domingo, fevereiro 27, 2011

HAUTE TENSION (2003)

ALTA TENSÃO
Um filme de ALEXANDRE AJA




Com Cécile De France, Maïwenn Le Besco, Philippe Nahon, Franck Khalfoun, Andrei Finti, Oana Pellea


FRANÇA / 91 min / COR / 16X9 (2.35:1)


Estreia em França a 18/6/2003
Estreia nos EUA a 17/1/2004
(Sundance Film Festival)
Inédito comercialmente em Portugal




Marie: «Je ne laisserai plus jamais personne se mettre entre nous»

Segunda longa-metragem realizada aos 25 anos pelo francês Alexandre Aja, “Haute Tension” (“Switchblade Romance” na Grã-Bretanha) veio injectar novo sangue no género do horror, ao regressar à fórmula que tanto êxito obteve nos hoje chamados clássicos dos anos 70. No domínio desse tipo de filmes, a década de setenta foi sem dúvida um tempo de transformação. Esgotados e transfigurados alguns dos grandes mitos do passado (Drácula, Frankenstein, The Wolf Man...), nova galeria de inquietantes personagens se lhes veio acrescentar. Muitas delas nada trouxeram de novo, mas houve alguns filmes conotados como de série B que justificaram a descoberta do novo filão. Dois dos mais emblemáticos foram “The Last House on the Left” (1972), de Wes Craven e The Texas Chainsaw Massacre”, de Tobe Hooper (1974), nos quais este “Haute Tension” vai directamente beber nítidas influências.

Raramente um filme correspondeu tão bem ao seu título – estamos efectivamente em presença de uma tensão muito alta, que se inicia pouco depois do prólogo e que só nos permite voltar a respirar normalmente mesmo no fim do filme. Marie (Cécile De France) vai com a sua amiga Alex (Maïwenn Le Besco) para a casa de campo da família desta última. O objectivo é aproveitaram a pacatez e o isolamento do local para porem os estudos em dia. Mas logo na primeira noite entra em cena um assasino psicopata que chacina brutalmente os pais, o irmão mais novo e o cão de Alex, abandonando a casa com esta última como prisioneira na caixa da sua furgoneta. Marie, que durante toda a carnificina se consegue furtar à atenção do assassino,  introduz-se na furgoneta a tempo de acompanhar a amiga e tentar desse modo livrá-la de uma morte anunciada.

A grande força de “Haute Tension” é portanto a capacidade de reavivar imagens e sensações há muito esquecidas pelos apreciadores do género. Com um ritmo avassalador que não perde tempo a parodiar o que quer que seja (infelizmente uma das características mais comuns dos filmes actuais do género), Alexandre Aja presta uma homenagem ao cinema que provavelmente o aterrorizou enquanto jovem. De realçar o trabalho de Cécile de France – uma das novas coqueluches do cinema francês – na composição da personagem à volta da qual todo o filme se constrói, conferindo-lhe um grande vigor e sensualidade. É justamente nesse erotismo perturbador que “Haute Tension” joga os seus melhores trunfos, ao utilizar o sangue como elemento sexual, revelador último do carácter da jovem virgem.

Tecnicamente irrepreensível, com uma fotografia exuberante e uma banda-sonora apropriada (é de destacar aqui o êxito italiano dos Ricchi e Poveri, “Sarà Perché Ti Amo” e o tema “A Toutes Les Filles Que J’ai Aimé Avant”, de Felx Gray e Didier Barbelivian, ambos usados com certos propósitos), é no argumento ou, mais precisamente, nos últimos dez minutos, que “Haute Tension” desilude. Com efeito, a reviravolta introduzida, aquele twist final, deixa muito a desejar. Nem todos os filmes se prestam a “enganar” o espectador, tal como “The Sixth Sense” de Night Shyamalan o fazia exemplarmente.

