua carreira: A estatueta do Óscar («I think half of this belongs to a horse somewhere out in the [San Fernando] Valley», foi uma das frases com que brindou o público) a distinção que recebeu do National Cowboy Hall of Fame pelo filme “The Man Who Shot Liberty Valance” (1962), o Disco de Ouro pela venda de 1 milhão de exemplares da canção “Wandrin’ Star” e o sapato de salto alto com que a actriz Vivien Leigh o agrediu no filme The Ship Of Fools” (1965).


A grandeza de um actor também se mede pelos papeis a que diz não. E ao longo da sua carreira, Lee Marvin recusou entrar, por motivos diversos, em muitos filmes que se tornariam grandes êxitos de bilheteira: “Per Qualche Dollaro In Piú” (1966), “The Wild Bunch” (1969), “Patton” (1970), “Dirty Harry” (1971), “The French Connection” (1971), “Deliverance” (1972), “Salvador” (1986), foram alguns desses filmes. Depois de em Dezembro de 1986 ter sido submetido a uma intervenção cirúrgica abdominal, Lee Marvin foi hospitalizado no Tucson Medical Center, no Arizona, em 13 de Agosto de 1987, por causa de uma gripe. Quinze dias depois o actor viria a falecer de um ataque cardíaco fulminante. Tinha apenas 63 anos (vivia desde 1970 com a segunda mulher, Pamela) e foi sepultado junto ao boxeur Joe Louis, no cemitério nacional de Arlington.


FILMOGRAFIA:

1986 – The Delta Force / Força Delta
1984 – Canicule (Dog Day) / Ventos de Violência
1983 – Gorky Park / O Mistério de Gorky Park
1981 – Death Hunt / Caçada Implacável
1980 – The Big Red One / O Sargento Da Força Um


1979 – Avalanche Express / O Expresso Avalanche
1976 – The Great Scout & Cathouse Thursday / Barafunda No Faroeste
1976 – Shout At The Devil / Armadilha Internacional
1974  Apache Chronicle
1974 – The Klansmen / O Homem Do Klan
1974 – The Spikes Gang / A Quadrilha De Spikes
1973 – The Iceman Cometh / O Homem De Gelo
1973 – Emperor Of The North Pole / Desafio De Gigantes
1972 – Pocket Money / Dinheiro Trocado
1971 – Prime Cut / Carne De Primeira
1970 – Monte Walsh / Um Homem Difícil De Morrer


1969 – Paint Your Wagon / Os Maridos De ElizabethNomeado para o Globo de Ouro
1968 – Hell In The Pacific / Duelo No Pacífico
1967  Sergeant Ryker / Sargento Ryker
1967 – Point Blank / À Queima-Roupa
1967 – The Dirty Dozen / Doze Indomáveis Patifes
1966 – The Professionals / Os Profissionais
1965 – Ship Of Fools / A Nave Dos Loucos
1965 – Cat Ballou / Mulher FelinaVencedor de 1 Óscar e de 1 Globo de Ouro
1964 – The Killers / Contrato Para Matar
1963 – Donovan’s Reef / A Taberna Do Irlandês
1963  The Americanization Of Emily / Herói Precisa-se
1962 - The Man Who Shot Liberty Valance / O Homem Que Matou Liberty Valance
1961 – The Comancheros / Os Comancheros
Na série televisiva "M SQUAD"





1958 – The Missouri Traveler / O Viajante Do Missouri
1957 – Raintree County / A Árvore Da Vida
1956 – The Rack / Suplício
1956 – Pillars Of The Sky / Pilares Do Céu
1956 – Attack / Ataque
1956 – Seven Men From Now / Sete Homens Para Matar
1955 – Shack Out On 101
1955 – I Died A Thousand Times / Morri Mil Vezes
1955 – Pete Kelly’s Blues / Melodia Negra
1955 – A Life In The Balance / Entre A Vida E A Morte
1955 – Not As A Stranger / Médico E Só Médico
1955 – Violent Saturday / Sábado Trágico
1955 – Bad Day At Black Rock / A Conspiração Do Silêncio