Neste caso julgo que ninguém embarcará de ânimo leve na “revelação-surpresa”, nem mesmo após uma segunda e atenta visão do filme – as pontas soltas são em demasia para que até o mais crédulo possa ser convencido. Uma única excepção, a cena da masturbação, ocorrida imediatamente antes da chegada do assassino à casa, adquire novo significado quando nos encontramos já munidos desse conhecimento adicional. Mas apesar de tudo, este “fim de festa” decepcionante não consegue fazer esquecer tudo o que de bom e excitante “Haute Tension” contém, e que rapidamente o tornou conhecido e referenciado pelos amantes do slasher-movie.

MARTYRS (2008)

MÁRTIRES




Um filme de PASCAL LAUGIER


Com Morjana Alaoui, Mylène Jampanoï, Catherine Bégin, Robert Toupin, Patricia Tulasne, Juliette Gosselin


FRANÇA - CANADÁ / 99 min / COR /
16X9 (1.85:1)


Estreia em França em Maio de 2008
(Festival de Cannes)
Inédito comercialmente em Portugal


Mademoiselle: «Martyrs are exceptional people. They survive pain, they survive total deprivation. They bear all the sins of the earth. They give themselves up. They transcend themselves... they are transfigured»

Começo por confessar a minha ignorância no que respeita ao boom mais ou menos recente do cinema de terror francês. Foi o excelente blogue “My One Thousand Movies” que me chamou a atenção para essa autêntica revelação, pelo que lhe dou já de seguida a palavra: «O cinema de terror francês é actualmente um dos mais violentos e perturbadores, com filmes tensos, carregados de “gore” em argumentos que prendem a atenção e principalmente que ficam na memória do espectador. E também, com algumas excepções, constatamos que o tão badalado e popular cinema americano de terror não tem conseguido nos dias de hoje deixar de ser comum, trivial, repleto de clichês e excessivamente comercial, em detrimento de histórias originais e imagens ousadas de violência gráfica».

Das propostas sugeridas por esse blogue (recomenda-se vivamente uma visita, quer aos apreciadores do género quer quem busca relíquias do cinema em geral), resolvi começar pelo título mais badalado, este “Martyrs” de 2008, que o MOTM considera «um dos melhores filmes de terror dos últimos 10 anos». Em boa hora o fiz, pois na verdade o filme revelou-se uma excelente e original surpresa. A história gira à volta de duas amigas: Lucie (Mylene Jampanoi), que se consegue evadir, logo no início do filme, de um local onde foi vítima de diversas torturas e Anna (Morjana Alaoui), que se tornará o seu único amparo e elo de ligação ao mundo em seu redor. Passados 15 anos, a amizade entre as duas permanece bem forte e íntima, mas Lucie continua a padecer de ataques de auto-mutilação e a sua grande obsessão é a vingança sobre quem lhe destruiu a vida em criança. Essa sede de vingança vem a concretizar-se no assassínio de uma família de quatro membros, mas será que a mente perturbada de Lucie não lhe pregou uma partida na identificação das vítimas?

Volto a citar o MOTM no comentário feito a “Martyrs”: «Dirigido e escrito por Pascal Laugier, o cineasta escolhido para comandar o remake de “Hellraiser” (com previsão de lançamento em 2011), o filme é ultra violento (a cena de vingança com o tiroteio é memorável), sangrento ao extremo (o líquido vermelho banha a tela em demasia), e explora um tema original (depois de ver o filme o espectador refletirá sobre o real significado de “mártir”), através de elementos interessantes que nos remetem a outros filmes como o americano “Hostel”, de Eli Roth, na idéia de uma sociedade secreta com objetivos sinistros, e as películas orientais com fantasmas atormentados, nas cenas de alucinação de uma das personagens. E ainda temos um desfecho adequado, tão perturbador quanto toda a bizarra história que é apresentada. É interessante também notar como os cineastas franceses procuram colocar mulheres como protagonistas, fazendo-as sofrer na carne dores e torturas inimagináveis, transformando-as em mártires literalmente. Altamente recomendável, “Martyrs” é cinema de terror puro, que merece e deve ser respeitado e reverenciado».

Uma última nota sobre a inversão de cumplicidade que o filme procura junto ao espectador. Começamos por nos interessar pela personagem de Lucie por causa do seu abjecto cativeiro, mas à medida que o filme progride é Anna que nos vai despertando um interesse sempre crescente – é na progressão da sua personagem que a nossa atenção se vai focalizando cada vez mais, até o recuo não ser mais possível. Laugier não se contenta em apenas assustar o espectador – vai um pouco mais além, tentando analisar psicologicamente vítimas e algozes, e consegue tudo isso sem cair na tentação de mostrar o óbvio ou o gratuito. “Martyrs” é sem dúvida um filme forte e violento mas deveras interessante, bem servido por interpretações convincentes e que sobretudo não deixará ninguém indiferente ou capaz de esquecê-lo rapidamente.  




quinta-feira, fevereiro 24, 2011

AND THE WINNER TAKES IT ALL!

Sempre que se aproxima uma atribuição dos Óscares pela Academia de Hollywood repete-se o mesmo frenesim, um pouco por toda a parte, como se o cinema começasse e acabasse naquele único momento. Faz tempo que eu ficava acordado madrugada fora para assistir à cerimónia integral dos Óscares. Mas já me deixei disso há vários anos - é que o lado "feira de vaidades" da coisa tem vindo a sobrepôr-se ao lado cinéfilo e sinceramente, esgotou-se-me a paciência. Reconheço o valor do prémio - quanto mais não seja pela sua antiguidade - mas acho que se fala demais. Basta dar uma vista de olhos aí por alguns blogues e o assunto chega mesmo a cansar, tão repetitivo ele se torna. Todo o bloguista que se preze faz as suas apostas, diz das suas preferências, quase sempre com várias semanas de antecedência do “histórico” momento. A Academia deve esfregar as mãos de contente ao constatar tanta publicidade gratuita por essa blogosfera fora. Mas o mais importante quase ninguém refere - é que existem outros prémios no mundo do cinema, de interesse semelhante e que provavelmente não cometem tantas injustiças como as que sempre me lembro de ver nos Óscares. Até os Globos de Ouro, dentro da mesma linha, conseguem ser mais criteriosos. E este ano, como sempre, não foge à regra - dois dos melhores filmes estreados em 2010, "Hereafter" do Eastwood e "The Shutter Island" do Scorsese são tratados abaixo de cão. O primeiro tem apenas uma nomeação - imagine-se! - na categoria de efeitos especiais (só podem estar a gozar ao realçarem esse aspecto do filme). O segundo, então, é pura e simplesmente ignorado. Aliás, quem se der ao trabalho de fazer uma simples pesquisa pela história dos Óscares, verificará certamente que ao longo dos anos os melhores filmes produzidos em Hollywood têm ficado quase sempre de fora.

É por isso que eu nunca atribuí grande importância a esses eventos, Óscares ou quaisquer outros. Valem o que valem, poderão servir de referência, mas nada mais do que isso. Porque em última análise só os premiados lucram (em fugaz notoriedade mas sobretudo monetariamente) alguma coisa com isso. E todos sabemos como funcionam os lobbies, sobretudo em Hollywood. Basta puxarmos um pouco o filme atrás e lembrarmo-nos de alguns nomes nunca agraciados pela Academia. Cito apenas os casos mais flagrantes: Charles Chaplin, Orson Welles, Alfred Hitchcock, Ernst Lubitsch, Howard Hawks, King Vidor, Josef Von Sternberg, Sidney Lumet, Fritz Lang, Stanley Kubrick, Arthur Penn, David Lynch são alguns das muitas dezenas de realizadores de eleição que nunca viram um filme seu ser premiado com uma estatueta dourada. No campo dos actores, então, o esquecimento é ainda mais exemplar: Charles Chaplin, Greta Garbo, Lillian Gish, Cary Grant, Barbara Stanwyck, Montgomery Clift, James Dean, Gene Tierney, Peter O’Toole, Richard Burton, Natalie Wood, Steve McQueen, Peter Sellers, John Malkovich, Julianne Moore, Alan Bates..., a lista é infindável. Alguém, no seu perfeito juízo, concebe o cinema sem os filmes da grande maioria destes nomes? E atenção que só falo em nomes passíveis de serem eleitos pela Academia - é que, convém lembrar aos esquecidos e aos fanáticos dos Óscares -  existe e sempre existiu muito mais cinema para lá das muralhas de Hollywood. Felizmente que a história de todo esse Cinema não se confunde com a história de uma qualquer Academia. E o Tempo será sempre, mas sempre, o Juiz Supremo!