1954 – The Raid / A Ferro E Fogo
1954 – The Caine Mutiny / Os Revoltados Do Caine
1954 – Gorilla At Large / O Gorila À Solta
1953 – The Wild One / O Selvagem
1953 – Gun Fury / A Fúria Das Armas
1953 – The Big Heat / Corrupção
1953 – The Stranger Wore A Gun / O Forasteiro Estava Armado
1953 – The Glory Brigade / A Brigada Da Glória
1953 – Seminole / Massacre
1952 – Eight Iron Men / Oito Homens De Ferro
1952 – Hangman’s Knot / O Laço Do Carrasco
1952 – The Duel At Silver Creek / A Cidade Do Pecado
1952 – We’re Not Married! / Não Estamos Casados (não creditado)
1952 – Diplomatic Courier / Correio Diplomático (não creditado)
1952 – Hong Kong (não creditado)
1951 – Dawn Among The Sheltering Palms (Friendly Island) / A Ilha Do Amor
1951 – Teresa (não creditado)
1951 – You’re On The Navy Now / Marinheiros De Água Doce (não creditado)

quarta-feira, julho 29, 2015

POINT BLANK (1967)

À QUEIMA-ROUPA
Um filme de JOHN BOORMAN



Com Lee Marvin, Angie Dickinson, John Vernon, Keenan Wynn, Carrol O'Connor, Lloyd Bochner, Michael Strong, Sharon Acker, etc.

EUA / 92 m / COR / 16X9 (2.35:1)

Estreia nos EUA: 30/8/1967
Estreia em PORTUGAL: Lisboa (cinemas Condes e Roma) 18/5/1968

À primeira vista, tudo nos diz que se trata de uma simples história de gangsters. A publicidade é quase isso que sugere, a figura de Lee Marvin não a desmente. A história é tradicional (extraída de um romance de 3.a ordem de Richard Stark) - Walker participa num assalto a convite do seu melhor amigo, Mal Reese (John Vernon, na sua estreia no cinema). Um desentendimento de processos cria a ocasião: Walker é traído pelo amigo, que o deixa quase morto, e pela mulher, que o abandona. Mas Walker resiste, recusa a morte. E lentamente, reconstruíndo-se como rosto, reconstruíndo-se como corpo, reajustando os fragmentos duma experiência interrompida, recompondo a realidade desfeita, lentamente Walker regressa, lentamente prepara a vingança. É essa peregrinação solitária, ou quase, que o filme nos descreve: furiosa, obsessiva restituição das coisas à sua verdade justa. A traição desequilibrara os eixos da realidade. Walker percorre o real (corredores, ruas, cidades) para lhe atribuir o equilíbrio perdido. Lutando contra uma engrenagem que o despreza e ignora, WaIker opõe-lhe o desespero da sua solidão. Mas (sabemos nós) ao lutar  contra a engrenagem é a engrenagem que o move; a sua vingança, livremente executada, teve afinal a necessidade de um mecanismo de precisão. Novamente a realidade se desequilibra, novamente ela se estilhaça: mas Walker descobriu no amor o eixo frágil mas imenso duma verdade suspensa.


Se quisermos fazer o elogio de "À Queima-Roupa" teremos de analisar os vários elementos que contribuem para a sua qualidade. Em primeiro lugar, este filme tem um peso específico, uma textura própria, que o torna denso e opaco. As imagens nunca estão reduzidas à categoria de instrumentos para contar uma história, mas funcionam como pedaços de uma realidade irredutível a qualquer esquematismo ou significação. Cada sequência possui uma força íntima que nos esmaga pela sua energia e riqueza transbordantes. Dos objectos aos rostos, dos gestos às palavras, tudo tem a medida exacta da realidade. Mas esta realidade não é a realidade imediata: é uma realidade construída, é o produto da complexa elaboração de mil factores que a transformam em presença e enigma, em nudez e dissimulação. Para tal contribui certamente um apuradíssimo sentido dos ambientes, a espantosa construção de um espaço que nunca é indiferente, que é sempre, na sua asfixia, no seu desacerto ou desvario, uma das personagens nucleares de toda a obra.


Acentuemos ainda os elementos de irrealidade que marcam a primeira parte do filme. Boorman utiliza com mestria uma banda sonora extremamente trabalhada, e o resultado é a desarticulação do real, é a multiplicação do presente numa pluralidade de tempos. Recordando para a vida, Walker não sabe distinguir o presente do passado, o actual da recordação. Isso permite uma desagregação das coordenadas do espaço e do tempo. E uma vez que não há em Walker a mais leve sombra de «vida interior», uma vez que toda a «psicologia» foi banida em benefício duma análise rigorosa dos comportamentos, as recordações não aparecem com a auréola poetizante que lhes é tradicional. A recordação e o presente coexistem, fundem-se, sobrepõem-se numa violência quase insuportável.


Por outro lado, o que nos fascina são as várias obsessões que cortam transversalmente o itinerário linear do filme. A sua insistência acaba por produzir um clima ambíguo, mórbido, exaltante, sedutor, terrível na sua intensidade. De uma boite  enlouquecedora a um corredor sem fim, de uma multidão que é preciso atravessar às águas como obstáculo a transpor, do encontro serenamente desenhado pelo vento ao grito selvagem da separação e da morte, em tudo este filme nos perturba, e envolve, e enleia. Acrescentemos ainda que Boorman soube reduzir as personagens às suas dimensões físicas, destituindo-as de qualquer dimensão «psicológica». E é nessa redução que elas se humanizam, que elas se esquivam aos modelos do drama tradicional e se nos impõem na sua ambiguidade inteiriçada e convulsiva. Boorman não insufla suplementos de alma aos seus intérpretes; ensina-os a dominarem o corpo, a existirem como corpos que existem num espaço.


Há ainda a violência. Mas essa violência é linguagem. Porque Walker perde o sentido da realidade e só o recupera através da violência. É vê-lo entrar numa casa, de pistola em punho, animal ofegante de espanto, frágil até na sua solidão e desamparo. É vê-lo depois, na cedência do amor (que é um desvio que pode dar sentido a esse plano), na fadiga das cenas finais, no seu olhar exausto. Walker utiliza a violência como a única linguagem de que dispõe para reconstítuir o seu mundo. E se disséssemos também que "À Queima-Roupa" é um filme feito de ternura, com a presença obsessiva do mar, com a ondulação dos gestos, com a alegria pressentida no traço balanceado da câmara lenta? Porque douce est la parole de l' eau (escreveu um dia Tzara, poeta).


Walker, um dos personagens mais cool da história do cinema, é Lee Marvin, compacto, maciço, esmagador, num desempenho talhado à sua medida. A seu lado, Angie Dickinson, para além de todo o sex-appeal que sempre lhe foi reconhecido, revela-se uma espantosa actriz, especialmente em duas sequências (a cena de amor simulado com Reese e a luta impotente com Walker). Quando os olhos dela se alargam imperceptivelmente em ternura e serenidade, nós sentimos que a sua beleza tem a rara qualidade de nos comover. Há ainda Sharon Acker (a mulher de Walker), com um monólogo esplêndido, pela contenção com que é dito, e pelos silêncios de Lee Marvin, que o entrecortam. É talvez um dos mais belos momentos do filme.


CURIOSIDADES:

- Primeiro filme rodado na ilha de Alcatraz, após o encerramento da prisão em 1963.