terça-feira, fevereiro 22, 2011

THE GETAWAY (1972)

TIRO DE ESCAPE




Um filme de SAM PECKINPAH


Com Steve McQueen, Ali MacGraw, Ben Johnson, Sally Struthers, Al Lettieri, Slim Pickens, Richard Bright


EUA / 122 min / COR / 16X9 (1.85:1)


Estreia nos EUA a 13/12/1972
Estreia em Portugal a 24/4/1973
Estreia em Moçambique a 20/10/1974
(LM, Teatro Manuel Rodrigues)


Adaptado de um romance de Michael Thomson, com argumento de Walter Hill, “The Getaway” é um clássico dos filmes de acção, mil vezes copiado mas nunca igualado. Inclusivé a escusada versão feita em 1993 com a dupla Alec Baldwin e Kim Basinger e realizada por Roger Donaldson fica mal na fotografia, pois o cinema não é equipamento informático ou de laboratório, onde se possa a belo prazer fazer cópias de um negativo original. Donaldson não é Peckinpah e sobretudo Baldwin não é McQueen. São estas pequenas aberrações que nos fazem pensar na pobreza de ideias que povoam as mentes de quem teria por obrigação desenvolver temas de interesse para o cinema actual e não se limitar a copiar o incopiável.

“The Getaway” é um thriller intenso, por vezes espectacular, mas acima de tudo feito com precisão por mão de mestre. Com muito humor à mistura, o filme vai alternando as cenas de acção com o envolvimento amoroso do casal McQueen-MacGraw, que nesta altura ia muito para além da simples representação, originando um verdadeira química entre os dois actores. No início o filme esteve para ser protagonizado por Cybill Shepperd e dirigido por Peter Bogdanovich, seu companheiro do início dos anos setenta. Mas Cybill foi substituída por Ali e por causa disso o realizador abandonou de igual modo o projecto. Sam Peckinpah foi contratado, Ali apaixonou-se por McQueen, e deste modo tudo contribuíu para que “The Getaway” tivesse sido feito num clima perfeito.

Existem autênticas cenas de antologia neste filme magnífico. A série de bofetadas com que McQueen contempla uma atónita MacGraw (porque apanhada de surpresa, visto a cena não constar no roteiro e ter sida improvisada por McQueen), a perseguição ao larápio do dinheiro no comboio ou aquela decisão magnânima no final, são as primeiras que me vêm à memória. Mas todo o filme está recheado de bons momentos, excelentemente filmados (parece que em sequência), que fazem de “The Getaway” mais um ponto alto da filmografia de McQueen e Peckinpah. Os dois homens entendiam-se às mil maravilhas – a colaboração entre ambos tinha começado em 1971, durante a rodagem de “Junior Bonner”, razão pela qual McQueen trouxe o realizador para a Paramount – e as suas fortes personalidades nunca foram obstáculo a que pudessem atingir os fins em vista. Houve alguns desentendimentos durante a rodagem, devidos sobretudo ao papel que McQueen também detinha como produtor executivo, mas Peckinpah tinha uma boa aliada em Ali MacGraw que rapidamente reestabelecia a concórdia entre os dois homens.