- A mansão onde Walker se encontra com Brewster, situa-se em Hollywood Hills, e foi alugada de propósito para o filme. Foi nesta mesma casa que Os Beatles se hospedaram quando visitaram Los Angeles. O nome da rua inspirou uma canção dos Fab 4: "Blue Jay Way", composta por George Harrison em 1967.

- Este mesmo argumento, da autoria de Richard Stark (pseudónimo de Donald E. Westlake), daria origem a outro filme em 1999: "Payback (A Vingança)", dirigido por Brian Helgeland e com Mel Gibson no protagonista principal.


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segunda-feira, julho 27, 2015

BIO-FILMO: STEVE McQUEEN

Nascido a 24 de Março de 1930, em Beech Grove, Indiana, EUA
Falecido a 7 de Novembro de 1980, na Cidade de Juarez, México
«I live for myself and I answer to nobody»

Juntamente com Marlon Brando e Paul Newman, Steve McQueen foi justamente considerado como o actor-referência das décadas de 60 e 70, chegando a ser o mais bem pago de todos. Surgido ainda nos anos 50, McQueen trouxe consigo a rebeldia de um James Dean, parte integrante de um comportamento marginal regulado por um código moral e ético de contornos muito pessoais. «Sou um fazedor de filmes», afirmaria, «quero o respeito da indústria, mas na minha própria mente não estou seguro de que actuar seja uma coisa para um homem crescido fazer». Alguns anos antes de Hollywood lhe dar a liberdade ambicionada, Steve não passava de um delinquente juvenil que corria em motocicletas aos fins-de-semana para poder angariar algum dinheiro que lhe permitisse sobreviver. A sua vida foi sempre pautada por uma série de contradições. No auge da fama, procurava o anonimato e o isolamento. Tendo aprendido a representar pelo método do Actor’s Studio, desbaratou toda essa formação na criação das suas personagens que, em última análise, apareciam sempre imbuídas da sua marca única.


Terrence Steve McQueen nasceu em Beech Grove, Indiana, a 24 de Março de 1930. Ainda antes de completar o primeiro ano de vida, Steve viu a mãe, alcoólica, ser abandonada pelo pai, um ex-piloto acrobático, o que o conduziu a uma quinta no Missouri, para ser educado por um tio. Oito anos depois a mãe casa-se pela segunda vez e vai buscar a criança para viver com ela e com o padrasto em Los Angeles. Mas Steve rapidamente se torna num delinquente, o que o leva a ser internado num reformatório juvenil, o California Boys Republic. Em 1947, com dezassete anos, abandona de vez os estudos e alista-se na marinha mercante. Segue-se o serviço militar de três anos na US Marine Corps.


Sem saber muito bem o que fazer na vida, Steve vai para Nova Iorque no princípio da década de 50, onde se ocupa em variadissimos empregos, cada um mais provisório do que o precedente – é jornaleiro, reparador de televisões, jogador, piloto de motocicletas, chauffeur de taxis. Em 1952, e por influência de um amigo, começa a interessar-se pela arte de representar; frequenta a Sanford Meisner’s Neighborhood Playhouse, sendo pouco depois aceite no lendário Actor’s Studio, de Lee Strasberg, onde conhece alguns dos futuros grandes actores do cinema. Em 1956 estreia-se na Broadway, ao substituir à última da hora Ben Gazzara na peça “A Hatful of Rain”. Nesse mesmo ano tem um pequeno papel no cinema, ao lado de Paul Newman, no filme “Somebody Up There Likes Me”, e conhece a bailarina Neile Adams, com quem se casa.

Em 1958, depois de mais algumas representações em palco, McQueen entra num episódio da série televisiva “Trackdown”. Esse episódio, intitulado “The Bounty Hunter”, dá origem a uma nova série sobre um caçador de prémios no velho Oeste, Josh Randall, personagem que irá ser interpretada por Steve McQueen ao longo de 94 episódios de cerca de meia hora cada um (a série acaba em 1961). O fotógrafo William Claxton, futuro amigo de McQueen, recorda como conheceu o actor: «Certa noite, pouco tempo depois de me casar, estava em casa com a minha mulher, no nosso exíguo estúdio de Hollywood Hills. Liguei o pequeno televisor a preto e branco – estava a dar uma cena de perseguição com cowboys a cavalo. “Que porcaria!”, pensei eu. Os westerns nunca tiveram qualquer significado para nenhum de nós, a não ser em casos muito especiais. Subitamente, apareceu no minúsculo écran um grande plano de um rosto. Um rosto invulgar. Era um cowboy completamente diferente. Em apenas um grande plano, aquele sujeito conseguia transmitir seis ou sete emoções, por vezes contraditórias, e pensamentos aparentemente profundos. Ele era simultaneamente interessante, invulgar, cativante e sensível. Tinha um aspecto áspero, era realmente diferente, mas dono de uma elegância pouco convencional. Era o Steve McQueen, e o programa que passava na TV era o “Wanted: Dead or Alive”».


Ainda naquele ano de 1958 McQueen roda o seu primeiro filme como actor principal, “The Blob”, hoje em dia considerado um filme de culto da ficção científica. Mas é na remake americana “The Magnificent Seven” do filme japonês “The Seven Samurais”, de Akira Kurosawa, que se inicia a sua rápida ascensão ao estrelato, objectivo atingido apenas três anos depois quando protagoniza o mega-sucesso “The Great Escape”, pelo qual o Festival Internacional de Moscovo o distingue como melhor actor do ano. A partir daqui, e até ao final dos anos 60, a fama de McQueen consolida-se através dos seus papeis mais carismáticos, que fazem dele um dos mais lendários actores do cinema americano. Em 1961 cria a sua própria empresa de produção, a Solar Productions. É nomeado quatro vezes para o Globo de Ouro: “Love with the Proper Stranger” (1963); “The Sand Pebbles” (1966);  “The Reivers” (1969) e “Papillon” (1970), mas desta instituição recebe apenas, por duas vezes (1967 e 1970), o Henrietta Award, troféu destinado a consagrar o actor mais popular a nível mundial. É ainda nomeado para o Oscar de melhor actor principal pelo filme “The Sand Pebbles” (1966).


Amigo pessoal de Sharon Tate, tinha sido convidado para jantar em casa da então mulher de Roman Polanski quando esta foi brutalmente assassinada pelo clã de Charles Manson, a 9 de Agosto de 1969. Posteriormente, McQueen viria a ter conhecimento que o seu nome se encontrava no topo da lista do assassino como alvo prioritário a abater. Com o início dos anos 70 chegam também os primeiros insucessos no box-office: “The Reivers”, “Le Mans” e “Junior Bonner” não conseguem atingir o êxito espectacular dos seus filmes precedentes. No entanto, “The Getaway”, um emocionante thriller de Sam Peckinpah, volta a ser um grande sucesso de bilheteira. É durante as filmagens deste filme que nasce o tumultuoso romance entre McQueen e Ali MacGraw, a inesquecível intérprete de “Love Story”, que porá termo aos 15 anos de casamento com Neile Adams. O casal divorcia-se em Abril de 1972 e McQueen casa-se com Ali um ano depois, em Agosto de 1973 – a união durará cerca de cinco anos.