Muito embora “The Getaway” seja provavelmente o mais atípico filme de Peckinpah, o seu estilo está bem presente nas diferentes velocidades de filmagem ou na matreirice da montagem, em que o realizador joga com a dilatação e contracção do tempo. Veja-se por exemplo a apresentação do filme, onde os cinco anos de clausura de Doc McCoy são sugeridos magistralmente em cinco minutos por um encadeado de flash-backs e de flash-forwards. Privilegiando a construção dramática à simples cronologia, Peckinpah consegue dessa forma revelar-nos em poucos minutos o essencial do passado e da personalidade da personagem sem que uma única linha de diálogo seja proferida. Para isso também contribuiu claramente a interpretação de McQueen que, do seu modo muito especial nos consegue transmitir estados tão antagónicos como a cólera e a depressão por simples expressões faciais.

“The Getaway” foi uma lufada de ar fresco que percorreu este tipo de filmes logo no início dos anos 70. O género precisava de se renovar e, além disso, as carreiras de McQueen e Peckinpah tinham acabado de sofrer um rude golpe com a insipiência e a fraca aceitação de “Junior Bonner”. E se Peckinpah tinha recentemente realizado dois dos seus melhores filmes (“The Wild Bunch” em 1969 e “Straw Dogs” em 1917), McQueen, pelo contrário, não conseguia um grande êxito desde “Bullitt”, em 1968. O enorme êxito de “The Getaway” junto do público (mais de 40 milhões de receitas em todo o mundo) veio reacender o brilho de Steve McQueen, colocando-o de novo no topo dos actores mais populares do planeta.
CURIOSIDADES:

- Ali MacGraw teve de aprender a conduzir e a disparar armas de fogo para desempenhar a personagem de Carol McCoy.

- O escritor Jim Thompson foi contratado logo de início para escrever o argumento do seu próprio livro, no qual o filme é baseado. No entanto Steve McQueen não gostou de algumas passagens, sobretudo do final, que considerava muito depressivo, e resolveu substituí-lo por Walter Hill.

- A música da banda-sonora original tinha sido composta por Jerry Fielding, habitual colaborador de Peckinpah. Mais uma vez McQueen interveio e contratou Quincy Jones, pouco antes do filme estar concluído. Os solos de harmonica adicionais são da autoria de Toots Thielemans.

- Dado o romance que envolveu McQueen e MacGraw, os locais de filmagem (quase todos cenários naturais) eram constantemente invadidos por repórteres, o que frequentemente originava acessos de fúria a McQueen.

- Robert Evans, o produtor da Paramount de quem Ali MacGraw se estava a divorciar, encontrava-se na altura a produzir o filme “The Godfather”. Os actores Richard Bright e Al Lettieri aparecem em ambos os filmes.




domingo, fevereiro 13, 2011

LORD JIM (1965)

LORD JIM
Um filme de RICHARD BROOKS


Com Peter O'Toole, James Mason, Eli Wallach, Curd Jürgens, Jack Hawkins, Paul Lukas, Daliah Lavi, Akim Tamiroff


EUA-GB / 154 min /COR / 16X9 (2.20:1)


Estreia na Gã-Bretanha a 15/2/1965 (Londres)
Estreia nos EUA a 25/2/1965



Lord Jim: «I've been a so-called coward and a so-called hero and there's not the thickness of a sheet of paper between them. Maybe cowards and heroes are just ordinary men who, for a split second, do something out of the ordinary. That's all»

«If you want to know the age of the Earth, look upon the sea in a storm. 
But what storm could fully reveal the heart of a man?» 
Joseph Conrad

“Lord Jim”, adaptação feliz da novela homónima de Conrad, tem o mar como elemento primordial. É nele que se inicia, é nele que acaba. Mas para além de relatar uma simples aventura através dos cenários exóticos do Cambodja, Singapura e Hong Kong, o filme aborda antes do mais uma busca atormentada da redenção psicológica e íntima de um homem. E se no livro Conrad pôde descrever-nos perfeitamente a angústia anímica do seu personagem, Richard Brooks tem a seu favor o facto de poder mostrar-nos o personagem a lutar contra todo um mundo hostil que o persegue, e que não lhe irá permitir ter a almejada “segunda oportunidade”. Para isso conseguiu imprimir à história um ritmo cinematográfico ausente do romance e teve a argúcia suficiente para ir buscar um actor fabuloso como Peter O'Toole, que se encontrava no auge da sua carreira e que consegue exprimir todas as variantes psicológicas do herói de Conrad, por mais pequenas e subtis que elas sejam.

“Lord Jim” é uma das melhores obras de Conrad (1857-1924), romancista nascido em Kiev, na Ucrânia dos nossos dias, e cujos pais, polacos, se exilaram em França por motivos políticos. Conrad andou embarcado mais de duas décadas como oficial em navios ingleses, facto que esteve na origem dos livros que escreveu, nos quais o mar protagonizou quase sempre o cenário principal. Foi de uma viagem ao Congo, em 1890, que resultou o livro “Heart of Darkness”, inspirador de Coppola para o seu “Apocalypse Now”, e que tantas afinidades tem com este “Lord Jim”.

Jim Burke, oficial irrepreensível da marinha mercante inglesa, sonha com feitos gloriosos que hão-de fazer dele um herói, quando embarca a bordo do Patna, navio que transporta algumas dezenas de peregrinos muçulmanos. Uma tempestade leva-o a abandonar precipitadamente o navio num salva-vidas com apenas mais três homens. O cenário que deixam para trás prenuncia o naufrágio e consequentemente a morte de todos aqueles homens deixados entregues à sua sorte. Mas a sorte nem sempre é madrasta e o Patna acaba por se salvar. Os companheiros de Jim desaparecem mal chegados a porto firme, mas ele insiste ser julgado em conselho de guerra e a carregar, a partir de então, o anátema da vergonha da deserção.
Distituído da sua patente de oficial, e depois de durante algum tempo se ter tentado perder em diversos ofícios, cada um mais anónimo do que outro, Jim parte para o Oriente, mais precisamente para Patusan, posto de comércio interior, onde encontra um sádico general que tiraniza os nativos locais. Aquela escravidão, que pessoalmente não lhe diz grande coisa, e cujas razões políticas não tenta sequer compreender, será no entanto o veículo ideal para que se possa redimir do seu passado e atingir a glória há tanto tempo desejada. Será a sua “segunda oportunidade”.

Depois de “Lawrence of Arabia” e de “Becket”Peter O’Toole sobe aqui mais um degrau na escada que o levaria a ser considerado um dos maiores actores dos anos 60. A sua interpretação do herói idealista de Conrad consegue envolver-nos em todo o desespero e resignação existencial do personagem. Sobretudo aquele final dramático, vivido poeticamente com um sorriso nos lábios, e que marcaria mais uma etapa decisiva na carreira do genial actor inglês. Na altura da sua exibição (eu veria o filme pela primeira vez em Outubro de 68, no cinema Avenida, em Lourenço Marques) a fabulosa prestação de O'Toole confundir-se-ia com o próprio filme - "Lord Jim" era Peter O'Toole e Peter O'Toole era "Lord Jim".
De referir ainda os óptimos desempenhos de Eli Wallach (na figura do sádico general) e sobretudo de James Mason, que cria aqui um personagem absolutamente sinistro, Gentleman Brown. Superprodução de duas horas e meia rodada em 1964 mas preparada durante vários anos por Richard Brooks, que também escreveu o respectivo argumento, “Lord Jim” iniciou as suas filmagens em Angkor Wat, no Cambodja, numa altura de profunda instabilidade política. Quando se dão os acontecimentos de 10 de Março (assalto e incêndio das embaixadas inglesa e norte-americanas em Phnom Penh) o essencial já se encontrava filmado e por isso a equipa pôde regressar de imediato à Europa, sem ser molestada pela rebelião comunista em curso.