Em 1974 McQueen recebe 1,5 milhão de dólares e mais 10% nas receitas, para rodar o filme-catástrofe “The Towering Inferno”, ao lado de Paul Newman e Faye Dunaway. Mesmo assim uma quantia inferior à que recebera por “Papillon” no ano anterior. Será o seu último e grande sucesso, que lhe permitirá retirar-se temporariamente do mundo do cinema. O regresso só acontecerá quatro anos depois com a adaptação, por Arthur Miller, da peça de Ibsen, “An Enemy of the People”, onde, para além de actor principal é também produtor executivo. Estreado um ano depois de se encontrar concluído, o filme revelar-se-ia uma decepção, quer junto à crítica quer junto ao público. E, no entanto, ao longo da sua carreira, McQueen recusaria muitas dezenas de papeis em filmes que posteriormente seriam grandes sucessos no box-office. Aqui ficam alguns exemplos: “Bob & Carol & Ted & Alice” (1969), “Butch Cassidy and the Sundance Kid” (1969), “The French Connection” (1971), “Dirty Harry” (1971), “One Flew Over The Cuckoo’s Nest” (1975), “Missouri Breaks” (1976), “A Bridge Too Far” (1977), “Close Encounters of the Third Kind” (1977), “Superman” (1978), “Apocalypse Now” (1979).


Já divorciado de Ali MacGraw, McQueen compra em 1979 um rancho em Santa Paula, para onde se muda com a modelo Barbara Minty, que viria a ser a sua última mulher. Alguns dias antes do Natal desse ano é-lhe diagnosticado um cancro avançado nos pulmões devido à exposição ao amianto. Em 1980 estreiam-se os seus derradeiros filmes, “Tom Horn” e “The Hunter”, mas o actor encontra-se já em plena fase de combate ao mal que o afecta. Falhados todos os tratamentos convencionais, McQueen vai para Juarez, no Mexico, afim de se submeter a algumas cirurgias experimentais. Estas são bem sucedidas mas o coração do actor não aguenta o esforço. Steve McQueen vem a morrer a 7 de Novembro de 1980, vítima de dois ataques cardíacos sucessivos. Foi cremado, tendo as suas cinzas sido espalhadas no Oceano Pacífico. Tinha 50 anos.


Hoje, mais de um quarto de século após o seu desaparecimento, Steve McQueen é ainda uma estrela. Os seus filmes continuam a ser vistos e revistos por sucessivas gerações de cinéfilos e a sua imagem é de tal maneira ainda apelativa que se fazem spots publicitários com ela, quer seja para promover um certo tipo de vodka ou um novo modelo Mustang. Artistas da música pop compõem canções sobre ele (Sheryl Crow chegou a ganhar um Grammy) e a marca McQueen continua a vender de tudo um pouco, desde perfumes a relógios de desporto. Se por acaso ele aparecesse por aí era bem capaz de esboçar um sorriso trocista e proferir aquela célebre frase de “Papillon”: «Hey you bastards, I'm still here!»




FILMOGRAFIA:

1980 – The Hunter / Caça ao Homem
1980 – Tom Horn / Tom Horn, o Cowboy
1978 – An Enemy of the People / O Inimigo do Povo
1974 – The Towering Inferno / A Torre do Inferno
1973 – Papillon
1972 – The Getaway / Tiro de Escape
1972 – Junior Bonner / Júnior Bonner, O Último Brigão
1971 – Le Mans
1969 – The Reivers / Os Ratoneiros
1968 – Bullitt
1968 – The Thomas Crown Affair / O Grande Mestre do Crime
1966 – The Sand Pebbles / Yang-Tsé em Chamas
1966 – Nevada Smith
1965 – The Cincinnati Kid / O Aventureiro de Cincinnati
1965 – Baby the Rain Must Fall / Errando Pelo Caminho
1963 – Love with the Proper Stranger / Amar Um Desconhecido
1963 – Soldier in the Rain / Soldado à Chuva
1963 – The Great Escape / A Grande Evasão
1962 – The War Lover / O Homem Que Gostava da Guerra
1962 – Hell Is for Heroes! / O Inferno é para os Heróis
1961 – The Honeymoon Machine / O Jogo do Amor
1960 – The Magnificent Seven / Os Sete Magníficos
1959 – Never so Few / Quando Explodem as Paixões
1959 – The Great St. Louis Bank Robbery
1958 – The Blob / Fluído Mortal
1958 – Never Love a Stranger / Não Ames Um Desconhecido
1956 – Somebody up there Likes Me / Marcado pelo Ódio



sábado, julho 25, 2015

THE GREAT ESCAPE (1963)

A GRANDE EVASÃO
Um filme de JOHN STURGES



Com Steve McQueen, James Garner, Richard Attenborough, James Donald, Charles Bronson, Donald Pleasence, James Coburn, Hannes Messemer, David McCallum, Gordon Jackson, John Leyton, Angus Lennie, Nigel Stock


EUA / 172 min / COR / 16X9 (2.35:1)


Estreia na GB a 20/6/1963 (Londres)
Estreia nos EUA a 4/7/1963
Estreia em Portugal a 3/10/1963


Hilts: «I haven't seen Berlin yet, from the ground or from the air,
and I plan on doing both before the war is over»

Baseado em factos verídicos relatados no livro de Paul Brickhill (piloto australiano cujo Spitfire foi abatido em Março de 1943 quando sobrevoava a Tunísia, tendo sido levado prisioneiro para Stalag Luft III, campo localizado perto da cidade polaca de Sagan), “The Great Escape” é um dos melhores filmes (pessoalmente considero-o mesmo o melhor de todos) feitos com a 2ª Guerra Mundial como pano de fundo. Uma constelação de estrelas masculinas (não existe uma só personagem feminina durante todo o filme) liderada pelo carismático Steve McQueen, uma banda sonora inesquecível de Elmer Bernstein (cujos acordes iniciais do tema principal identificam de imediato o filme) e uma realização segura e eficaz de John Sturges, o realizador de “The Magnificent Seven”, fazem deste filme um fabuloso entretenimento, capaz de resistir heroicamente à passagem dos anos.


Já há mais de meio século que “The Great Escape” se estreou nos cinemas de todo o mundo; mas toda essa temporalidade não é suficiente para o afastar da memória de quantos tiveram a sorte de a ele assistirem num grande écran de cinema, tal como aconteceu comigo, em 1967. Tinha 14 anos nessa altura e vi o filme, numa reprise, a 1 de  Outubro, no cinema Infante, em Lourenço Marques. Nessa idade de transição não havia filme melhor para nos divertirmos numa sala escura – era o espectáculo total, grande em tamanho, grande em excitação, que nos deixava empolgados durante cerca de três horas a fio.


“The Great Escape”, nos seus 172 minutos de duração, encontra-se dividido em três partes distintas: a preparação da fuga (onde nos vamos familiarizando com os principais intervenientes), o processo da fuga propriamente dito (com todas as imprevisibilidades de última hora) - historicamente levada a cabo a 24 de Março de 1944 - e o dia seguinte à grande evasão (onde conheceremos o destino dos 76 homens que conseguiram escapar do campo de prisioneiros). De salientar que a acção se desenrola efectivamente num mero campo de prisioneiros ( e não num campo de concentração ou extermínio), onde apesar de toda a vigilância a Convenção de Genebra de 1929 ainda era respeitada, o que até certo ponto explica o êxito da fuga.


Das três partes acima referidas, a última é certamente a mais excitante, com o acompanhamento (em montagem paralela, uma técnica aliás presente em quase todo o filme) do destino  de grande parte dos evadidos. Por terra, mar e ar, todas as opções para atingir a liberdade eram plausíveis, bem como o tipo de transporte utilizado: comboio, barco a remos, bicicleta, avioneta ou motorizada, tudo era passível de ser transformado num veículo práctico para se conseguir atingir o objectivo comum. Neste último caso (a fuga de Steve “Cooler King” McQueen) temos até direito a uma das mais famosas sequências da história do cinema que inclusivé confere a “The Great Escape” o justo epíteto de filme lendário.


Não me custa nada a acreditar que para as novas gerações de cinéfilos “The Great Escape” (sobretudo o primeiro terço do filme), possa ser considerado longo e entediante. Efectivamente hoje em dia não haveria tempo a perder com detalhes, com planificações, com caracterização de personagens. Fosse “The Great Escape” um filme realizado na actualidade e seria certamente mais um dos chamados blockbusters, em que a sequência da evasão ocorreria logo a cerca de vinte minutos do início, para assim se começarem rapidamente a mostrar os inevitáveis efeitos digitais. Por outro lado, o cast seria maioritariamente americano e abrangeria todo o tipo de raça, côr e credo, de modo a ser politicamente correcto. E com certeza absoluta seria inventado pelo menos um personagem feminino, interpretado por uma qualquer actriz de referência, preferencialmente já nomeada para os Óscares.


Fosse “The Great Escape” um filme realizado na actualidade e até o final seria provavelmente alterado, contornando-se a verdade histórica de modo a que o maior número possível de fugitivos pudesse alcançar a liberdade. Mas não sem antes de mais uma série de violentos confrontos com os alemães ter lugar e assim dar aso a serem mostrados mais uns quantos efeitos de pirotecnia gratuita. Por outro lado, o desenrolar do filme não se passaria maioritariamente no interior do campo, seriam certamente introduzidos alguns episódios extra a serem intercaladamente mostrados noutros cenários, de modo a não cansar o espectador. Mas ainda bem que tudo isto não passa de conjecturas, ainda bem que “The Great Escape” foi na verdade, e felizmente, realizado em 1963. Não o tivesse sido e com toda a certeza não se teria tornado no clássico que hoje é, uma das maiores referências do filme de guerra e, porque não, do filme de aventuras também.

CURIOSIDADES:

- O filme foi inteiramente rodado na Europa, tendo o campo de prisioneiros sido construído perto de Munique. Todas as cenas da célebre sequência da motorizada foram filmadas em Fussen, junto aos Alpes e da fronteira com a Áustria. Para as filmagens de interiores usaram-se os estúdios Bavaria em Munique

- A principal razão pela qual Steve McQueen aceitou protagonizar o papel principal foi a de poder ser ele próprio a interpretar as cenas da fuga em motorizada (uma Triumph TR6 Trophy, modelo preferido do actor). Aliás, não se limitou à sua personagem – é ele também que está aos comandos da motorizada do alemão que em certa altura o persegue. Ou seja, McQueen atrás de McQueen. Exceptua-se o salto sobre a cerca que John Sturges não permitiu ao actor realizar, e que por isso foi executada pelo duplo Bud Ekins (numa Thunderbird Triumph de 1962 modificada para ter um aspecto mais antigo), o qual ganhou grande notoriedade por essa façanha – viria a dobrar de novo McQueen cinco anos depois, no filme “Bullitt”


- Charles Bronson foi mineiro antes de abraçar a carreira de actor. Por isso utilizou toda a experiência da anterior profissão na rodagem das cenas do seu personagem no filme. Inclusivé a claustrofobia, de que na realidade padecia mesmo. Durante a produção Bronson apaixonou-se por Jill Ireland, na altura mulher de David McCallum. Quatro anos depois viriam a casar-se.

- Steve McQueen chegou a ser detido numa operação stop que a polícia alemã levou a cabo perto do local de filmagens. Não tendo sido reconhecido de imediato, o actor ainda passou algumas horas na prisão, antes que alguns elementos da produção o tivessem ido buscar.

- De todos os actores intervenientes no filme, apenas dois se encontram ainda vivos: David McCallum (81 anos) e John Leyton (76 anos)

- O actor britânico Donald Pleasence foi na realidade um piloto da Royal Air Force durante a 2ª Guerra Mundial. Chegou mesmo a ser abatido e feito prisioneiro de guerra, tendo inclusivé sofrido algumas sevícias. Renitente ao princípio, John Sturges acabou por aceitar algumas sugestões do actor para a rodagem do filme. Também Richard Attenborough foi piloto da RAF durante a guerra.




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